Sempre considerei Netanyahu o melhor nome possível para um político. Ao contrário de Trump, que nos irrompe pelo discurso, quase como um espirro, ou Putin, com a sua cadência que se assemelha a um verbo, muito menos Lula, homónimo de um animal invertebrado, nunca um bom pronuncio para um político. O nome Netanyahu tem outro glamour. É daquelas palavras que fica no ouvido, com uma sonoridade própria. Uma espécie de nome artístico, ao estilo de outros vilões como Valdemort ou Darth Vader. Uma melodia que gira sobre si mesma como um corpo autónomo, fora da autoridade moral dos dicionários, para se perpetuar no tempo, proposto pelo caprichoso término em “hu”, que nos força a suster o final da palavra por mais uns milésimos de segundo.
Passaram 48 dias(!) desde a última tentativa de Netanyahu de se perpetuar no tempo e no poder. O ataque preventivo a estruturas nucleares do Irão de 13 de junho foi a última das muitas e complexas estratégias que Israel utilizou para legitimar o genocídio em Gaza. Para qualquer vilão é necessária uma boa narrativa que lhe dê corpo, Netanyahu não é exceção, portanto fez uso do enriquecimento ilícito de urânio do Irão (a fazer lembrar as incursões contra as “armas de destruição maciça” de Saddam, no início do século) para atacar o principal ator do mundo árabe. No entanto, a prevenção de Netanyahu era outra – queria evitar a realização da conferência internacional para discutir a solução pacifica de dois estados, que seria mediada pela França e a Arábia Saudita (agendada para 17 de junho). Explodiu com a mesa de negociações antes das pessoas se sentarem, objetivo cumprido. Prevenção e água benta, cada um toma a que quer, e parece que até em Portugal tivemos muitos seguidores acérrimos do Netanyahuismo.
Após assinar o cessar-fogo entre Israel e Irão, finalmente, esta semana estiveram reunidas as condições para realizar a conferência da ONU com o objetivo de discutir a solução dos dois estados. A conclusão foi inequívoca, não há outra resolução possível que não seja o reconhecimento do Estado da Palestina, numa coexistência entre os dois estados. Perante a dificuldade da ONU em fazer-se ouvir como um ator de mediação nos últimos conflitos, Macron e Starmer tomaram a dianteira numa posição concertada entre a Europa continental e insular. Ambos os líderes convidaram quem ainda não o fez a reconhecer o Estado da Palestina. Esse reconhecimento será oficial a partir de setembro e conta já com o apoio de Canadá, Austrália e tantos outros que já o fizeram o ano passado (quo vadis, Rangel?). Só que o grande elefante republicano não estava na sala.
Apesar da ausência de representação dos EUA, aliado histórico das causas israelitas e com interesse em preservar a supremacia israelita naquela região para estancar possíveis riscos provenientes do mundo árabe, na conferência da ONU, Trump criticou a postura do primeiro-ministro israelita em Gaza. Trump quer o nobel da paz e já percebeu que Netanyahu está no seu caminho. Cada dia de ajuda humanitária bloqueada em Gaza é um dia mais longe do nobel, um dia mais distante da restante comunidade internacional e um dia mais próximo de tornar os Acordos de Abraão (um milagre diplomático) obsoletos. O apoio de Trump a Netanyahu, ou a qualquer solução que não passe pela coexistência dos dois estados, prejudica mais do que beneficia o presidente americano. O Hamas e a população de Gaza são entidades distintas, por isso a proporcionalidade da resposta à chacina do 7 de outubro foi ultrapassada há muito. Os atos hediondos do 7 de outubro perpetrados contra civis não podem justificar dois anos de atos hediondos contra civis ou a instrumentalização da fome como arma política.
As conclusões da conferência da ONU e o subsequente apoio do ocidente a uma solução de dois estados, que envolve o reconhecimento do Estado da Palestina, é um duro revés nas intenções de Netanyahu para Gaza e para a Cisjordânia.
Como bom aspirante a Darth Vader - e perante a esperança de voltar a colher a simpatia de Trump - Israel e Netanyahu estarão particularmente atentos aos proxies do mundo árabe nos próximos meses. Tentarão entrar em todos os conflitos que possam garantir a legitimidade do governo israelita, que evitem a solução dos dois estados, que atrasem o julgamento de Netanyahu e que tragam os EUA e os membros da NATO de novo para o lado negro da força – para um apoio à manutenção do conflito. É garantido que o império de Netanyahu irá contra-atacar seja para proteção da população drusa na Síria, para evitar o recrudescimento das forças do PKK, para manter o “cessar-fogo” com o Hezbollah no Líbano ou mesmo para evitar novo enriquecimento de urânio no Irão.
Netanyahu irá encontrar um pretexto. Fará tudo o que puder para afastar a atenção internacional da catástrofe humanitária de Gaza e trazer a comunidade internacional para um conflito sob a égide de evitar o expansionismo do mundo árabe. No entanto, quando o sol de agosto se puser, setembro virá com uma renovada pressão internacional dos membros da NATO para um cessar-fogo e reconhecimento do estado palestiniano. Netanyahu não tem muito tempo, mesmo que seja um corpo autónomo fora da autoridade moral das enciclopédias de direito internacional. A mudança de posição do mundo ocidental quanto ao reconhecimento da Palestina demonstra que a luta contra os proxies do mundo árabe já não é uma condição sine qua non para se legitimar no poder.
O alinhamento de forças para o dia seguinte ao cessar-fogo será fundamental em Gaza, no entanto, antes dessa alvorada, há um caminho a percorrer até lá. Esse caminho só poderá passar pela mão firme das instituições políticas e judiciais perante as constantes violações do direito internacional e (alegadamente) do direito nacional por parte de Netanyahu. Netanyahu não irá assumir a sua derrota política e diplomática de ânimo leve, utilizará todos os meios para bloquear as instituições, voltar à beligerância e impedir o reconhecimento da solução dos dois estados. Tudo para suster o último suspiro de relevância política do seu nome por mais uns segundos, enquanto percorre os longos corredores do tribunal. Resta saber se serão os corredores de Haia ou de Jerusalém.