Recuperação da Copa dos Frescos de Monserrate será "engenharia ao serviço da conservação"
Uma jovem vestida de noiva sorriu quando o fotógrafo traduziu as “felicidades” desejadas por um grupo que se dirigia ao Palácio de Monserrate, na Serra de Sintra, em obras para recuperação das icónicas coberturas até 2027.
O jardim romântico mandado plantar na segunda metade do século XIX pelo rico industrial Francis Cook e o palácio erguido sobre as ruínas de um castelo neogótico, é procurado por turistas de muitas origens e serve amiúde de cenário para fotos de família e celebrações, tendo como pano de fundo a variedade de espécies exóticas oriundas dos quatro cantos do mundo.
À beira do palácio que combina influências góticas, indianas e sugestões mouriscas, o presidente do conselho de administração da Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML), João Sousa Rego, explica à Lusa que a sociedade de capitais públicos que gere monumentos na área de Paisagem Cultural vai “iniciar as obras de restauro das coberturas altas do palácio”.
“São obras que não se fazem desde 2004 e que, de acordo com os nossos planos de manutenção plurianuais, verificou-se a necessidade desta intervenção profunda com um volume de investimento de cerca de 3 milhões de euros”, explicou.
Segundo o responsável, foi detetada a “deterioração das estruturas de madeira, tendo em consideração a tela asfáltica” colocada, num monumento com “uma arquitetura que necessita de um acompanhamento muito próximo e daí a empresa ter desenvolvido monitorizações regulares” e ter “equipas internas de manutenção em todo o palácio”.
A empreitada de recuperação, que se prolongará até “ao final do primeiro trimestre de 2027, inclui a recuperação das coberturas e da área da Copa dos Frescos”, adjacente à cozinha, sob um dos terraços a sul do histórico edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público.
“O palácio encontra-se maioritariamente com um estado de conservação regular e aceitável, sem grandes perdas patrimoniais”, salientou Sousa Rego, admitindo, contudo, que “as coberturas tiveram uma deterioração um pouco mais acentuada do que era expectável” e isso levou a “uma intervenção de fundo”.
O responsável da PSML adiantou que a obra implica o “levantamento da cobertura”, permitindo “ver espaços e áreas que atualmente estão fechadas a qualquer pessoa” e “ter uma intervenção mais cuidada, com tempo”, com os registos necessários também “para garantir que ficam para memória futura”.
A tarde decorre soalheira, em contraste com os céus carregados de chuva dos dias anteriores, mas da linha do horizonte a norte avançam nuvens cinzentas que tornam mais baças as três cúpulas de tonalidade vermelha do palácio.
No torreão sul, a platibanda sob as caleiras de escoamento em ferro fundido exibe falhas que caíram devido a infiltrações, que num dos lados se encontra preso com cabos de aço, só visíveis no varandim do torreão central vedado ao público, virado para o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, e em vários beirados já se podem observar ervas ou mesmo fetos.
No torreão norte, sobre a exuberante Sala da Música, a platibanda por baixo das caleiras desapareceram, facilitando as infiltrações e a exposição ao ambiente húmido da serra.
A empreitada, adiantou o diretor do Património Construído da PSML, João Cortês, envolve os torreões sul, central e norte, os “vãos todos, caixilharia e elementos pétreos, as fachadas”, desde os “trabalhados todos nas fachadas principais até só as alvenarias” e revisão das “juntas todas em argamassa”, as “drenagens e ainda a Copa dos Frescos”.
No âmbito das metodologias de intervenção em património, a empresa faz “uma manutenção regular” dos monumentos sob a sua gestão, mas foram identificadas “patologias profundas que não se conseguem resolver com uma manutenção simplesmente preventiva ou mesmo corretiva” e, por isso, houve necessidade de avançar com “uma intervenção de larga escala de reabilitação profunda das coberturas”, salientou.
O diretor técnico frisou que a empreitada irá “respeitar ao máximo os princípios da autenticidade e de intervenção mínima e de reversibilidade”, mantendo, “na medida do possível e em praticamente todas as ações, os materiais e as tipologias construtivas da época”.
Nesse sentido, será mantido o revestimento em chumbo das coberturas, “as caleiras em ferro fundido”, reabilitados “os sistemas de suporte estruturais das coberturas”, mantidas “as descargas de drenagem em chumbo” e também “reproduzidas as telhas tal qual como existem", mantendo “a materialidade original”.
A telha Monserrate, modelo reproduzido na anterior campanha de reabilitação, iniciada em 2001, mas logo interrompida por falta de verbas e posteriormente retomada e concluída em 2004, já não é produzida pelo mesmo fabricante.
No entanto, João Cortês confia que vão “recuperar os moldes” ou fazer reproduções “fidedignas das que existem”, fabricando exemplares com mais medidas de canal, do beirado até ao encastramento, para evitar cortes que facilitam infiltrações e melhorar “a estanquidade”.
Os visitantes, que se espalham pelas várias salas do monumento, tiram fotografias e lêem os painéis informativos sobre este testemunho da arquitetura romântica, que deve o seu nome a uma pequena ermida edificada por Frei Gaspar Preto, em 1540.
“Tivemos até outubro de 2025 […], 200 mil visitantes para o parque e o palácio. Tem sido um palácio com bastante atratividade”, referiu João Sousa Rego, destacando o valioso acervo de “elementos de natureza e de património construído e estatuário que o parque tem ao longo de todo o espaço”.
“Não nos podemos esquecer que estamos a falar de um parque romântico, todo ele pensado e trabalhado para ter esta espetacularidade que podemos absorver”, resumiu o presidente da PSML.
Recuperação da Copa dos Frescos de Monserrate será “engenharia ao serviço da conservação"
A empreitada da Parques de Sintra para a recuperação das coberturas do Palácio de Monserrate inclui a Copa dos Frescos, numa intervenção de “engenharia ao serviço da conservação e restauro”, avança fonte oficial da sociedade que gere o monumento.
A Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML), que gere jardins históricos e monumentos na área classificada da Paisagem Cultural de Sintra, iniciou a recuperação das coberturas e da área da Copa dos Frescos do Palácio de Monserrate.
Os trabalhos vão decorrer até final do primeiro trimestre de 2027, num investimento de “cerca de 3 milhões de euros”, e visam assegurar “a conservação e a estabilidade das coberturas e elementos estruturais associados, bem como a preservação dos paramentos exteriores e elementos constituintes e da integridade material da Copa dos Frescos”, explicou a empresa.
“A Copa dos Frescos é, quase que em jeito de brincadeira, engenharia ao serviço da conservação e restauro”, afirmou à Lusa o diretor do Património Construído da PSML, João Cortês.
O espaço, sob um dos terraços a sul do palácio, apresenta “problemas graves ao nível de infiltrações que, ao longo dos anos, foram comprometendo” os “perfis metálicos que dão sustento às abobadilhas” e, neste momento, “é completamente inviável a recuperação e irreversível o fenómeno de degradação”, acrescentou.
O diretor técnico explicou que a intervenção “vai exigir remover parcialmente alguns dos painéis azulejares, retirar, depois do devido escoramento” os perfis existentes, “colocar novos, com materiais modernos que vão impedir que o fenómeno volte a suceder, nomeadamente aço inox” e “reaplicar os mesmos azulejos”.
“Portanto, aqui o único material distinto e novo, que também contribui para a autenticidade da intervenção, é de facto a utilização do aço inox”, mas o “método construtivo continua a manter-se exatamente o mesmo”, salientou João Cortês.
As vigas que sustentam as abobadilhas da copa mostram-se totalmente enferrujadas e corroídas, no espaço adjacente à cozinha, enquanto à superfície a claraboia deixou de estar inserida num canteiro para minimizar os danos pela água.
“Com este tipo de intervenção um bocadinho mais profunda e que nunca foi feito, aqui já estamos confiantes e confortáveis que vamos conseguir, de uma vez por todas, acabar com as infiltrações nesse espaço”, considerou o técnico.
Enquanto decorrem trabalhos de manutenção regular numa área técnica no acesso à copa, a intervenção geral engloba a reabilitação das estruturas de suporte das coberturas, limpeza, consolidação e restauro dos revestimentos, e correção dos sistemas de drenagem e impermeabilização.
Os trabalhos contemplam ainda “a recuperação dos revestimentos pétreos e decorativos, respeitando os materiais e técnicas construtivas originais”, segundo a empresa.
“O chumbo traz os seus desafios, as caleiras também, pela escala, pelo peso, as caleiras em ferro fundido também vão ser bastante desafiantes, portanto, elas vão ter que ser integralmente desmontadas, tratadas e depois remontadas”, admitiu João Cortês, além da dificuldade colocada pela “reprodução das telhas”.
A propriedade, votada ao abandono por vários e longos períodos, foi arrendada pelo comerciante inglês Gerard de Visme, que mandou construir um castelo ao estilo neogótico, tendo passado por lá também o escritor inglês William Beckford, antes da compra por Francis Cook.
O parque e o palácio foram adquiridos em 1949 pelo Estado português e, após anos de abandono e pilhagem, e depois da classificação de parte da serra e da vila de Sintra pela UNESCO como Património Mundial, em 1995, a gestão foi entregue em 2000 à PSML.
O monumento vai ser rodeado por andaimes e ter uma cobertura durante as obras, mas João Sousa Rego, presidente da PSML, sublinhou que a empresa adota “a metodologia ‘aberta para obras’”, mantendo a visitação em condições de segurança, enquanto decorrem os trabalhos.
O responsável frisou que cada monumento tem “um plano estratégico plurianual de manutenção” e, em breve, irá iniciar-se uma intervenção na Capela Real do Palácio Nacional de Sintra, que “será também uma obra visitável”.