Uns "pés minúsculos" debaixo da escada: como uma menina de 6 anos foi encontrada dois anos depois de ter desaparecido

CNN , Mark Morales, Mirna Alsharif, Christina Maxouris e Ray Sanchez
17 fev, 15:59

Desaparecimento aconteceu em julho de 2019 numa vila nos arredores de Nova Iorque, EUA

Uma criança que foi dada como desaparecida em 2019 quando tinha 4 anos foi encontrada escondida debaixo de uma escada de madeira com a mãe - que tinha perdido a guarda da menina - numa casa várias vezes visitada durante a investigação, disseram as autoridades.

A criança, Paislee Joann Shultis, agora com 6 anos, foi dada como desaparecida a 13 de julho de 2019, em Cayuga Heights, uma vila nos arredores de Ithaca, Nova Iorque. Na altura, acreditava-se que teria sido sequestrada pelos pais, Kimberly Cooper e Kirk Shultis Jr., que tinham perdido a guarda da menina, segundo disse a polícia num comunicado à imprensa.

Paislee e a mãe foram encontradas na segunda-feira quando os investigadores repararam “num par de pés minúsculos” num espaço secreto por baixo de uma escada de madeira de acesso à cave.

“Devemos esperar até sabermos todos os factos”, disse Carol K. Morgan, que representa a mãe. “Todos devemos ter alguma paciência antes de tirarmos conclusões precipitadas.”

Na cave da casa, os detetives que procuravam a menina encontraram um apartamento que incluía um quarto com o nome de Paislee na parede, disse na quarta-feira à CNN o chefe da polícia de Saugerties, Joseph Sinagra. A cama parecia ter sido usada.

“Os nossos agentes perguntaram: ‘Ela está aqui?’… E os pais negaram que estivesse alguém a morar naquela casa, e naquele quarto em especial”, disse o chefe numa entrevista. “Eles disseram que tinham arrumado assim o quarto na esperança de a Paislee voltar.”

Paislee Joann Shultis numa foto divulgada pelo Departamento de Polícia de Saugerties.

Ao longo dos dois anos e meio da investigação, as autoridades receberam várias dicas sobre a casa na área de Saugerties onde a criança acabou por ser encontrada - mas os moradores negaram sempre saber alguma coisa sobre o paradeiro da menina, dizia o comunicado. Saugerties fica a cerca de 250 quilómetros a leste de Cayuga Heights.

“A resposta rápida? É assim o nosso sistema de justiça criminal”, disse Sinagra sobre a incapacidade do seu departamento de encontrar a menina mais cedo, acrescentando que segunda-feira foi a primeira vez que os agentes conseguiram obter informações factuais - não boatos - e isso validou um mandado de busca.

Sinagra disse que os residentes foram sempre antagónicos com os agentes, acusando a polícia de “os assediar” e de “os incomodar", “insistindo para que andássemos à procura de Paislee.”

Sinagra disse à CNN na quarta-feira que os agentes já tinham estado na casa uma dúzia de vezes, mas não puderam ir à cave nem à zona dos quartos.

“Incomoda-nos que isto se tenha arrastado durante dois anos”, disse o chefe. “Mentiram-nos durante dois anos, incluindo o pai que dizia que não sabia onde estava a filha.”

Em várias ocasiões, os investigadores puderam entrar na casa sem um mandado, mas foi-lhes dado “acesso limitado” por parte de Kirk Shultis Jr. e Kirk Shultis Sr., disse a polícia no comunicado à imprensa.

Isso mudou na segunda-feira, quando a polícia recebeu informações de que a criança estava a ser escondida e conseguiu um mandado para revistar a casa.

Os agentes chegaram ao exterior da casa por volta das 16h para garantir que ninguém saía. A polícia executou o mandado pouco depois das 20h, disse o chefe. O proprietário negou saber o paradeiro da menina, dizendo que não a via desde que tinha sido dada como desaparecida em 2019.

A polícia disse que o local secreto por baixo das escadas para a cave parecia ter sido construído para esconder a menina.

Algo peculiar numa escada

Decorrida uma hora de buscas, um detetive reparou que os degraus que levavam à cave estavam construídos de maneira estranha. O detetive, Erik Thiele, apontou uma lanterna para uma fresta nos degraus de madeira e viu o que parecia ser um cobertor, dizia o comunicado.

“Havia algo nas escadas que o incomodava”, disse Sinagra sobre o agente que descobriu o compartimento secreto.

Quando os agentes começaram a desmanchar os degraus, Sinagra disse que reinava um silêncio sinistro.

“A criança nunca fez barulho. Kimberly nunca fez barulho”, disse Sinagra.

“A pergunta para a qual precisamos de uma resposta é: o que lhe disseram os pais para a menina ficar tão sossegada e calada enquanto os agentes subiam e desciam as escadas e enquanto desmanchavam os degraus?”, acrescentou Sinagra.

Os investigadores retiraram vários degraus, acrescenta o comunicado, e “foi quando os detetives viram um par de pés minúsculos”.

Uma porta no quarto de Paislee, na cave, abria para um pequeno corredor que levava diretamente ao compartimento secreto por baixo das escadas, a cerca de um metro de distância, disse Sinagra.

“A criança e a sua sequestradora, Kimberly Cooper, foram encontradas escondidas no compartimento escuro e húmido”, dizia o comunicado da polícia. As autoridades acreditam que Cooper e a criança viviam na casa desde que desapareceram em 2019, disse Sinagra, acrescentando que a escada parece ter sido construída para as esconder.

“Na nossa opinião... aquele local deve ter sido usado sempre que enviávamos um agente à residência”, disse Sinagra.

A polícia prendeu Cooper e Shultis Jr. - os pais biológicos da menina - bem como Shultis Sr., dizia o comunicado.

Cooper foi indiciada por duas contravenções: interferência na custódia em segundo grau e colocar em risco o bem-estar de uma criança, e continua detida por causa de um mandado de prisão anterior emitido pelo tribunal de família, segundo a polícia.

Kirk Shultis Jr. e Kirk Shultis Sr. foram acusados de interferência na custódia em primeiro grau, um crime, e de colocar em risco o bem-estar de uma criança, uma contravenção. Ambos foram presentes a tribunal e libertados à sua própria responsabilidade, disse a polícia. O tribunal ordenou aos três arguidos que ficassem longe da criança.

Cooper, que saiu sob fiança, e os dois homens, compareceram em tribunal na quarta-feira.

Os casos dos homens foram adiados para o final deste mês. Os advogados recusaram-se a comentar. Cooper voltará ao tribunal a 2 de março.

A criança foi encontrada com boa saúde. Foi entregue ao responsável legal e reunida com a irmã mais velha, disse a polícia.

Na terça-feira, “os detetives reuniram-se com a família que tem a criança, e ela estava muito animada”, disse o chefe.

Uma última paragem: o McDrive do McDonald's

A menina estava “perturbada e preocupada” quando a polícia a resgatou, disse Sinagra.

“Isso faz-nos perguntar o que disseram à menina sobre a polícia e sobre a razão para a polícia a ir buscar”, disse Sinagra. “É isso que me preocupa... E tenho a certeza de que, quando ela viu vários dos nossos agentes, que estavam fortemente armados... isso deve ter sido um pouco traumatizante para ela.”

Antes de ser entregue ao tutor legal, os detetives levaram a menina para a esquadra, em parte para que pudesse ser examinada por um médico. Enquanto iam no carro, ela viu um McDonald's e lembrou-se de ter comido uma vez há muito tempo, disse o chefe.

“Então, os detetives viraram para trás e foram ao McDrive do McDonald's, compraram um Happy Meal e levaram-na para a esquadra. Depois disso, ela ficou bem”, acrescentou o chefe.

Está a decorrer uma investigação, segundo a polícia.

"Não sabemos o que Paislee viveu nos últimos dois anos”, disse Sinagra.

“E não sabemos que tipo de danos podem ter sido causados devido às condições em que ela teve de viver.”

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