A série da Netflix “Adolescência” veio acordar consciências. Veio mostrar aos pais que conhecem mal os filhos e sabem muito pouco sobre o que os adolescentes fazem nas redes sociais. Pais estão alarmados, professores e psicólogos dizem que não estão surpreendidos (nota: este texto não tem spoilers)
Um rapaz de 13 anos, de cabelo levemente ondulado, sardas marcadas na cara e ar angelical. Um jovem de 13 anos, com medo de agulhas. Uma criança que a polícia foi buscar a casa, mal o dia tinha rebentado, porque era suspeito de homicídio. Jamie é suspeito de ter esfaqueado até à morte uma colega de escola. É este o início da série da Netflix “Adolescência”, que está a preocupar pais, mas que “não surpreende” psicólogos e professores.
“Acho que os pais se deram conta que aquele miúdo podia, porventura, no limite, ser o filho deles, porque aquele miúdo é um bom miúdo”, nota Eduardo Sá, psicólogo.
“Gosto muito dos adolescentes que são adolescentes quando é suposto que sejam adolescentes. Aqueles que, às vezes, passam pela adolescência, como quem passa por entre as gotas de chuva, preocupam-me muito. Toda esta realidade à volta deles, parece não mexer com eles, e mexe. Parece que não mexe, mas mexe. E é tudo a mexer ao mesmo tempo. São tantas mudanças, tantas, tantas, tantas, tantas. Acho que para tantas mudanças que a adolescência lhes traz, eles são até muitíssimo equilibrados”, acrescenta o especialista.
A série de quatro episódios retrata várias questões ligadas a esta fase do desenvolvimento. O bullying e o ciberbullying, os códigos secretos dos adolescentes, o excesso de consumo de redes sociais, os conteúdos menos recomendáveis que os adolescentes vão buscar às mesmas, as relações entre pais e filhos. Poder-se-ia falar mesmo num manual da adolescência.
A série estreou a 13 de março e, só na primeira semana, teve mais de mais de 24 milhões de visualizações globais e quase 100 milhões de horas assistidas.
“Falta de carinho”
Marta Fradique Silva, 47 anos, administrativa, tem um filho precisamente da idade de Jamie. Fez questão de ver a série ao lado do filho: “Estava com muito receio, mas foi tranquilo”. Juntos foram pesquisar as novidades para as quais a série os despertou. Tanto a mãe como filho desconheciam os significados secundários dos emojis e a questão dos incels, um termo proveniente de “celibatário involuntário”, do inglês “involuntary celibates”, e que se refere a rapazes que se sentem incapazes de ter um relacionamento amoroso, mesmo quando se querem envolver com alguém, porque acham que ninguém os quer. Juntos, mãe e filho, foram procurar respostas e debateram o assunto.
Marta diz que ficou surpreendida com a “falta de carinho” entre pais e filhos, mas admite que pode ser “uma questão cultural”. “Pareceu-me que as crianças eram mais adultas do que as nossas”, acrescenta.
Sobre os mistérios da adolescência em si, Marta garante que não ficou surpreendida: “Os nossos filhos são diferentes nas nossas costas. Sei que o meu filho é diferente. Vejo pelas mensagens, porque controlo as mensagens… ele sabe que de vez em quando vou lá ver. E vejo pelas mensagens que ele troca que há diferenças entre o filho que tenho à minha frente e o que está nas minhas costas”.
“Algumas pessoas controlam de menos os filhos. Deixam-nos estar nos quartos fechados, pensando que estão seguros e precisamos de fazer mais parte da vida deles. Nós não temos muito tempo para eles. Têm as escolas, os ATL, os centros de estudos, as atividades. E não os conhecemos, nem conhecemos quem são os colegas deles”, reconhece Marta, que admite que “é um pouco mãe galinha” e que não se arrepende.
“Um murro no estômago”
Vanessa Ribeiro, 35 anos, ilustradora é mãe de três filhas, uma delas adolescente. Ver a série da Netflix, confessa, foi “um murro no estômago”. “Perceber como a sociedade não está preparada para os adolescentes de hoje. Aquela sensação de o meu filho está em casa protegido e afinal não está. A comunidade incel… deveria ser um assunto de adultos e não de jovens de 13 anos. Um menino de 13 anos não devia estar preocupado se vai ficar sozinho ou não, se as meninas nunca o vão querer”, diz, em declarações à CNN Portugal.
Vanessa ainda se lembra dos tempos de adolescente. “E, sim, há um mundo paralelo. Sempre houve”. “Mas não fazia a mínima ideia de que havia estes códigos dos emojis. Até achava que era uma mãe presente, atenta, para a frente, por ter sido mãe mais nova”, confessa.
Vanessa diz que “ainda está a processar” o que viu em “Adolescência”. A filha mais velha, agora com 17 anos, foi das últimas da turma a ter acesso a redes sociais. “O meu marido é informático e é muito rígido nessas coisas. Mas mesmo nós tentando controlar, ela ia para casa da avó e criava contas no tablet da avó”, diz.
Resignada, Vanessa constata que “só nos resta educar da melhor maneira que conseguirmos”. “Darmos muito amor, para eles terem sempre um refúgio, saberem que o mundo lá fora não é seguro, mas em casa é. E investir nos psicólogos, na saúde mental dos nossos filhos. Devia ser grátis. Mas o dinheiro que gastamos nos psicólogos dos nossos filhos é o melhor investimento”, sublinha.
“Escandalizou-me pouco”
Se Vanessa ficou surpreendida com o que viu na série, o professor de Português João Francisco Silva, pai de dois filhos (“um já adulto e outro de seis anos”) não se mostra tão surpreendido. “Honestamente escandalizou-me pouco”, resume.
Este universo paralelo em torno da adolescência é presença diária nas escolas e na vida dos professores. “Escandalizou-me mais os pais estarem escandalizados com o que veem na série do que a própria série. É assustador o desconhecimento que os pais têm desta realidade”, sublinha.
“Muitas vezes é preciso criarmos empatia e conquistarmos os alunos e conquistarmo-los através do respeito. Para que eles nos vejam como pessoas com quem possam desabafar. Na série, no que diz respeito à escola, vê-se que a profilaxia não existe e só há reações aos acontecimentos”, acrescenta ainda o professor. “Os jovens deixaram de reconhecer nos adultos pessoas que os podem ajudar”.
Também o professor de Biologia Gustavo Bastos se mostra mais surpreendido com a reação à série do que com o conteúdo da mesma. “Acho engraçado este fenómeno. Parece que toda a gente acordou para os problemas da adolescência. A série está feita, e bem, para captar a nossa atenção. Mas trouxe à luz do dia problemas com que nos deparamos diariamente nas escolas”, garante.
“Temo que seja daqueles fogachos. E que este mês só se fale da série e dos problemas da adolescência e depois para o mês que vem surja outro assunto e os problemas da adolescência voltem a ser esquecidos”, lamenta o professor.
Gustavo Bastos nota também que há determinados traços da adolescência retratados na série que são comuns às várias gerações de adolescentes. “A falta de autoestima é um deles. Mas nós lidávamos interiormente com as nossas fragilidades ou com um amigo ou outro. Hoje, os miúdos procuram e têm respostas no mundo digital. Respostas falaciosas muitas vezes”, alerta.
“Ninguém controla o mundo online”
Gustavo Bastos considera impossível controlar a vida virtual dos jovens: “Nem pais, nem professores, ninguém controla o mundo online. Esqueçam!”.
“Os miúdos hoje passam muito tempo online e encontram lá respostas simples para os problemas que estão a sentir. Daí ao discurso do ódio é um passinho”, alerta o professor de Biologia.
Gustavo Bastos diz que procura discutir os perigos do mundo virtual com os alunos e ainda se surpreende: “Hoje, na minha turma de 11.º ano, quando estávamos a entrar, falei do controlo parental, porque tenho o controlo parental instalado nos dispositivos dos meus filhos. Fomos ver nos telemóveis de cada um o tempo que passavam online e havia alunos que, às 08:00, já tinham duas horas de Tik Tok. Ou acordaram de madrugada para estarem nas redes sociais ou adormeceram com o telemóvel e estiveram até às tantas. Duvido que os pais saibam disto”, exemplifica.
E Gustava Bastos reforça: “Os adolescentes passam muito tempo num mundo virtual. Na bolha. Nem nós pais, nem professores temos controlo disso e temos de ter a noção”.
“Controlamos muitíssimo menos do que supomos”
O psicólogo Eduardo Sá concorda que os adultos controlam muito pouco da vida dos filhos. “Acho que nós pais já percebemos que, por mais que tenhamos a ideia que controlamos, afinal controlamos muitíssimo menos do que supomos. Portanto, não, os pais não controlam”, sublinha.
O psicólogo considera ainda que os pais se deviam interpelar e deviam preocupar-se em serem modelos para os filhos. “Os dados dizem-nos que, em média, os portugueses passam duas horas e meia nas redes sociais. Duas horas e meia é muito tempo. Muito tempo. Às vezes podiam passar só meia hora e ficar o resto do tempo, conhecer melhor os miúdos que têm ali à mão, não é?”, sublinha Eduardo Sá.
“Os dados dizem-nos que o exercício físico mais significativo que os portugueses fazem é fazer scroll. Dois quilómetros por dia a fazer scroll. E se calhar isto ajuda-nos a perceber que aquilo que os adolescentes fazem, se calhar também não é tão diferente do que os pais fazem”, reforça.
A psicóloga Tânia Gaspar, que trabalha diariamente com adolescentes, nem sequer gosta da palavra “controlar”. Prefere “comunicar”, “monitorizar, estar atentos, disponíveis”. “A palavra supervisão é melhor. O controlo implica uma certa rigidez que não é boa”, resume.
Afastamento “natural”
Tânia Gaspar diz que a série “Adolescência” é muito “o reflexo do que sentimos no consultório nos adolescentes, nos pais dos adolescentes, na supervisão parental”. A especialista defende que “aqui não há culpados”. “Isto tem a ver com o facto de os pais terem pouco tempo, pouca literacia tecnológica. Na adolescência, o afastamento entre filhos e pais é natural, porque os jovens precisam de desenvolver a sua identidade”, garante.
A psicóloga alerta para os perigos da navegação livre e desacompanhada das redes sociais pelos mais novos. “Encontram toda a informação, contactam com toda a gente e não têm a literacia para distinguir o que é fiável e saudável, daquilo que o não é. É preciso dizer-lhes que não podem tomar como certa toda a informação que lhes é dada e que têm de triangular”, sublinha.
Tânia Gaspar defende que “deviam existir psicólogos de família que deviam acompanhar os pais antes de cada etapa do desenvolvimento”. À falta desse aconselhamento individualizado, a especialista resume os conselhos numa só palavra: “diálogo”.
“E não precisa que sejam conversas formais. Aconselhamos, por exemplo, que haja atividades conjuntas que não sejam tensas, irem passear os cães os dois, por exemplo… para quando for necessário criar limites e regras, elas sejam bem aceites. Não temos de dizer que os jovens são piores ou são melhores. No fundo os jovens precisam é de espaços onde sintam que podem conversar, sem serem julgados, antes de situações como as que são retratadas na série acontecerem”, acrescenta.
