Como ser pai ou mãe da geração das redes sociais

CNN , Samantha Murphy Kelly
24 dez 2021, 14:00
Criança no Facebook. AP Photo/Paul Sakuma
Criança no Facebook. AP Photo/Paul Sakuma

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Em setembro, poucas semanas depois do início do ano letivo, Sabine Polak recebeu uma chamada do orientador. A filha de 14 anos debatia-se com uma depressão e já tinha pensado em suicídio.

"Fiquei completamente estupefacta", declarou Polak, de 45 anos, que vive Valley Forge, na Pensilvânia. "Não fazia a menor ideia que ela se sentia em baixo, de modo nenhum. Quando lhe falei nisso, ela só dizia que queria afastar-se de tudo... mas não sabia o que aquilo significava."

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Depois de a levar a um centro de crise, que proíbe o uso do telemóvel a qualquer pessoa que lá entre, Polak soube pela filha que as pressões das redes sociais eram o motivo da crescente ansiedade. A principal fonte de stress: esperar que os amigos abram e respondam a mensagens e fotografias no Snapchat.

"Tornou-se realmente viciante (para ela), a sensação de que tem de estar sempre ligada, e de que tem de estar sempre a responder a alguém para ser vista ou para existir. Ela olhava para o telemóvel e passava do estado de calma a sair violentamente do carro, passando o resto da noite encolhida na cama."

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Polak tinha ligado alguns controlos parentais do telemóvel, mas a filha contornava-os facilmente. Retirou-lhe o telemóvel, mas preocupava-a o facto de esta iniciativa poder levar a filha a pensar em pôr fim à vida outra vez. Devolveu-lhe o telemóvel e descobriu que a filha foi "consolar-se" noutra app de uma rede social, o TikTok, de tal modo, na verdade, que "ela literalmente acredita que não consegue adormecer sem ela." Como Polak diz, a filha "sente-se perdida do género: 'Não faço ideia do que fazer comigo se não estiver nas redes sociais.'"

Polak pertence a uma geração de pais que não passaram a infância com aplicações de redes sociais e se debatem agora para compreender os potenciais danos que as redes sociais podem provocar na saúde mental dos seus filhos enquanto crescem. Em entrevistas no mês passado, quase uma dúzia de pais falaram com a CNN Business sobre a luta que travam para lidar com adolescentes que são vítimas de danos provocados online como o bullying, problemas de imagem corporal e pressões para terem sempre “Gostos”. A maioria dos pais disse que esses problemas começaram ou foram exacerbados pela pandemia, uma altura em que os filhos estavam isolados dos amigos, as redes sociais tornaram-se uma tábua de salvação e o tempo passado diante de um ecrã aumentou.

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O tema do impacto das redes sociais nos adolescentes ganhou renovada atenção este outono, depois de a denunciante do Facebook Frances Haugen ter divulgado centenas de documentos internos, alguns dos quais mostravam que a empresa sabia do potencial do Instagram para ter um impacto negativo na saúde mental e na imagem corporal, especialmente entre as raparigas adolescentes. Mas Haugen também referiu o impacto nos pais. Durante o seu testemunho perante o Congresso em outubro, Haugen citou investigações do Facebook que revelavam que os miúdos acreditam que se debatem com assuntos como imagem corporal e bullying sozinhos porque os pais não conseguem orientá-los.

"Fico mais triste quando olho para o Twitter e as pessoas culpam os pais por estes problemas com o Facebook. Dizem: 'Tirem o telemóvel aos filhos.' Mas a realidade é que é muito mais complicado do que isso", declarou no seu testemunho.

"Muito raramente existe uma destas mudanças geracionais em que a geração que lidera, como pais que guiam os filhos, tem um conjunto de experiências tão diferentes que não tem contexto para apoiar os filhos de forma segura", acrescentou. "Precisamos de apoiar os pais. Se o Facebook não protege os miúdos, precisamos pelo menos de ajudar os pais a apoiarem os filhos."

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O Facebook, que mudou de nome para Meta em outubro, tentou repetidamente desacreditar Haugen e declarou que o testemunho e relatos dela sobre os documentos caracterizam mal as suas ações e esforços. Mas o clamor das revelações de Haugen pressionou o Facebook a repensar o lançamento de uma app do Instagram para crianças com menos de 13 anos. (Crianças com menos de 13 anos não podem, atualmente, criar contas em nenhuma das plataformas da Meta.)

Também ajudou a estimular uma série de audições no Congresso sobre como os produtos tecnológicos afetam as crianças, com executivos do Facebook, do TikTok e da empresa satélite da Snapchat, a Snap. 

Nos seus testemunhos, os executivos do TikTok e do Snap demonstraram humildade e reconheceram a necessidade de fazer mais para proteger as suas plataformas. Jennifer Stout, vice-presidente da Snap para a política pública global, declarou que a empresa está a desenvolver novas ferramentas para que os pais supervisionem melhor a forma como os filhos usam a app. O Instagram declarou anteriormente que está "cada vez mais centrado em lidar com as comparações negativas socais e com a imagem corporal negativa."

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A denunciante do Facebook,. Frances Haugen, compareceu perante uma subcomissão do Senado em outubro.

Antes da comparência no Congresso, o Instagram introduziu um Recurso Fazer Uma Pausa, que encoraja os utilizadores a passarem mais tempo afastados da plataforma. A empresa também declarou que planeia ter uma "abordagem mais estrita " aos conteúdos que recomenda a adolescentes e a motivá-los ativamente para diferentes tópicos se estiverem ligados a determinado tópico muito tempo. Também planeia introduzir as primeiras ferramentas para pais, incluindo um hub educacional e ferramentas de monitorização parental que permitam aos pais ver quanto tempo os filhos passam no Instagram a partir do próximo ano.

"É possível fornecer ferramentas aos pais e também informações sobre as atividades dos seus adolescentes, mas isso não é realmente útil se eles não souberem ter uma conversa com o seu adolescente sobre isso, ou como começar um diálogo que possa ajudá-los a aproveitar o máximo o tempo que passam online", disse Vaishnavi J, chefe da segurança no Instagram à CNN Business.

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Entretanto, membros do Congresso norte-americano mostraram um raro bipartidarismo unindo-se na crítica às empresas tecnológicas relativamente ao assunto. Alguns legisladores estão agora a fazer pressão para criar legislação que aumente a privacidade das crianças online e reduza a aparente dependência em várias plataformas, apesar de não ser claro quando será aprovada tal legislação.

Para alguns pais, estas mudanças não chegam com a celeridade necessária. Sem saberem o que mais fazer, os pais sentem que têm de avançar sozinhos, quer isso signifique pressionarem para que haja mudanças nas suas zonas escolares ou procurarem conselhos entre os seus pares nas mesmas redes sociais que acham que causaram sofrimento às suas famílias.

Uma preocupação antiga que está a piorar

Mesmo antes das revelações de Haugen, as preocupações em alguns lares em relação aos riscos que as plataformas das redes sociais representam para os seus filhos só aumentavam.

Katherine Lake disse que as redes sociais se tornaram "tudo" para a sua filha de 13 anos durante a pandemia, para passar o tempo em casa e para se ligar aos amigos. Ela disse que a adolescente dela entrou numa série de páginas sobre saúde mental e, mais tarde, fez publicações sobre automutilação, algo que a filha "nem sequer sabia que existia antes do Instagram." A adolescente foi hospitalizada na primavera depois de uma tentativa de suicídio.

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"A pandemia acelerou certamente algumas das ameaças e perigos com que lidamos há anos", declarou Marc Berkman, CEO da Organization for Social Media Safety (Organização para a Segurança nas Redes Socais), um organismo criado há três anos para providenciar workshops de dicas e segurança preventiva aos pais.

Alguns dados também confirmam que os problemas de saúde mental entre os jovens estão a aumentar. Bark, um serviço de monitorização pago que monitoriza as apps das redes sociais, mensagens pessoais e emails em busca de termos e frases que podem ser preocupantes, declarou que detetou um aumento de 143% em alertas enviados em torno de automutilação e de ideação suicida durante os primeiros três meses de 2021, em relação ao ano anterior. (Os pais recebem alertas quando o Bark deteta problemas potenciais, e faz recomendações de peritos em psicologia infantil sobre como lidar com esses alertas.)

"A vida dos nossos filhos está enterrada profundamente nos seus telemóveis e os problemas vivem dentro do sinal digital em locais a que os pais não vão", declarou Titania Jordan, diretora de marketing do Bark. "Se não passam tempo nos locais onde os seus filhos estão online, como podem estar informados e como podem orientá-los?"

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Gabriella Bermudez, aluna da Universidade Fordham, de 19 anos, disse à CNN Business que começou a ter problemas com a imagem corporal no preparatório, depois de um rapaz por quem ela estava apaixonada começar a gostar de fotografias de uma modelo de 30 anos no Instagram.

"Eu tinha 12 anos, e olhava para ela e pensava: 'Porque não tenho este aspeto?'" declarou Bermudez. "Estava cheia de acne. O meu cabelo era horrível ... Nunca me passou pela cabeça que ela era uma mulher adulta. Publicava fotografias minhas comigo a fazer-me passar por ter mais idade do que tinha."

Mas isso começou a atrair mensagens de homens mais velhos no Instagram. Ela não disse aos pais, declarou, porque pensou: "Eles nunca vão entender o que é ser jovem (agora)."

"Eles sempre tiveram pressões da sociedade para ter tal visual ou para se comportarem de certa forma, mas isso aparecia em revistas ou na TV. Podiam desligar. Nós estamos sempre ligados aos nossos telemóveis. Quando esperamos na paragem de autocarro ou quando vamos para as aulas, somos sempre bombardeados com esses ideais."

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Em busca de respostas

Quando Julia Taylor precisa de ajuda para tomar decisões de parentalidade, às vezes recorre a um grupo do Facebook chamado "Parenting in a Tech World." O filho de Taylor tem TDAH (Transtorno de Défice de Atenção e Hiperatividade), o que, segundo ela, faz com que ele "se torne hiper focado em certas coisas," incluindo "tudo o que tenha um ecrã." Taylor, mãe solteira da zona de Denver, queria comprar-lhe um smartphone", mas ele contornava todos os controlos parentais, e às vezes, ficava acordado toda a noite."

No "Parenting in a Tech World," que tem 150 000 seguidores, ela e outros pais podem encontrar respostas a uma vasta gama de tópicos, incluindo sites sobre quando um miúdo pode ser autorizado a aderir a uma rede social, o que fazer se enviam ou recebem mensagens ou imagens inapropriadas, e recomendações de produtos como uma docking station que mantém os aparelhos fora do quarto dos miúdos à noite. No ano passado, Taylor comprou um telemóvel Pinwheel que vem sem motores de busca e que restringe o uso de redes sociais. (Posteriormente juntou-se à empresa a tempo inteiro como gestora de marketing.)

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Jordan, da Bark, criou o grupo há anos, depois de ter entrado para a empresa, quando teve dificuldades em encontrar recursos para a ajudarem na sua parentalidade. "Sempre foi preciso uma aldeia para se ser a melhor mãe que se consegue ser, e enquanto esperamos que os legisladores e a Big Tech tomem a atitude correta, no fim de contas, ninguém vai ser melhor mãe ou pai do que nós próprios. O melhor que se pode fazer é aprender com outros pais que passaram pelo mesmo, aprender tanto com os erros como com as vitórias."

Sobre este assunto, no entanto, não há respostas fáceis. As redes sociais e os smartphones vieram para ficar, e afastá-los pode minar as relações sociais e sentido de independência de um filho. Segundo Alexandra Hamlet, psicóloga clínica em Nova Iorque, é importante que os pais ajudem os adolescentes a navegar tanto online quanto no mundo físico, sendo compreensivos e não emitindo juízos de valor. "Se conseguirmos ensinar e apoiar os nossos filhos no sentido de usarem as mesmas qualificações para navegarem em cada um dos mundos, aumentamos as hipóteses de conseguir saúde mental", declarou ela.

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Há agora uma gama variada de ideias sobre políticas a serem discutidas para ajudar os pais e os filhos. Alguns críticos, incluindo Haugen, declararam que as empresas tecnológicas deviam afastar-se dos feeds de notícias baseados em algoritmos que podem arrastar os utilizadores para maus caminhos. Dois senadores democratas apresentaram legislação chamada Kids Act, que proibiria configurações de autoplay e aumentaria os alertas com a esperança de limitar o tempo diante de um ecrã. E a Organization for Social Media Safety declarou que está a trabalhar com o Congresso para tentar apresentar legislação que iria requerer apps externas de monitorização parental em todas as contas de miúdos até certa idade nas redes sociais.

Alguns pais dentro e fora deste grupo do Facebook já usam apps de controlo parental, e têm comprado telemóveis low-tech e a contar o tempo de utilização de redes sociais. Alguns chegaram até a tentar fazer com que as escolas dos filhos tomassem medidas que podem ir de proibição de telemóveis nas salas de aulas a reprimir incidentes de bullying online, com pouco sucesso.

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Fernando Velloso, um pai de Los Angeles, diz que a filha que frequenta o secundário lidou com uma conta anónima de bullying, provavelmente criada por colegas de turma que faziam alegações falsas sobre a vida amorosa dela. Ele diz que a escola não quer tomar uma atitude por ter ocorrido fora das instalações.

Numa série de contas do Instagram de liceus da zona, que foram vistos pela CNN, os alunos são encorajados a apresentar dicas de mexericos em contas que chamaram aos alunos batoteiros, violadores ou questionaram a sexualidade de alguns. Apesar de o Instagram ter banido algumas das contas, outras mantêm-se ativas. (Um porta-voz da Meta disse que as contas não violavam as regras da comunidade, mas vários conteúdos violavam e foram retirados.)

Bermudez diz que as escolas podem fazer mais para ensinar os adolescentes a gerirem melhor a saúde mental e as redes sociais. "Precisamos de ser ensinados muito cedo, na escola primária, a usar as redes sociais e a torná-las espaços seguros."

Durante o seu testemunho, Haugen disse que as escolas e as organizações como Institutos Nacionais de Saúde deveriam providenciar informação estabelecida em que os pais possam aprender a melhor apoiar os seus filhos. Entretanto, a Organization for Social Media Safety está a lançar um programa com a DARE (Drug Abuse Resistance Education – Educação de Resistência ao Abuso de Drogas) que deverá fazer parte do currículo em milhares de escolas no fim do atual ano letivo, para ensinar aos alunos os perigos das redes sociais.

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Polak, a mãe cuja filha tinha pensamentos suicidas, propôs uma Semana da Consciência da Saúde Mental na escola da filha que incluiria visionamentos de “Childhood 2.0” e “The Social Dilemma”, dois documentários que abordam a forma como as plataformas estão a afetar o bem-estar dos seus utilizadores.

Polak disse que a filha está melhor e de vez em quando acede às redes sociais com restrições de tempo. "Mas uma vez por semana temos uma discussão sobre redes sociais em que ela pergunta: 'Quando posso voltar ao Snapchat? Quando posso voltar ao TikTok?' É uma luta constante, e há muita pressão dos pares vinda dos amigos, bons amigos, para que volte a usar algumas das apps."

Mas uma noite, há pouco tempo, ela descobriu a filha a brincar com o gato da família durante meia hora no quarto. "Pensei: ‘Caramba, é isso que falta, as pequenas coisas quotidianas que nos aplacam a ansiedade’", declarou. "É o que falta completamente na vida dos adolescentes nesta altura."

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