Como e quando devemos falar de sexo com os nossos filhos?

1 mai, 16:00
Família (Pexels)

Muitas famílias têm receio do momento em que é necessário sentar o filho no sofá e ter "a conversa". Mas a verdade é que a comunicação sobre a sexualidade começa mais cedo do que muitos imaginam

Quando é que os pais devem falar com os filhos sobre sexo? Será esta uma questão da responsabilidade dos pais ou das escolas? Especialistas em psicologia e sexologia explicam à CNN Portugal que é errado pensar que existe um momento para começar esta conversa. Na verdade, os pais já começam a "comunicar" sobre sexualidade com os filhos "desde muito cedo".

"As crianças ainda não falam e as famílias já estão a comunicar sobre a sexualidade", diz a sexóloga Vânia Beliz, que aponta como exemplos a divisão de tarefas entre o pai e a mãe e a manifestação das emoções no seio familiar. Tudo isto permite às crianças perceber o que é a sexualidade, um conceito que "engloba muitas áreas, sendo o sexo apenas uma delas."

Segundo a psicóloga clínica Marta Calado, "não existe uma idade ideal em que devemos ter esta conversa" com as crianças. "Existe, sim, a capacidade de os pais perceberem quando é que a criança está realmente mais apta a compreender determinado tipo de respostas", acrescenta.

Mas, a partir do momento em que as crianças começam a falar, é natural que comecem a surgir algumas questões, motivadas pela curiosidade infantil, como explica Vânia Beliz: "Por volta dos dois ou três anos de idade, começam a ter muita curiosidade sobre o seu corpo, sobre o corpo dos adultos, começam a perceber as diferenças."

Nessa altura, "os pais e educadores devem sempre responder de forma objetiva, porque, se houver algum constrangimento na resposta, as crianças vão sentir", indica Marta Calado. Quer isto dizer que os pais devem abordar o assunto "com naturalidade, sem metáforas, de uma forma muito clara e adaptada às necessidades e capacidade de compreensão da criança".

Chamar os genitais pelos nomes

"É muito importante que a criança saiba os nomes científicos das partes íntimas, bem como quem pode auxiliar na sua higiene, nos seus cuidados íntimos", salienta a psicóloga, lembrando que este conhecimento está muito associado à prevenção de situações de abuso sexual ou de violência sexual, uma vez que a criança começa a aprender sobre "a sua privacidade, o seu consentimento e respeito" pelo próprio corpo.

A sexóloga Vânia Beliz defende também que os pais e educadores devem utilizar os termos "verdadeiros" quando abordam as partes íntimas do corpo humano. "Se eu estou a nomear outras partes do corpo com os nomes corretos e depois chego aos genitais e digo um nome aleatório, estou a passar uma mensagem de que aquela parte do corpo não é normal", explica.

Tal como Marta Calado, Vânia Beliz defende que a forma como estes assuntos são abordados com os mais novos deve ser "adequada" às idades. Por exemplo, quando as crianças fazem a derradeira questão sobre "como se fazem os bebés?", a sexóloga não recomenda de todo que se conte a história da cegonha. Mas o assunto deve ser abordado de forma adequada, consoante a idade:

"Eu não vou explicar a uma criança de quatro anos da mesma forma que vou explicar a uma criança de 10, até porque ela não tem capacidade para perceber. A uma de 4 quatro anos explico que existem umas células especiais no corpo do pai e no corpo da mãe, que, quando se juntam, pode existir um bebé."

Preparar a adolescência

Na pré-adolescência, as especialistas salientam a importância de se explicar às crianças os processos de transformação que poderão vir a sentir, como a primeira menstruação das meninas, a pilosidade, os odores corporais e a higiene íntima. Nesta altura é muito importante também que se trabalhe a auto-estima das crianças, "para prevenir todos os problemas que depois aparecem na adolescência", defende Vânia Beliz.

A partir dos 12 anos, Marta Calado diz que é altura de se falar em temas como a masturbação, abordando o assunto "com naturalidade, sem repreender". É importante ter em atenção a forma como se abordam estas questões, pois, "a partir do momento em que a criança se sinta acolhida por pessoas que são compreensíveis, vai sentir um à vontade para questionar, sem ter necessidade de procurar as respostas nas redes sociais, que podem criar situações mais delicadas no futuro".

Há casos em que as crianças não demonstram curiosidade sobre a sexualidade, ou por serem mais introvertidas ou por outros motivos, indica a psicóloga, recomendando que, "se a partir dos 10 anos a criança não explorar ou não tiver curiosidade no que respeita a este assunto, os pais devem promover o desenvolvimento deste tipo de conversas, começando por abordar o assunto, por exemplo, através de um livro que seja adequado para esta idade e que vá espoletar este tipo de dúvidas que a criança possa ter",

"Quando a criança pergunta, é porque sente à vontade com o adulto para estabelecer este tipo de confiança necessária para as conversas íntimas. Quando não o faz, o adulto deve procurar fazer com que a criança compreenda que, se um dia tiver algum tipo de questão a este nível, pode, sem qualquer tipo de constrangimentos, sem vergonha, falar com aquele adulto num ambiente de confiança, de partilha e de segurança", aconselha.

Já na fase adolescência, por ser uma fase muito complicada, em que a maior parte dos jovens não se sente à vontade para falar com os pais sobre estas questões, é importante que a família se mostre "disponível para conversar sobre o assunto e para apoiar nas dúvidas que possam surgir, sem ser intrusiva".

E a escola?

Tanto Marta Calado como Vânia Beliz destacam o papel da educação sexual nas escolas, lembrando o decreto-lei n.º 60/2009, de 6 de Agosto, que estabelece o regime de aplicação da educação sexual em meio escolar. Apesar do caráter obrigatório da inclusão da educação sexual nos projectos educativos do ensino básico e secundário da rede pública, a realidade não é bem assim.

"Este tema ainda é muito tabu e muitas direções escolares não estão a desenvolver este decreto-lei tal como deveriam. É por isso que, infelizmente, surgem muitas situações de abuso sexual, de violência sexual, mesmo entre os jovens, por exemplo, com a partilha de vídeos na Internet, ou situações em que não há respeito pelo seu próprio corpo nem pelo corpo do outro", lamenta a psicóloga Marta Calado.

Este é um problema que começa, desde logo, na parca formação dos professores e educadores. No âmbito da sua investigação de doutoramento, a sexóloga Vânia Beliz conta que a maior parte dos educadores de infância que são objeto do seu estudo "nunca teve formação em educação para a sexualidade"

"Eu trabalho nesta área há cerca de 15 anos e continuo a ver as mesmas dúvidas. Continuo a ir às escolas e a ver rapazes a não querer usar preservativo, continuo a ouvir meninas dizerem que não querem tomar a pílula porque engordam", refere. 

Para a sexóloga, é essencial, por isso, apostar no investimento para a educação sexual nas escolas, mas também no Serviço Nacional de Saúde (SNS), onde, aponta, "há muita falta de apoio às famílias, faltam consultas de aconselhamento e de sexologia - seja para os jovens, seja para os adultos. E mesmo para os adultos mais velhos, em que o assunto também é tabu".

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