Especialistas dão cinco conselhos para escolher a melhor atividade de férias do seu filho

Manuela Micael
18 jun, 09:00
Crianças na escola

São quase três meses de férias que podem ser um pesadelo para muitos pais. A CNN Portugal ouviu pediatras e psicólogos que explicam o que se deve avaliar na hora de encontrar as melhores atividades para ocupar os tempos livres das crianças

Assim que começa um novo ano letivo, Inês Santos, mãe de um pré-adolescente de 12 anos e de dois rapazes de sete e dez anos, começa a planear as férias escolares dos filhos. Só assim, garante, consegue ter tudo bem planeado, tendo em conta a ginástica financeira que tem de fazer. “São cerca de 1200 euros para os três, sendo que o mais velho este ano já fica três semanas em casa. Vou gerindo com o IRS do ano anterior, com o subsídio de Natal já destinados para esta questão”, conta.

O aspeto financeiro é, na verdade, o grande entrave que Inês encontra para ocupar os tempos livres dos filhos: “Desde que haja dinheiro para pagar, a dificuldade é muito pequena”.

O mesmo pensa Joana Freitas, que admite que, para o único filho, gasta, em média 600 euros por ano em atividades das férias de verão. “No mínimo são oito semanas. Porque eu só consigo tirar duas ou três semanas de férias, mas ele tem 11 ou 12. Há anos em que pago mil euros”, nota.

As juntas de freguesia e câmaras municipais costumam apresentar programas atrativos, incluindo do ponto de vista financeiro, mas com vagas muito limitadas e por isso “quando abrem as inscrições, esgotam logo”.  

 Encontrar as melhores atividades não é tarefa fácil até porque muitas vezes, pais e filhos têm opiniões contrárias. Além disso, há quem goste de ficar algum tempo em casa, sem nada para fazer. Esta foi, aliás, uma das opções tomadas este ano por Inês para o filho mais velho. Aliando o útil ao agradável, vai procurar fomentar a independência e a autonomia do filho, deixando-o em casa algumas semanas das férias. “Como já é mais velhinho, deixamo-lo ficar duas semanas em casa. Na idade em que ele está, sinto que devo dar-lhe estas semanas de pausa”, justifica. Pausa esta que é exatamente uma das sugestões dadas pelos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, que explicam o que os pais devem fazer para escolher a melhor forma dos filhos ocuparem o tempo nas férias

Ter atenção ao interesse dos filhos

Um dos principais fatores a ter em conta na hora de escolher a atividade de verão é, garantem os especialistas, que seja algo que a criança goste. “As escolhas das atividades devem valorizar sobretudo a área de interesse da criança, permitindo um investimento individual sem carácter avaliativo e apoiando sobretudo o desenvolvimento da sua personalidade”, sublinha Marta Filho, psicóloga clínica especialista em psicologia do desenvolvimento.

O pediatra Hugo Rodrigues, autor do site Pediatria para Todos, também é perentório em colocar os interesses da criança como uma das prioridades na escolha: “É importante que os pais escolham atividades que deem prazer aos filhos e que, se possível, os envolvam nessa escolha.”

Além de sublinharem que se deve colocar a crianças no centro da decisão as psicólogas Cátia Lopo e Sara Almeida, da clínica Escola do Sentir., explicam que é importante nunca impor nada que torne aquele período de férias um desconforto.

“Deve-se levar a criança ao processo e tomada de decisão, apresentando-lhe várias opções e pensando os prós e contras de cada opção”, começa por explicar Cátia Lopo, sublinhando que “a decisão deve ser tomada em conjunto para que a criança, ou adolescente, se sinta responsável pela opção escolhida e, posteriormente, esteja comprometida e envolvida nas atividades de férias que frequentar”.  Sara Almeida nota que “é essencial que os pais tenham sempre presente que as férias são dos filhos e que o tempo e as experiências vividas nas atividades de férias serão vividos pelos filhos, sendo por isso, absolutamente essencial que a escolha de uma atividade de férias vá sempre ao encontro dos interesses da criança ou adolescente”.

Segundo as psicólogas, as férias devem “ser sinónimo de liberdade, de descontração e de brincadeira” e, por isso, uma atividade de férias, nunca deve ser “numa área que seja penosa ou difícil”.

Apostar na atividade física

Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal são unânimes em dar um outro conselho aos pais: incluir sempre uma componente física nas atividades das férias de verão.

“A maioria das crianças passa o resto do ano sentada e pouco faz, além da ginástica na escola. Por isso, tem de haver atividade física nas férias. Isso para mim é ponto assente. E os pais têm de dar o exemplo: não posso pedir aos meus filhos que façam alguma atividade física e depois ficar sentado no sofá”, alerta Hugo Rodrigues.

Por outro lado, o pediatra lembra que “como o período das férias escolares é muito maior do que as férias dos pais, “a maior parte das crianças que fica em casa acaba por se agarrar ao ecrã”.  Por isso, defende: “É saudável que se encontrem atividades que deem prazer às crianças e que contrariem esse sedentarismo”.

Segundo o pediatra, é fundamental que as crianças e adolescentes façam algo que não fazem habitualmente. E, mesmo que sejam absolutamente sedentárias, devem fazer exercício nas férias. “Estamos a falar de um nível de atividade que não é de competição e terá um nível de exigência adequado à sua faixa etária. Até pode servir para lhe dar o clic que os fará interessar-se pelo Desporto no resto do ano”, explica o médico.

Cláudio Conde é mestre de Karate, proprietário do Dragon Spirit Dojo e ensina a atividade enquanto atividade extracurricular ao longo do ano. A experiência fá-lo ir ao encontro da opinião do pediatra Hugo Rodrigues:

“Acho sempre importante que se faça atividade física. Pode ser nestes dois meses que ganhe o gosto”, diz, alertando que é preciso ter atenção a algumas situações: “Se estamos diante de uma criança com excesso de peso, aconselharia primeiro a avaliação de um pediatra.  Se calhar tem problemas de joelhos e não é conveniente entrar já numa arte marcial, mas optar pela natação por exemplo”.

Caso seja é uma criança saudável, diz, a melhor opção é “direcionar a atividade física para as necessidades que os pais entendam que a criança tem”. Um exemplo:  A criança necessita de rotinas e regras?, então as artes marciais podem ser uma boa opção”

Aproveitar para criar novas competências

Outro conselho comum dado pelos especialistas ouvidos pela CNN Portugal é o de os pais aproveitarem as férias para desenvolver nos filhos novas competências e para os obrigarem a desafiar-se.

“Nesta altura do ano, é importante que a criança se sinta livre da pressão escolar, dando lugar a novas aprendizagens que desenvolvam outras competências de carácter prático, autonomia e inteligência emocional, preditivas de um futuro escolar de sucesso”, defende a psicóloga Marta Fialho.  

Segundo Cátia Lopo e Sara Almeida, a melhor forma dos mais novos se desafiarem e desenvolverem diversas competências é terem interesse e bia relação com a atividade que estão a realizar.

Avaliar quem presta o serviço

Se é essencial, quando se escolhe uma semana de ocupação de tempos livres, ter em conta o aspeto financeiro, o interesse da criança e o desenvolvimento físico e emocional é imperativo que os pais saibam “onde vão meter os filhos”.

“É fundamental escolher entidades que garantam alguma segurança nas atividades que vão desenvolver”, lembra o pediatra Hugo Rodrigues.

Saber o que fazem as entidades promotoras e em que condições o fazem é um ponto que nenhum pai deve descurar, sob pena de estar a colocar em risco a saúde física da criança.

Ana Pombo, também psicóloga e coordenadora do ATL da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola de Vila Verde, em Sintra, há cerca de 15 anos, sabe bem da importância que os pais dão à segurança e à qualidade na hora da escolha.

“Aconselho sempre os pais a verificarem o cuidado que se tem na instituição e a segurança que oferecem no dia-a-dia e até que ponto é que promovem atividades saudáveis”, diz.

Com atuação num meio mais rural, onde “toda a gente se conhece”, as crianças vêm muitas vezes para ATL de Vila Verde por indicação de alguém conhecido.

“Os nossos clientes são aqueles que estão connosco ao longo do ano. Mas é um ATL que está aberto a todas as escolas do agrupamento. Por isso, para nós, é muito importante criar nos pais esse sentimento de segurança, porque a divulgação faz-se aqui muito pelo boca-a-boca”, explica Ana Pombo, que diz sentir uma responsabilidade acrescida na hora de planear as atividades do ATL que coordena para as férias de verão. “Acima de tudo, tratamos as crianças como se fossem nossos filhos. Porque eles também são nossos enquanto cá estão”.

Dar importância ao "não fazer nada”

Apesar das atividades de tempos livres serem importantes, as especialistas, avisam que não devem assumir, de forma integral, a ausência da escola.

“Existe a pressão da sociedade para que as crianças sejam mini-adultos, que estejam produtivas o tempo todo, mas é necessário encontrar um equilíbrio. O tédio, ao contrário do senso comum, revela-se de extrema importância para o desenvolvimento cognitivo da criança”, diz a psicóloga Marta Fialho, explicando que nesses momentos de paragem, “as distrações diminuem, aumentando o fluxo do pensamento, criatividade, imaginação, inovação e uma maior maturidade”

Além disso, nota Ana Pombo, é fundamental haver tempo “verdadeiramente” livre na vida de cada criança para se criarem “memórias em família, fora do espaço escolar”. Marta Fialho é da mesma opinião. “Esses momentos, permitem desenvolver vinculações seguras entre pais e filhos, sendo estes fatores protetores para a saúde mental da criança”.

Também o pediatra Hugo Rodrigues defende que o tempo livre para não fazer nada é fundamental no dia-a-dia e, “nas férias também”.  

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