opinião
Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Mãe, onde está a Marta?

20 nov 2024, 12:28

Recordo aquele dia como se fosse hoje. A notícia caiu como uma bomba. Estávamos no 6.º ano na Escola André Soares. A professora entrou na sala e, sem rodeios, anunciou: “A vossa colega Marta foi atropelada com gravidade e está entre a vida e a morte.” 

A Marta tinha sido levada para o Hospital e estava em estado crítico. Pensava que um dia ela saísse daquele hospital com vida. A turma uniu-se ao sofrimento da sua família. Alguns rezamos. A notícia difícil não demorou a chegar: a Marta não resistiu. Recordo o sentimento de revolta. Foi o meu primeiro contacto real com a morte. Na minha inocência, perguntei à minha mãe: “Mãe, onde está a Marta?”.

Ela respondeu-me: “Essa é uma pergunta que só Deus sabe responder. Mas podemos pedir-lhe ajuda para entender. Deus quer muito que a Marta esteja com Ele no Céu, onde não há dor, só alegria e amor”. A resposta confortou-me pouco. Como era possível perder alguém tão jovem? E para onde vão as pessoas que amamos? No funeral da Marta fiquei frente a frente com a morte, um vazio que me parecia inexplicável.

Uns anos mais tarde, numa aula de Educação Visual, um funcionário da escola veio chamar-me. “O teu pai está lá fora”. Pouco depois fiquei a saber que a minha avó Joaquina tinha falecido. Tentei ser forte para consolar o meu pai pela perda da sua mãe, mas quem precisava de consolo era eu. Foi uma despedida sobrenatural mas muito dolorosa.  

Estes momentos marcaram-me, e agradeço à minha família por nunca me ter escondido a realidade da morte. Penso que há hoje uma tendência que tenta ocultá-la. Queremos poupar as crianças, mantê-las longe do impacto da perda. Será isso saudável? Penso ser necessário encarar a morte de frente, porque só assim podemos compreender o significado da vida. Como padre, vejo isso com clareza. A minha vocação é, tantas vezes, consolar quem enfrenta o mistério da morte, tanto  crentes  como gente sem fé. Ao refletir sobre a minha experiência, e neste mês de Novembro, partilho algumas ideias: 

  1. A vida não se basta a si mesma. Nenhum de nós escolheu existir. Como escreveu Viktor Frankl (1), o ser humano não pode encontrar significado pleno na mera existência física; ele precisa de um propósito maior que transcenda o mundo. Frankl argumenta que somos "empurrados pela vida, mas puxados pelo futuro". A falta de transcendência reduz a vida a uma repetição sem sentido.
     
  2. A busca pelo sentido é inevitável. Kafka, no romance "O Processo", descreve a condição humana como um enigma insolúvel: "O homem nasce sem saber porquê e morre sem entender como" (2). Mas como se procura esse sentido? Pela nossa inteligência? Mas como, se de algum modo a vida é incompatível com o pensar? Todas as escolhas da vida pressupõem uma informação imperfeita, como defendem os economistas (3). Ao desejar casar-se e constituir família, um homem ou uma mulher não podem passar a vida a observar a totalidade das mulheres e homens à sua volta. A escolha é necessariamente imperfeita. E, mesmo que não escolha, está a tomar a decisão de não escolher. Essa escolha é o que define o nosso modo de existir.
     
  3. A saída: alienar ou amar. Nesta busca de sentido, o homem tende a relegar às coisas o sentido da sua existência e cai na alienação. Como recorda a música dos U2 – Discotheque “queres ter o céu no do teu coração, mas ficas-te com o que consegues arranjar, porque é tudo o que encontras, mas sabes que há algo mais”. Precisamos de um elemento integrador. Por isso, Santo Agostinho, em "Confissões"(4), descreve o amor como a força que dá unidade à vida e nos permite ver o outro como único e insubstituível. Perante um mundo onde cada pessoa é mais um, o verdadeiro amor descobre a verdade da existência porque só sabe contar até um. É quando amamos assim que recuperamos o sentido da nossa existência e imaginamos que Deus, se existir, deve amar assim.
     
  4. Então porquê o mal e o sofrimento? É uma das grandes perguntas do homem, uma das que não encontram resposta no mundo natural. O sofrimento coloca a pergunta pelo sentido, não ao mundo, mas a Deus, como Senhor do mundo. A permissão do mal por parte de Deus é entendida como um respeito pela liberdade das criaturas. Deus, sendo supremo e bom, não é a causa do mal, mas permite sua existência para que o bem possa emergir dele (Catecismo n. 311). A presença do mal no mundo não contradiz a bondade de Deus, mas é parte do mistério da liberdade humana e da busca pelo bem. Um mistério que o próprio Jesus viveu quando morreu na cruz, reconciliando a dor, o perdão e o seu grande amor por nós. 

5. Qual é o sentido da existência? Esta pergunta tem de ser feita a uma liberdade, e a uma liberdade omnipotente, criadora.O mundo é incapaz de dar sentido. Isto não prova a existência de Deus, apenas prova que havendo sentido para a existência, ele passa por Deus: seja ele um bom ou mau sentido. A Igreja diz que se pode chegar a Deus pela razão (5). Ao falar dos pagãos S. Paulo diz que eles não têm desculpa já que “de facto, as coisas invisíveis dele, isto é, o seu poder eterno e a sua divindade, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis” (Rom 1, 20). No entanto, pela razão, apenas se pode chegar a saber o que é Deus e que existe, não quem é.

Sim, a morte da Marta e da avó Joaquina, e a minha própria morte, é um mistério.  O mistério não tem só uma dimensão negativa de ser incompreensível. Tem também uma dimensão positiva: iluminar. É como um foco de luz. Se a luz tem a característica de ofuscar quando olhada de frente, tem também a capacidade de fazer ver outras coisas. Recorda bem Pascal que “sem este mistério, o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis para nós mesmos”(6).

Assim, a morte não é apenas perda. Pode ser luz, amor que persiste, força que arrasta, memória que fica. No dia do funeral da minha avó, a minha mãe levou-me ao jardim para apanhar umas flores. Colhemos da mesma floreira onde apanhamos para celebrar os aniversários da família. Quis que fosse eu a colhê-las e a levá-las. Sem o saber, eu estava a receber uma uma profunda lição teológica: a morte é o momento de esperança para uma vida que não tem fim. 

“Deus, onde está a Marta?”. Sim, é Ele que sabe responder. É Ele que transforma a ausência numa comunhão eterna com quem amamos: com Maria, com os santos e, espero eu, com a avó Joaquina, com tantos amigos e com a Marta.

  1. Viktor E. Frankl, O Homem em Busca de um Sentido, Lisboa: Editorial Presença (2019)
  2. Franz Kafka, O Processo, Lisboa: Livros do Brasil, Coleção Dois Mundos (2019).
  3. A ideia de informação imperfeita é central para as teorias económicas modernas, como a de Joseph Stiglitz, George Akerlof e Michael Spence, vencedores do Prémio Nobel de Economia pelos seus trabalhos sobre os efeitos da assimetria de informação nos mercados.
  4. Santo Agostinho, Confissões. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (2008).
  5. Sugiro a leitura deste breve discurso de Bento XVI na Universidade de Regensburg
  6. Blaise Pascal, Pensamentos, Lisboa: Relógio D’Água (2019).

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