A vida depois do Ozempic e de outros medicamentos para perder peso foi apenas o início para estas quatro pessoas

CNN , Carma Hassan e Zoe Todd
1 dez 2024, 22:00
ozempic

Estudos revelam que um em cada oito adultos nos EUA já tomou um dos populares medicamentos GLP-1, a maioria dos quais para tentar gerir doenças crónicas como a diabetes e doenças cardíacas, e outros para ajudar na perda de peso.

Mas quase 60% das pessoas que tomam estes medicamentos - incluindo o Ozempic e o Mounjaro para a diabetes e o Wegovy e o Zepbound para a obesidade - interrompem o tratamento antes das 12 semanas, e antes de os medicamentos poderem proporcionar uma perda de peso clinicamente significativa.

Efeitos secundários como diarreia, vómitos e náuseas podem levar algumas pessoas a deixar a medicação. Outras interrompem o uso porque não sentem que a medicação está a fazer efeito, ou devido a preocupações com o custo. Apesar de os fabricantes oferecerem programas de assistência, o preço pode rondar os 1.000 dólares (950 euros) ou mais sem seguro.

“Chamamos-lhes medicamentos antiobesidade porque estamos a tratar a doença crónica da obesidade, o que significa que, geralmente, é necessário continuar a tomá-los indefinidamente", explica Eduardo Grunvald, diretor clínico do programa de controlo de peso da UC San Diego Health, nos Estados Unidos. “Se as pessoas quiserem parar ou tentar deixar de tomá-los, não tenho problemas em ajudá-las. Mas a maioria irá recuperar o peso se deixar de os tomar."

Eis o que as pessoas descobriram depois de experimentarem os medicamentos.

Encontrar a confiança: Alexus Murphy, 22 anos

Alexus Murphy continua nervosa. Fez uma pausa de algumas semanas nas injeções de Zepbound e está a vigiar o seu peso como um falcão, preocupada com qualquer indício de aumento.

“Procuro uma balança em todo o lado onde vou”, diz com uma gargalhada.

A criadora de conteúdos de 22 anos abordou o seu médico sobre a medicação para perda de peso em março, antes de ser submetida a uma cirurgia de redução mamária.

Era a sua primeira cirurgia, e ela queria reduzir o seu IMC para minimizar os riscos de saúde durante a operação e na recuperação.

Perdeu quase 22 quilos ao longo de 23 injeções - durante cinco meses.

Murphy partilhou as suas conquistas em vários vídeos que se tornaram virais no TikTok, respondendo a perguntas sobre os efeitos secundários e como teve acesso ao medicamento.

“Este medicamento mudou a minha vida pela positiva em todos os aspetos da minha vida social, pessoal e na forma como me apresento. Permitiu-me ser mais confiante por onde passo”, assume.

Mas também houve desvantagens. Sentiu-se cansada e teve náuseas e nevoeiro cerebral enquanto tomava as injeções.

“Quando tomo o medicamento, tenho de tirar dois dias para mim, porque é como se o corpo estivesse a fazer exercício. O corpo está a fazer exercício sem que tu estejas a fazer exercício [fisicamente]. Por isso, mesmo as coisas mais pequenas, como subir escadas ou carregar coisas, fazem-me ficar sem fôlego, em vez de ficar como agora, em que sou capaz de me mexer e levantar, sem sentir tonturas”, descreve.

Pela primeira vez na sua vida , Murphy também lutou contra acne hormonal. E, talvez o mais assustador, teve vários episódios de desmaios enquanto estava a tomar Zepbound.

Os médicos alertaram-na de que o seu nível de açúcar no sangue estava baixo e que estava a ficar desidratada, por isso tentou ter mais cuidado com a ingestão de alimentos e água.

Murphy pesa agora menos do que pesava no ensino básico e diz que isso melhorou a sua saúde mental.

"A redução mamária foi um grande passo, mas a perda de peso foi a cereja no topo do bolo", garante.

A estudante universitária de Houston obteve o medicamento sem qualquer custo no seu Estado natal, Califórnia, através do seu seguro de saúde, o Inland Empire Health Plan, um programa para pessoas com Medi-Cal, o programa Medicaid da Califórnia.

“Acho que não seria capaz de o pagar e, nesse caso, seria considerado um luxo”, afirma.

Ainda assim, pouco antes de atingir o seu objetivo de peso, Murphy decidiu parar de usar Zepbound durante algumas semanas, para ver se conseguia fazer o resto do caminho sozinha.

"Queria provar a mim mesma que conseguia perder os últimos 4,5 quilos de forma natural até ao meu peso alvo, só para não ficar dependente do medicamento. Não tenho hábitos ou vícios, a não ser as redes sociais. Por isso, queria manter as coisas assim."

Alexus Murphy perdeu quase 22 quilos com o Zepbound. CNN/Cortesia de Alexus Murphy

Tem feito jejum intermitente, come uma refeição por dia e faz exercício físico três ou quatro vezes por semana.

Mas, após atingir o seu objetivo de perda de peso sem o Zepbound, sentiu que estava a regredir e tomou outra dose do medicamento.

"Sentia-me inchada e estava preocupada com a quantidade de comida que estava a ingerir", conta. "Não conseguia controlar o consumo de doces. Estava a voltar aos meus hábitos alimentares.”

Murphy tem a certeza de que esta dose de Zepbound será a sua última.

“Não vale a pena por causa do acne, e tive outros efeitos secundários hormonais”, aponta.

E embora ainda não tenha partilhado a sua decisão de deixar de tomar Zepbound com os seus seguidores do TikTok, espera que o seu público continue a apoiá-la.

“Espero que o meu público me siga para além da minha jornada [de perda de peso] e que eu seja capaz de encorajar as pessoas a continuarem a cuidar do seu bem-estar. Com ou sem medicamentos para a perda de peso, mas, acima, de tudo, mais conscientes da sua saúde, especialmente as raparigas que estão a fazer a transição de adolescentes para jovens adultas.”

Encontrar a paz interior: Steven Ray, 37 anos

A vida depois dos medicamentos para perder peso tem sido tranquila, diz Steven Ray.

Na verdade, acabou de regressar de um cruzeiro onde conseguiu andar confiante sem camisa - uma estreia para um homem que, enquanto crescia, se sentia tão inseguro com o seu peso que usava uma t-shirt na piscina.

Ray, 37 anos, tomou semaglutida manipulada através de uma clínica de bem-estar. A manipulação é o processo de reprodução de medicamentos já disponíveis comercialmente. É permitida pelo regulador norte-americano, a Food and Drug Administration, durante um período de escassez - que, até recentemente, se aplicava aos medicamentos GLP-1, devido a uma procura sem precedentes.

Ray perdeu mais de 18 quilos em quatro meses e deixou de tomar o medicamento de imediato, após atingir o seu objetivo, e com a autorização do seu médico.

O pai de dois filhos da zona de Houston disse que tem conseguido manter a sua perda de peso, mantendo-se à volta dos 76 quilos desde a sua última injeção em maio.

A FDA não analisa as versões manipuladas dos medicamentos GLP-1 quanto à segurança, eficácia ou qualidade, e a agência já recebeu relatos de efeitos adversos em pessoas que usaram semaglutida manipulada.

Ray estava disposto a correr o risco.

Estava "cansado de ser fofinho" e queria ser um exemplo melhor para os seus filhos, por isso procurou uma clínica de bem-estar para saber mais sobre se as injeções para perda de peso seriam adequadas para ele.

“No fim de contas, tens de cuidar de ti”, diz. “É preciso ser saudável para ajudar os outros."

Steven Ray diz que aprendeu que “é preciso ser saudável para ajudar os outros”. CNN/Cortesia de Steven Ray

Além de um ligeiro refluxo ácido e algumas cãibras no estômago, Ray diz que está grato por não ter sentido muitos efeitos secundários dos medicamentos para perda de peso.

Os seus níveis de açúcar no sangue, colesterol e testosterona melhoraram. E, talvez igualmente importante, agora sente-se bem consigo mesmo. Os seus filhos também notaram as mudanças.

“Faço questão de tomar melhores decisões por eles, para que possam ter uma vida mais saudável”, argumenta Ray.

Para manter a sua perda de peso, Ray dá prioridade ao controlo das porções, fazendo algumas trocas como pedir uma refeição para crianças em restaurantes de fast food e comer num prato pequeno em vez de num prato normal.

“Vejo esta medicação como uma forma de mudança de estilo de vida. E esta é a muleta que te ajuda a adaptar ao teu novo estilo de vida”, defende Ray.

Encontrar a força: Becky Bell, 69 anos

Becky Bell costumava dizer às pessoas que nunca iria correr, mesmo que alguém a estivesse a perseguir com uma arma.

Agora, tem duas t-shirts de corridas de cinco quilómetros e prepara-se para ter uma terceira.

Bell, que vive em Woodstock, na Geórgia, contou que tentou perder peso com diferentes dietas ao longo de 25 anos. Mas, após a morte do marido, em 2014, foi-se abaixo.

"Eu não queria fazer mais nada, a não ser comer", recorda.

Levava uma vida solitária - e sedentária. Em 2020, o seu médico receitou-lhe Ozempic para a ajudar a perder peso e evitar a progressão da pré-diabetes.

“Estava muito perto dos 140 quilos. Sabia que tinha de fazer alguma coisa porque tenho um historial de problemas cardíacos na minha família, o que me dizia que precisava de fazer algo para não morrer de ataque cardíaco”, conta Bell, 69 anos. “Precisava de recuperar a minha saúde.”

Ozempic foi o primeiro passo para atingir os seus objetivos, mas tinha algumas reservas. Não queria tomá-lo para sempre. E, enquanto tomava o medicamento, perdeu o desejo de comer.

“Foi realmente bom para suprimir o meu apetite, ao ponto de o meu médico me ter dito que estava quase subnutrida porque não ingeria sequer mil calorias por dia enquanto tomava Ozempic”, diz.

Bell sentiu-se muito doente durante o tratamento com Ozempic, com náuseas e pouca energia. Queria dormir o tempo todo. Tinha frequentemente tonturas, especialmente quando se levantava de uma posição sentada ou deitada, e chegou a desmaiar algumas vezes.

Em outubro de 2023, depois de perder 32 quilos, parou de tomar Ozempic devido aos efeitos secundários. E quando o dono do ginásio Max Nazaire a abordou sobre a possibilidade de se juntar ao Safe Haven, um estúdio de fitness para adultos com mais de 50 anos, decidiu que valia a pena tentar.

“Perdi peso, mas sentia que continuava gorda, porque não estava a fazer exercício”, lembra.

Agora, depois de um ano de exercício e agachamentos no estúdio de fitness, Bell tem mais do que apenas músculos para exibir.

"Fazer exercício aqui, as pessoas que aqui vêm dão-te tanta motivação. Sinto que agora são a minha família."

Becky Bell perdeu quase 45 quilos depois de tomar Ozempic e de ingressar num ginásio. CNN/Cortesia de Becky Bell.

O sentido de comunidade é importante para si, e juntar-se ao grupo deu-lhe uma razão para sair de casa.

Nazaire diz que vê muitos clientes como Bell: pessoas que tiveram de deixar de tomar medicamentos para perder peso, devido aos efeitos secundários ou ao custo, e que agora estão à procura de manter ou continuar com os seus esforços de perda de peso.

“A primeira coisa que fazemos é garantir que praticam bons hábitos de estilo de vida. E quando falamos de hábitos de estilo de vida, asseguramo-nos que estão a receber nutrientes suficientes para facilitar uma perda de peso sustentada. É tudo uma questão de perda de peso sustentável”, afirma.

Bell pode ser encontrada no Safe Haven quatro ou cinco dias por semana. Perdeu mais 11 quilos no último ano, totalizando quase 45 quilos desde que começou a tomar Ozempic em 2020.

"Estou tão contente por agora usar um tamanho L. Passei de 3X, quando comecei esta viagem, para um L. Nem me lembro da última vez que vesti uma camisola tamanho L.”

Ocasionalmente, vê um anúncio do Ozempic e, por breves momentos, considera voltar a tomá-lo. Mas depois não se sente tentada a voltar a tomar a medicação.

“Para além do exercício, a confiança que tenho em mim própria é muito maior do que alguma vez pensei que teria”, afirma. “Faz-me gostar de mim mesma.”

Encontrar o equilíbrio: Dustin Gee, 37 anos

Dustin Gee estava a folhear fotografias das férias quando percebeu que já não se reconhecia. O que deveria ter sido uma viagem de sonho com o marido ao Peru, em janeiro de 2023, tinha sido uma luta.

"Adoro viajar e sempre fui muito ativo, visitei muitos lugares interessantes, mas esta foi a primeira vez que estive num local onde simplesmente senti que – não era eu", diz Gee, que vive em Bellingham, Massachusetts.

Gee tinha engordado cerca de 14 quilos e, pela primeira vez, sentiu dificuldades de mobilidade. Percebeu que preferia parar para comer um gelado do que explorar Lima em longas caminhadas.

"Foi mais ou menos nesse momento que comecei a rever fotos de família e diferentes marcos da nossa vida, desde o dia em que recebemos a licença para nos tornarmos pais de acolhimento, e pensei: 'Onde é que eu fui parar?' E foi isso que me levou a ter conversas sérias com o meu médico e a começar a explorar medidas mais consistentes para começar a perder peso", conta.

Gee, de 37 anos, tinha uma forte razão para querer perder peso – bem, na verdade, três: os seus filhos, Cristian, Emanuel e Jackson, que ele e o marido Alex acolhiam desde 2020. A família tinha uma data de adoção marcada para a primavera, e Gee recusou-se a cumprir esse marco sentindo-se “sobrecarregado e esgotado”.

Falou com o seu médico sobre as suas preocupações e recebeu algumas dicas sobre como gerir o stress enquanto pai, formas de lidar com a alimentação emocional e como planear a atividade física. Foi-lhe também prescrito o Wegovy.

Gee começou a tomar o medicamento em fevereiro de 2023 e perdeu 14 quilos até à data da adoção, em maio.

“Torna-se ainda mais significativo saber que, ao mesmo tempo, enquanto estávamos a tomar uma decisão tão importante na nossa vida como pais e como família, eu também estava a tomar grandes decisões e a assumir compromissos em relação à minha saúde”, diz Gee.

As suas preocupações iam para além da sua aparência. Também estava preocupado com os seus níveis de açúcar no sangue e de colesterol, especialmente porque a obesidade e as doenças cardíacas são comuns na sua família.

Entre fevereiro e setembro de 2023, Gee perdeu cerca de 20 quilos com o Wegovy. Manteve-se a tomar o medicamento durante um ano, antes de decidir que estava pronto para considerar mudanças no estilo de vida e, possivelmente, parar com o medicamento.

Em fevereiro, começou a seguir a Dieta da Mayo Clinic [organização norte-americana sem fins lucrativos na área dos serviços médicos e estudos médico-hospitalares], que tem um programa de saúde desenhado para acompanhar os medicamentos GLP-1.

Gee gostou da forma como o programa o ajudou a criar bons hábitos para manter a sua perda de peso, e gostou de monitorizar as suas refeições, definir as suas intenções e registar o seu peso na aplicação todos os dias.

Decidiu continuar a tomar o Wegovy enquanto usava o programa, para o ajudar a reestruturar a sua mentalidade.

Perdeu mais dois a três quilos nas primeiras duas semanas e agora trabalha como embaixador do programa. Passou a tomar uma dose de manutenção de Wegovy em setembro e pretende deixá-la completamente em fevereiro.

“Para mim, nesta fase da vida, sinto-me muito mais confiante e entusiasmado por deixar de o tomar. Não vejo isto como um desafio, mas como o próximo passo para me manter responsável e continuar a fazer grandes progressos, estando presente para a minha família”, afirma Gee.

Os três filhos de Gee foram a sua motivação para adotar um estilo de vida mais saudável. CNN/Cortesia de Dustin Gee

A chave para manter as suas rotinas é a estrutura.

"Quando consegues criar uma rotina, consegues criar consistência, e é isso que ajuda a manter um estilo de vida sustentável. Mas, como família com três rapazes ativos e rotinas diferentes, vivemos as nossas vidas com base na estrutura", indica Gee. "Por isso, muitas das escolhas que fiz foram coisas que não precisaram de uma mudança drástica para alterar o meu estilo de vida, mas que se adaptam ao estilo de vida que tenho e que não me permitem desviar facilmente.”

Também conta muito com o apoio do marido para ajudar a manter as coisas no caminho certo, e dos filhos para o manter alerta.

“Podemos ser ativos. Podemos sair de casa e andar de caiaque o dia todo ou fazer longas caminhadas”, conta Gee.

"Procuro fazer o meu melhor para falar com eles sobre as mudanças que estou a fazer e porquê, e isso é porque queremos ser saudáveis e, com isso, podemos ser uma família mais feliz e desfrutar do nosso tempo juntos”, considera.

Gee faz regularmente cardio de baixo impacto e treino de força, e aproveita sempre que pode para fazer caminhadas durante o dia de trabalho, utilizando uma passadeira de corrida.

“Tento sempre calçar uns ténis durante o dia. Não têm necessariamente de ser sapatos de treino, mas descobri que isso me ajuda, porque posso fazer isto [passadeira], andar pela casa, ir buscar o correio, optar por andar quando posso em vez de optar por um caminho mais simples”, exemplifica.

E pretende continuar a seguir o programa da Dieta da Mayo Clinic, que agora faz parte do seu estilo de vida.

"Agora, estou pronto, e parte de mim quer avançar para o próximo capítulo sabendo que posso contar inteiramente comigo e não necessariamente com a medicação para perder peso."

*Tal Yellin contribuiu para este artigo

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