A endocrinologista Graça Vargas passava medicamentos para emagrecer a pacientes fingindo tratar-se de diabéticos para que o Estado pagasse a comparticipação. A investigação estendeu-se agora à ação dos utentes, que levantam suspeitas sobre alegados negócios ilegais
Depois de a médica recordista em receitar Ozempic, medicamento para a diabetes usado para emagrecer, ter sido detida, agora as autoridades estão também a investigar os utentes que receberam maiores quantidades de prescrições, apurou a CNN Portugal junto de fonte ligada ao processo.
Em causa estão suspeitas de que alguns pacientes da médica pudessem mesmo estar a fazer negócio ilegal com as embalagens de Ozempic. No processo em curso, o DIAP Regional do Porto já conseguiu apurar algumas situações suspeitas como a de um utente que comprou 23 embalagens por mês, num total de 1.653.
Outro dado analisado pelos investigadores diz respeito aos valores gastos: um outro utente desta médica teve um valor de gastos de 35 mil euros, o mais elevados para o Serviço Nacional de Saúde, tendo comprado 827 embalagens de medicamentos ou produtos de saúde, incluídos em 305 receitas, com um valor médio por receita de 117,72 euros e uma taxa de comparticipação de 91%. Outro utente ainda recebeu de Graça Vargas 44 receitas de medicamentos usados para emagrecer em apenas 14 meses. Só este utente gastou três mil euros aos cofres do Estado em comparticipação para estes remédios (ajuda que se destina aos doentes diabéticos).
Estes são alguns dos utentes a serem investigados, mas não só. Ao todo, no período analisado, a médica receitou estes medicamentos a 1.914 utentes. Agora, os investigadores selecionaram 100 que estão a investigar com detalhe. Trata-se dos “doentes” com maior valor de comparticipação com origem nas receitas prescritas pela médica Graça Vargas campeã nacional a prescrever Ozempic.
Falsos diabéticos com milhares de euros em comparticipações
A endocrinologista, investigada pelos crimes de burla qualificada e falsidade informática, receitou milhares de medicamentos para falsos diabéticos para fins de emagrecimento - como Ozempic, Victoza e Trulicity. Ao todo, foram detetadas prescrições superiores a 9,7 milhões de euros. O Estado terá ficado lesado em três milhões de euros, valor correspondente às comparticipações que fez a estes utentes que não teriam direito por não serem diabéticos, tendo apenas o objetivo de emagrecer.
Através do ficheiro de doentes facultado pelo Centro de Controlo e Monitorização do Serviço Nacional de Saúde, os investigadores conseguiram perceber, numa primeira análise, que quase 60% dos utentes a quem Graça Vargas mais prescreveu não tinham qualquer receita associada a diabetes, sejam agulhas ou sensores ou até tiras de teste, como seria suposto. E 27 desses utentes conseguiram que o Estado pagasse a medicação em valores superiores a dois mil euros.
Detida por causa desta operação, liderada pelo DIAP Regional do Porto, a médica foi entretanto ouvida por um juiz. Saiu em liberdade com uma caução de 500 mil euros, ficando ainda proibida de se ausentar para o estrangeiro sem autorização. As medidas de coação incluíram ainda a suspensão da sua atividade profissional como médica e a permanência na clínica E’Sensia, onde trabalhava.