Outono será mais quente e seco do que devia. A seca veio para ficar e a guerra pela água com Espanha estará só a começar

22 set, 07:00

A temperatura média do ar deve voltar a ficar acima dos níveis considerados normais até ao final do ano. A seca vai continuar, e pode até prolongar-se para 2023

“Quente” e “seco”. Estas expressões acompanham os boletins mensais do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) para praticamente todos os meses do ano de 2022, vindo muitas vezes acompanhadas de um alarmante “extremamente”. Nos primeiros oito meses, março foi o único que registou valores de temperatura e de precipitação considerados normais - a referência é o período entre 1971 e 2000 -, o que mostra grandes anomalias num ano que foi, quase sempre, quente e seco. E no outono, como vai ser?

A nova estação do ano começa já esta sexta-feira e, segundo as previsões do IPMA, vai voltar a verificar-se uma conjugação de anomalia positiva na temperatura e negativa na precipitação. O mesmo é dizer que vai fazer mais calor do que era suposto e vai chover menos que o normal, acompanhando a tendência do ano, e que se estenderá para o resto de 2022. A previsão de longo prazo do instituto aponta que estas anomalias vão continuar em outubro e novembro, meses que vão, também, ser mais quentes e secos do que seria normal.

"Na temperatura média mensal do ar, prevê-se anomalia positiva sobre o território continental, 0,25 graus a 1 grau, para os meses de outubro e novembro", refere a nota do IPMA

Anomalias de temperatura e precipitação em 2022
Mês Temperatura Precipitação
Janeiro +0,84 graus 12%
Fevereiro +1,33 graus 10%
Março -0,004 graus 168%
Abril +0,23 graus 74%
Maio +3,47 graus 13%
Junho +0,98 graus 69%
Julho +2,97 graus 22%
Agosto +1,15 graus 20%

Fonte: IPMA

Nota: os valores comparam-se em relação aos normais climáticos de 1971-2000

Nova seca na primavera?

Estes valores ajudam a explicar porque é que Portugal está, desde há vários meses, em situação de seca. Atualmente, vivemos entre uma seca severa (60,4% do território) e seca extrema (39,6%), os dois únicos cenários que o país conhece desde julho, num ano que não teve valores considerados normais em nenhuma parte do território continental. Setembro até foi um mês de "desagravamento significativo" da situação de seca, mas o cenário está longe de acabar. De resto, a última vez que isso se verificou foi na região do Minho e perto da Serra da Estrela, em 2021.

O professor de Meteorologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Ricardo Trigo, explica que estes valores vão ao encontro do que os especialistas vêm prevendo há duas décadas, referindo que o problema não está apenas no facto de chover menos, mas também na maior evaporação de água nos solos. No fundo, é como se as alterações climáticas contribuíssem para a seca de duas formas diferentes.

"O PDSI [índice que mede a situação de seca] tem em conta a precipitação, mas também o que o solo perde. Nas últimas três décadas, a temperatura aumentou bastante em Portugal. O facto de chover menos aumenta a probabilidade de haver stress hídrico, mas as ondas de calor têm aumentado mais relativamente à diminuição da precipitação", refere. Na prática, a evaporação faz com que haja "menos água nos solos, nos rios e nas barragens".

Traçando um cenário para o que aí vem, Ricardo Trigo não tem dúvidas: "Ou chove muito acima da média nos próximos meses, ou no fim da primavera voltamos a ter o país numa seca bastante alavancada". E, mesmo que essa chuva chegue, dificilmente será da melhor forma, já que a nossa melhor hipótese de evitar uma seca a curto prazo são novos fenómenos como a tempestade Danielle.

"Vão ter de haver tempestades sucessivas, porque é menos expectável chuvas moderadas e prolongadas, sobretudo a sul do país", afirma, assinalando que este cenário está longe de ser o ideal, até porque "para evitar a seca é preferível um conjunto de dias com precipitação moderada, o que é melhor para as barragens, a agricultura". No fundo, "pouca chuva e moderada faz mais recarga de solos e aquíferos".

Percentagem de água no solo em Portugal (IPMA)

E se a menor ocorrência de chuvas moderadas e prolongadas é um cenário cada vez mais visível, as alterações climáticas são o grande responsável. Ricardo Trigo refere que, por cada grau que a temperatura média aumenta num determinado período, há mais 6% a 7% de água na atmosfera. Ora, essa água vai acabar por ter de cair, e fá-lo em forma de tempestade. No caso da tempestade Danielle, por exemplo, "em grande parte de Portugal, choveu a média ou acima da média de setembro em apenas três dias". Se à partida parece uma boa notícia, olhe-se o exemplo da Serra da Estrela, fortemente fustigada por incêndios este verão: "Ao arderem grandes áreas, quando vêm as chuvas não há capacidade de reter a água". É por isso que acontecem os deslizamentos de terra.

"Pode chover um pouco menos quando contabilizamos no final do ano, mas a chuva tende a cair mais concentrada", vinca o professor de Meteorologia, apontando que "qualquer mecanismo traz mais água que há 40 ou 50 anos". "A precipitação é mais elevada, mais intensa, o que também provoca erosão dos solos", precisamente como aconteceu nas terras adjacentes à maior cordilheira portuguesa.

Uma guerra anunciada

Este cenário não afeta apenas Portugal, mas toda a Europa. Em Espanha, vive-se uma das piores secas da história, o que está a levar a situações desesperantes. Por isso mesmo, os agricultores que trabalham perto da fronteira decidiram juntar-se esta semana em Leão, vindos desde Salamanca ou Zamora, para pedir que se trave o volume de água que está destinado a Portugal, e que foi acordado nos termos da Convenção de Albufeira. Há muito que se alerta que as alterações climáticas estão a fazer movimentar os sistemas climáticos para norte, o que fará com que, lentamente, a Península Ibérica se torne mais parecida com o Saara. Estando parte da instabilidade naquela região de África relacionada com a falta de água, será que essa guerra está a chegar cá?

O presidente da direção da Confederação dos Agricultores de Portugal diz à CNN Portugal que "ainda existem condições para que os caudais tenham de vir de Espanha para Portugal". Ainda assim, Eduardo Oliveira e Sousa avisa: "O lobo, que é Espanha, está mesmo do lado de cima. Se eles tiverem mão na torneira, no dia em que a água começar a faltar, não tenho dúvidas, eles fecham a torneira".

É que a reserva hídrica de Espanha está apenas a um terço da capacidade – tem 18.810 hectómetros cúbicos de água quando a capacidade de armazenamento chega aos 56.136, de acordo com o mais recente Boletim Hidrológico. Um sinal claro de agravamento, uma vez que esse valor era, na mesma altura de 2021, de 22.646, sendo que a média a 10 anos se fixa, ainda, nos 28.656 hectómetros. Já em Portugal, essa capacidade de armazenamento está mais controlada – cerca de 53%. 

Capacidade das bacias hidrográficas em Portugal e Espanha
Rio Portugal Espanha
Minho 18% 46%
Douro 51% 33%
Tejo 47% 36%
Guadiana 62% 23%

Fonte: Agência Portuguesa do Ambiente (Portugal) e Boletim Hidrológico (Espanha)

Mas o problema a sério pode ainda nem ter começado. As previsões de anomalia feitas para Portugal estendem-se a Espanha, e até num cenário potencialmente mais grave - o sistema europeu de previsões aponta uma mancha ainda mais escura para o centro da Península Ibérica no mês de outubro, o que significa uma anomalia de temperatura ainda maior naquele local. Algo corroborado pela Agência Estatal de Meteorologia de Espanha, e tudo depois do verão mais quente dos últimos 61 anos.

Os agricultores espanhóis sabem disso, e foi por isso que decidiram mobilizar-se com palavras de ordem como "não à transferência [de água] para Portugal". Na prática, o que pretendem é impedir o envio de 400 hectómetros de água através do rio Douro, um dos quatro rios partilhados entre os países, e que fazem parte da Convenção de Albufeira. Esse volume de água deve ser enviado a Portugal até 30 de setembro, como parte do acordo que prevê a partilha de 570 hectómetros de água no período do verão, o que levou os cerca de três mil agricultores espanhóis presentes em Leão a gritar "se nos tiram a água, tiram-nos o pão".

Ruínas da aldeia antes submersa de Aceredo, na Galiza (Adri Salido/Anadolu Agency via Getty Images)

Se o verniz já estalou no Douro, o mesmo poderá vir a acontecer no Tejo, onde na região de Cáceres já se faz pressão para que não se liberte a quantidade de água a que Portugal tem direito. O problema, dizem os especialistas, é que os níveis do acordo já estão ultrapassados. Quando foi assinada, em 1998, a Convenção de Albufeira previa uma área de rega de 100 mil hectares em Leão. Hoje, em toda a Espanha, são já 3,8 milhões os hectares de regadio, o que contrasta com as capacidades das suas albufeiras: Guadalquivir está a 22%, Guadiana a 24,5%, Tejo a 37,7%, Douro a 37,8% e Ebro a 43,3%.

"Eles têm menos água do que nós, só que fizeram o trabalho de casa. Armazenam 70% ou 80% das escorrências que têm, nós armazenamos 20%", refere Eduardo Oliveira e Sousa.

Os agricultores portugueses do Tejo percebem a postura espanhola, até porque, como dizem, os recursos hídricos a que Portugal tem direito acabam por ser mal utilizados em grande parte do tempo. Por isso, dizem à CNN Portugal, é preciso uma melhor gestão: "Falta que o nosso Governo nos perceba e que haja uma alteração na gestão dos recursos hídricos", refere Mário Antunes, da Agromais.

Essa mesma gestão dos recursos hídricos é apontada por Ricardo Trigo como uma das chaves. O especialista lembra que mais de 60% da água utilizada na Península Ibérica tem como fim a agricultura, destacando que "já há formas" de fazer um melhor aproveitamento da água, como os sistemas gota a gota.

"Se apostarmos menos em campos de golfe e num certo tipo de agricultura vamos poupar água. Se insistirmos numa agricultura muito exigente é difícil de garantir água para todos", afirma.

Ainda assim, diz, a guerra pela água poderá tornar-se em algo sazonal: "num ano em que chova acima da média as pessoas esquecem isso", mas só até à próxima seca, quando o problema vai ressurgir.

Por isso, sublinha o professor de Meteorologia, é necessária uma melhor aposta em tecnologia que permita uma melhor utilização da água, até porque "há muita perda de água nos canais, nos tubos, há uma grande percentagem de água perdida".

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