Num mundo de cliques e moedas digitais, Portugal continua a confiar num velho bem silencioso: 382,7 toneladas de ouro guardadas, valiosas e… imóveis. Em 2024, sem mexer um lingote, valeram mais 34% e reforçaram o balanço do Banco de Portugal. Quando tudo vacila, é no que pesa que se pode confiar
Há uma pergunta que volta sempre, como um eco de tempos mais antigos: para que serve ter ouro? Num mundo onde os pagamentos são digitalizados, as fortunas transitam-se por algoritmos e os bancos centrais criam moeda com um mero clique, que sentido faz armazenar metal precioso em cofres blindados, guardados (numa grande parte) no Carregado, como é o caso da reserva nacional de ouro?
A resposta é tudo menos uma resposta anacrónica. Serve precisamente para isto: para quando tudo o resto se torna incerto.
Em 2024, o ouro provou mais uma vez porque é tido como o mais estável dos ativos instáveis. A onça valorizou-se até máximos históricos, impulsionada por uma economia global marcada pela inflação persistente, pelos juros altos, pelas constantes tensões geopolíticas e por um sentimento difuso de que algo poderá correr mal. O ouro, nesses momentos menos seguros, funciona como uma espécie de seguro. Não poderá pagar dividendos, não distribui lucros e não se multiplica. Mas também não falha.
Portugal sabe bem disso. Ou pelo menos soube manter essa ideia viva. Segundo o Relatório de Implementação da Política Monetária de 2024, divulgado agora pelo Banco de Portugal (BdP), as reservas nacionais de ouro continuam firmes nas 382,7 toneladas — mas agora valem mais: 31 mil milhões de euros em 2024, face aos 23 mil milhões de 2023. Uma valorização de 34%, sem qualquer transação, sem mexer um único lingote.
Esse ouro contribuiu de forma decisiva para o aumento de 3% no balanço total do BdP, que fechou o ano nos 191 mil milhões de euros. O que parecia inerte revelou-se útil. O que estava imóvel teve impacto.
Mas que impacto é esse do ouro?
As reservas de ouro funcionam, antes de mais, como uma âncora: âncora de confiança. Quando investidores olham para um país e tentam medir o risco — seja para emprestar dinheiro, avaliar a estabilidade da moeda ou ponderar decisões políticas — o que está no cofre também conta. Portugal, à data com a 16.ª maior reserva de ouro do mundo e a sexta maior reserva de ouro da Europa Ocidental — atrás apenas de Alemanha, Itália, França, Suíça e Países Baixos —, tem aqui um trunfo robusto.
Depois, o ouro serve de escudo em caso de crise monetária ou cambial. Se por alguma razão o nosso euro ruísse, ou se o acesso a liquidez internacional viesse a ser cortado, os bancos centrais podem converter ouro em moeda forte, ou mesmo usá-lo para obter crédito. Foi o que muitos países fizeram em tempos de guerra ou colapsos financeiros, como Portugal fez durante as intervenções (três: 1977, 1983 e 2011) do FMI em Portugal. Não é um cenário desejado, mas é com essa possibilidade — o “e se” — que ainda se justifica a existência das reservas.
Há ainda uma função contabilística: o valor do ouro nas reservas entra no balanço do banco central e contribui para a sua solvência. E um banco central sólido transmite estabilidade ao sistema financeiro que supervisiona.
Por fim, há ainda uma dimensão “simbólica”. O ouro é um bem que se sabe finito, é universalmente reconhecido isso, e que atravessa séculos e séculos de história económica. Serve, pois, como lembrete (físico) de que a confiança não se pode simplesmente imprimir: aumenta-se e guarda-se também.
Portugal, que não tem petróleo, que não tem gás, tem neste metal um vestígio de prudência, dirão os sempre previdentes. Mas ainda há quem critique o imobilismo das reservas de ouro, por não gerarem rendimento direto. Mas o ano de 2024 mostrou o contrário: num contexto inflacionário, o ouro valorizou mais do que muitos ativos financeiros. Pode não pagar juros, mas paga pela sua própria existência. E quando mudam os ventos, esse é um dos poucos bens que continuam a pesar — e a valer.
Lembrete em forma de lingote
Apesar de o ouro ter sido, ao longo do século XX, empurrado para a prateleira das “velharias” económicas — sobretudo depois do fim de Bretton Woods (sistema que foi criado no fim da Segunda Guerra Mundial e que termina em 1971, quando os Estados Unidos deixaram de trocar dólares por ouro) e da ascensão incontestada do chamado dólar fiduciário —, há economistas, autores e investidores internacionais que, com algum grau de convicção, defenderam a importância dos Estados manterem significativas reservas de ouro.
Não por nostalgia do padrão-ouro clássico, mas porque reconhecem no metal precioso uma âncora (como já aqui vimos) em tempos de desordem monetária, um último reduto de confiança quando tudo o mais falha.
Alan Greenspan, figura tutelar da Reserva Federal dos EUA durante quase duas décadas, talvez seja um dos casos mais paradigmáticos: ele, que conduziu a maior economia do mundo no auge do dinheiro fiduciário (dinheiro “fiduciário” é o dinheiro que vale só porque o governo diz que vale; não tem ouro por trás, só “confiança”), é o mesmo que, antes de chegar ao cargo, escreve o ensaio Gold and Economic Freedom (“Ouro e liberdade económica”), de 1966, em que se defendia o ouro como salvaguarda contra “a inflação” e “os excessos dos governos”. Para Greenspan, o ouro era pois o inimigo natural de certa irresponsabilidade fiscal — por assim dizer, numa síntese do pensamento deste economista. E, embora tenha operado num sistema que dele (ouro) veio a abdicar, Greenspan nunca renegou essa visão. Quando foi questionado mais tarde, reafirmou que, nos momentos de maior pânico, “o ouro ainda é aceite como meio de troca final”.
Nessa mesma linha, Jim Rickards — advogado, ex-consultor da CIA e autor de livros como Currency Wars e The New Case for Gold (“Guerras Cambiais” e “O Novo Caso do Ouro”) — constrói uma tese bem mais geoeconómica e não só monetarista. Argumenta Rickards que (quase) todos os bancos centrais continuam, discretamente, a acumular ouro não como capricho ou relíquia, mas como uma preparação estratégica para um eventual colapso do sistema financeiro a nível global. O ouro, diz o autor, será um trunfo no xadrez monetário internacional, sobretudo num cenário de redefinição de paridades ou falência de confiança no euro e no dólar.
Por sua vez, Willem Middelkoop, um analista e autor do livro The Big Reset (“O Grande Reinício”), segue uma lógica semelhante: o ouro será a chave de uma “futura” (não hipotética, mas, leia-se, futura) reconfiguração financeira internacional. Por exemplo: a crescente acumulação de reservas nacionais por países como a China ou Rússia não é “acidental”, argumenta; é, sim, um sinal claro de que, para lá da superfície (e superficialidade, por vezes) dos mercados, há um reconhecimento tácito de que o ouro permanece a “reserva de último recurso”.
Estes economistas — mesmo que divergentes nas suas escolas de pensamento — convergem num ponto essencial: em tempos de incerteza monetária, o ouro não é apenas um ativo. É uma declaração (ou um lembrete, em forma de lingote) de soberania.
O mito de ouro com Salazar (e não só)
É hoje ainda uma mentira repetida, um engodo de raízes saudosistas, mas sem razão para tal: não, com Oliveira Salazar, e durante o Estado Novo e a ditadura salazarista, Portugal nunca teve (nem perto) a maior reserva do mundo em ouro.
Aquando do 25 de Abril, em 1974, Portugal era somente a 11.ª maior reserva do mundo, tendo cerca de 865 toneladas de ouro guardadas no Banco de Portugal. No entanto, é, sim, verdade que Portugal era dos países mais ricos em ouro em relação ao seu PIB — e per capita na Europa.
Importa também perceber a que custo se deu tamanho crescimento. Fosse como ministro, no caso das Finanças, fosse como Presidente do Conselho, e ditador, António de Oliveira Salazar teve sempre uma obsessão em matérias de equilíbrio orçamental. Conseguiu-o, primeiro, recorrendo a políticas económicas restritivas, que atrasaram largamente o desenvolvimento económico e social do país. Depois, e falando da reserva de ouro, tal se deve, durante a Segunda Guerra Mundial, ao facto de Portugal (neutro, mas nem por isso de mãos limpas) ter exportando grandes quantidades de volfrâmio à Alemanha nazi — em bem menor quantidade, venderia também aos aliados —, sendo grande parte dos pagamentos feitos (sobretudo pelos alemães) em ouro.
Portanto, o comércio de volfrâmio, e a guerra, permitiram a Salazar acumular reservas de ouro no Banco de Portugal significativas em relação ao tamanho da economia do país. Quando Salazar assumiu o poder em 1931 as reserva de ouro em Portugal rondavam as 63 toneladas e, em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, estava em cerca de 144 toneladas.
As reservas chegariam às tão referidas 865 toneladas aquando da revolução em Portugal, um pico de acumulação devida no pós-guerra à (sempre) política económica austera, à proibição de exportação de capital — reforçada pelo regime de câmbios muito controlado— e também ao isolacionismo económico, que evitava investimentos e compras exteriores.
Ao mito de Salazar “líder” mundial (de ouro) somam-se vários do pós-revolução: “o ouro foi todo roubado depois do 25 de Abril”; “o ouro desapareceu no PREC”; “venderam tudo nos anos 80”. Todos mitos. O ouro foi só gerido pelo Banco de Portugal (não, não foi "roubado" nem desapareceu misteriosamente) e usado em parte para se enfrentarem crises económicas, nomeadamente entre os anos de 1977 e 1983, com défices externos elevados e dois resgates do FMI. Importa também explicar: o ouro foi sempre contabilizado, e sempre auditado, e apenas cerca de 15% seria vendido (cerca de 127 toneladas) entre 1977 e 1985.
O tanto ouro que ainda sobejou serviria para manter confiança no escudo, por exemplo, e facilitar acesso a financiamento externo. Após a entrada na União Europeia e, depois, na moeda única, Portugal, como outros países da zona euro, teve de consolidar a gestão das reservas e parte do ouro até passar a estar sob as regras comuns do Sistema Europeu de Bancos Centrais — embora continue a ser de propriedade nacional, sob custódia do Banco de Portugal.
A reserva significativa atual (382,7 toneladas) é considerada prudente, no valor, e estratégica, no uso.
