Cada peça de ouro que Farzana Ghani possui guarda uma memória.
Tem conjuntos de joalharia da sogra, oferecidos no seu casamento no Paquistão; uma corrente de ouro oferecida pela mãe depois de ter realizado o Hajj, a peregrinação muçulmana; e moedas de ouro que simbolizam o nascimento da filha.
E vai continuar a investir em ouro, à medida que os preços do metal atingem máximos históricos.
“Comparado com obrigações e com ter dinheiro parado, continuo a preferir comprar moedas de ouro”, afirma Ghani, de 56 anos, residente em Miami, Florida.
As noivas no Sul da Ásia são conhecidas por estarem cobertas de peças do metal precioso – colares, brincos, piercings nasais, ornamentos para o cabelo e amuletos – que podem ser oferecidos ou herdados. A coleção começa muitas vezes antes mesmo de nascerem, composta por peças herdadas e ofertas para assinalar o nascimento, marcos da vida e festividades religiosas.
O ouro é reconhecido há milénios como o ativo refúgio mais fiável, mas para as famílias do Sul da Ásia é mais do que um investimento. A tradição das filhas herdarem o ouro das mães atravessa a Índia urbana e rural, independentemente da classe socioeconómica.
Está profundamente enraizado na cultura da região, muitas vezes de forma literal, já que muitas mulheres herdam saris bordados com fios de ouro. As peças são veneradas como relíquias preciosas de família, mais do que uma forma rápida de obter dinheiro — e, para as mulheres, pode ser um dos poucos bens que lhes pertencem exclusivamente.
O preço do ouro disparou 26% este ano, depois de ter subido 27% em 2024. O metal atingiu um recorde acima dos 3.500 dólares (cerca de 2.992 euros) por onça em abril, impulsionado pela política caótica de tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, e pelos seus ataques ao líder da Reserva Federal. As mulheres do Sul da Ásia, que há muito investem a maior parte dos seus bens em ouro, estão a beneficiar desta valorização.
“Tudo o que tenho é ouro”, descreve uma mãe sul-asiática aos seus seguidores no TikTok, mostrando um colar de 24 quilates que recebeu há 28 anos. “Quando comprei isto, naqueles tempos, o ouro era muito barato. Um grama custava 12 dólares. Agora custa 100.”
A Índia foi o segundo maior mercado de joalharia de ouro do mundo em 2023, apenas atrás da China, segundo o grupo líder do setor, o World Gold Council. Em 2021, a Índia comprou 611 toneladas de joalharia em ouro; em comparação, a segunda maior região, o Médio Oriente, comprou 241 toneladas.
A procura na Índia é impulsionada pela joalharia: o país tem entre 11 e 13 milhões de casamentos por ano, sendo que a joalharia nupcial representa mais de 50% da quota de mercado do ouro. Os sul-asiáticos representam cerca de 10% da base de clientes da fornecedora britânica Solomon Global, que registou um aumento, no último ano, de mulheres de origem sul-asiática a comprar ouro, segundo a empresa.
“A joalharia tem um lugar promissor na vida das pessoas, pode ser muito orientada para o consumo, mas também é um excelente mecanismo de poupança e de transmissão de riqueza de geração em geração”, explica à CNN Joseph Cavatoni, estratega de mercado para as Américas no World Gold Council.
Na Índia, as pessoas não veem o ouro como um luxo, segundo Sachin Jain, CEO do World Gold Council no país. Pelo contrário, as peças de ouro são vistas como bens de família que apenas irão valorizar com o tempo.
A joalharia em ouro serve também como uma forma física de proteção financeira numa região onde milhões de pessoas — especialmente mulheres — podem não ter acesso a contas bancárias ou outros tipos de investimento organizado. Na Índia, menos de 50% das mulheres gerem as suas finanças de forma independente, segundo um inquérito da YouGov realizado em março.
Ghani cresceu com essa mentalidade. No Paquistão, a mãe dizia-lhe para guardar qualquer dinheiro de bolso e, quando se acumulasse, comprar moedas de ouro de 24 quilates.
“Nós, mulheres orientais, somos sempre conhecidas por termos dinheiro para dias de chuva. Não vivemos apenas para hoje esquecendo o amanhã”, afirma Ghani.
Uma febre global
Mas em 2025 não são apenas as noivas sul-asiáticas que recorrem ao ouro como investimento. A guerra comercial de Trump abalou o status quo do comércio mundial, e os investidores procuram deslocar os seus ativos de moedas de papel mais voláteis. O ouro registou o seu melhor retorno trimestral desde 1986 no primeiro trimestre de 2025, com a procura por ativos refúgio a estender-se a outros metais como a prata e a platina.
“O ouro é um bastião de segurança e valor”, considera Joshua Barone, gestor de património na empresa de investimento Savvy Advisors. Mesmo com quedas ocasionais, o preço do ouro por onça troy disparou mais de 1.900% nos últimos 50 anos, segundo a BullionByPost, o maior vendedor online de ouro no Reino Unido. A prata valorizou 697% no mesmo período.
Os bancos centrais da Índia e da China têm comprado lingotes para reforçar as suas reservas. O Banco da Reserva da Índia aumentou as suas reservas de ouro em 35% nos últimos cinco anos, segundo a Solomon Global.
Há muito tempo que os sul-asiáticos guardam ouro em casa. De acordo com Jain, existem 25.000 toneladas ou mais de ouro nas casas indianas.
No entanto, os sul-asiáticos não estão interessados em vender o seu ouro por agora. Os indianos estão a guarda o seu ouro, mesmo com preços elevados, refere Jain, contrariando a tendência de vendas acrescidas quando os preços estavam historicamente altos.
“Os mercados ocidentais tendem a querer deter ouro quando as coisas estão realmente assustadoras, com risco e incerteza nos mercados. Mas as famílias (sul-asiáticas), ao longo de gerações, têm mantido ouro porque acreditam que ele cresce com a expansão económica e está ligado ao PIB”, esclarece Cavatoni.
Em vez disso, Jain observou que, no último ano, os consumidores indianos têm regressado às lojas para trocar joias antigas em designs mais contemporâneos. Os jovens continuam a ver valor em manter ouro - mas querem peças que possam usar no dia a dia, em vez de enormes conjuntos nupciais guardados em cofres bancários.
“Acho que o consumidor mais jovem quer possuir, apaixonar-se e usar essas peças, torná-las parte da sua vida”, afirma Jain.
Quando a filha de Ghani se casou, em dezembro do ano passado, em Miami, transformou muitas das suas moedas de ouro e conjuntos antigos numa coleção moderna para a noiva, que poderá guardar e transmitir aos seus próprios filhos no futuro. Outras moedas de ouro foram reservadas para o filho de Ghani.
“Ela queria usar bijuteria”, confessa Ghani. “Mas o ouro é mais decente, mais elegante. Disse-lhe: ‘Não uses mais nada’.”