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Ötzi, o Homem do Gelo, morreu há muito tempo. Mas alguns dos seus micróbios continuam vivos

CNN , Mindy Weisberger*
14 jun, 16:00
Os restos mortais de Ötzi, o Homem do Gelo, são preservados numa câmara de refrigeração a uma temperatura constante de cerca de -6 °C e com 99% de humidade relativa. Marion Lafogler/Museu de Arqueologia do Tirol do Sul/Eurac Research]
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Alguns micróbios de Ötzi continuam vivos após 5.300 anos. O corpo de Ötzi é um "ecossistema vivo", dizem os cientistas

[Foto acima: os restos mortais de Ötzi, o Homem do Gelo, são preservados numa câmara de refrigeração a uma temperatura constante de cerca de -6 °C e com 99% de humidade relativa. Marion Lafogler/Museu de Arqueologia do Tirol do Sul/Eurac Research]

Ötzi, o Homem do Gelo, a múmia excecionalmente preservada e amplamente estudada de um homem que morreu há 5.300 anos, é um “ecossistema dinâmico” de micróbios, alguns dos quais permaneceram viáveis durante milénios, segundo uma nova investigação.

Numa análise abrangente do ADN dos micróbios presentes no interior e no exterior do corpo mumificado de Ötzi, os cientistas associaram várias espécies de fungos ao ambiente frio de montanha onde morreu. Estes organismos terão colonizado o cadáver e congelado juntamente com ele. A resistência natural dos fungos ao frio permitiu-lhes permanecer adormecidos, mas vivos e capazes de reativação, mesmo após milhares de anos, segundo um estudo publicado recentemente na revista Microbiome.

Na verdade, alguns destes micróbios “não são meramente relíquias adormecidas”, podendo estar a multiplicar-se lentamente em microbolsas de humidade existentes na múmia, referem os autores. Este crescimento sugere que a longevidade e a atividade microbiana em restos humanos antigos podem ser superiores ao que se pensava, devendo ser tidas em conta na conservação e manuseamento destes vestígios.

“Em muitos estudos de ADN extraído de restos humanos antigos, o ADN microbiano é largamente ignorado e muitas vezes não é claro se o ADN recuperado é tão antigo quanto o corpo humano em si ou se resulta de contaminação mais recente”, explica à CNN Anders Bergström, investigador em genómica evolutiva da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. “Este estudo sobre Ötzi oferece agora algumas perspetivas fascinantes sobre essa questão.” Bergström não participou na investigação.

Os cientistas já tinham colocado a hipótese de Ötzi estar sozinho quando deu o último suspiro nos gelados Alpes de Ötztal — mas, na realidade, nunca esteve verdadeiramente só. Biliões de micróbios habitavam o seu corpo em vida e permaneceram no cadáver após a morte, incluindo alguns provenientes do local onde morreu.

“Estes micróbios oferecem-nos uma imagem única e preciosa de como era o microbioma humano na Idade do Cobre, antes de a industrialização remodelar profundamente o nosso microbioma”, afirma Frank Maixner, autor principal do estudo e diretor do Instituto para Estudos de Múmias da Eurac Research, em Bolzano, Itália, onde a investigação foi realizada.

“Identificámos bactérias intestinais antigas preservadas no interior de Ötzi que são extremamente raras nas pessoas que vivem atualmente em sociedades industrializadas, embora ainda possam ser encontradas em populações com modos de vida tradicionais e não industrializados”, acrescenta.

Reconstrução de Ötzi, que morreu há cerca de 5.300 anos. (Augustin Ochsenreiter/Museu de Arqueologia do Tirol do Sul)

Para os cientistas, os micróbios de Ötzi são quase tão interessantes quanto o próprio Homem do Gelo, oferecendo pistas sobre o seu microbioma, estado de saúde e sobre a diversidade das comunidades microbianas em ambientes antigos.

Mas, quando se trata de restos orgânicos preservados, os micróbios também podem representar um problema. Durante milénios, o gelo glaciar e as temperaturas negativas protegeram o corpo de Ötzi — e os seus micróbios — da degradação e decomposição. Depois de caminhantes terem descoberto a múmia em 1991, na fronteira entre Áustria e Itália, os restos mortais foram armazenados no Museu de Arqueologia do Tirol do Sul, em Bolzano, onde permanecem congelados a cerca de -6 °C e com 99% de humidade relativa. As condições reproduzem, tanto quanto possível, o ambiente do glaciar onde foi encontrado.

Contudo, recentemente, os cientistas começaram a questionar se esta estratégia é realmente suficiente para manter os micróbios sob controlo, já que algumas espécies conseguem prosperar em ambientes extremamente frios. Além disso, o manuseamento da múmia expõe-na a potenciais contaminações por bactérias e fungos modernos, dificultando a identificação da sua composição microbiana original.

Gerir os micróbios

Para o novo estudo, os investigadores realizaram um levantamento detalhado dos micróbios de Ötzi. Analisaram reservatórios de água no interior do corpo, recolheram amostras da superfície da múmia e de tecidos internos expostos. Examinaram ainda amostras de solo recolhidas sob a múmia durante a escavação de 1991 e recorreram a dados de amostras previamente obtidas do interior do intestino de Ötzi.

Os cientistas recolheram também micróbios transportados pelo ar na câmara de conservação da múmia e na sala onde os restos mortais são manuseados. A partir dessas amostras, conseguiram cultivar alguns dos organismos. Ao extrair ADN de espécimes viáveis e não viáveis e ao analisar o grau de degradação genética, os investigadores conseguiram identificar espécies de fungos e bactérias e estimar se eram antigas ou modernas. Desta forma, distinguiram os micróbios que já estavam presentes em Ötzi, os que colonizaram o corpo após a morte e os que poderão ter sido introduzidos posteriormente através do contacto humano.

Os micróbios mais comuns na superfície dos tecidos de Ötzi foram as bactérias Methylobacterium e Sphingomonas, consideradas resultado de manuseamento moderno. Já outro grupo bacteriano, Staphylococcus, foi associado ao microbioma da múmia.

O microbiologista Mohamed Sarhan examina colónias de leveduras retiradas de uma amostra do estômago de Ötzi. (Andrea De Giovanni/Eurac Research)

Foram identificadas quatro leveduras — Glaciozyma, Goffeauzyma, Mrakia e Phenoliferia — tanto no interior como na superfície da múmia. As semelhanças genéticas com fungos adaptados ao frio encontrados em locais como a Antártida sugerem que estes organismos pertenciam ao ambiente natural onde Ötzi morreu. Os elevados níveis de danos no ADN reforçam a ligação ao antigo ecossistema alpino.

“Os nossos resultados fornecem uma base de referência para futuros estudos microbianos sobre o Homem do Gelo”, indica Maixner. Agora que os investigadores sabem quais os micróbios presentes, esperam compreender melhor o que estes fungos e bactérias estão a fazer e de que forma interagem dentro do “ecossistema” constituído pelo corpo de Ötzi.

Uma das leveduras, Glaciozyma, revelou-se mais abundante do que em análises realizadas em 2010 e apresentava menos danos genéticos, sugerindo que poderá estar a reproduzir-se apesar das temperaturas negativas da câmara de conservação. Além disso, com exceção da Mrakia, todas as leveduras possuíam genes que lhes permitem alimentar-se de compostos anteriormente utilizados para proteger restos antigos, bem como de matéria orgânica. Embora a múmia não apresente atualmente sinais de degradação, a descoberta levanta preocupações sobre a sua conservação futura.

A investigação constitui “um excelente trabalho que combina vários métodos de estudo”, incluindo duas técnicas de sequenciação genómica que forneceram dados detalhados sobre fungos e bactérias, aponta René Cerritos, professor-investigador da Universidade Nacional Autónoma do México, que não participou no estudo.

“A análise que considero mais interessante é a baseada em culturas laboratoriais”, indica Cerritos à CNN. “Com este método é possível recuperar organismos, mesmo quando têm 5.300 anos.”

Sarhan observa células de levedura ao microscópio. (Andrea De Giovanni/Eurac Research)

Ainda assim, poderá ser prematuro concluir que uma das bactérias alegadamente reativadas, Staphylococcus, seja realmente antiga, considera Cerritos, uma vez que esta espécie é comum na pele humana e pode resultar de contaminação recente. A sequenciação completa do genoma e a comparação com estirpes históricas e modernas poderão ajudar a esclarecer a sua antiguidade.

Nas décadas que se seguiram à descoberta de Ötzi, os cientistas reconstruíram muitos aspetos da sua vida e da sua morte violenta, ocorrida quando tinha cerca de 46 anos. A sua última refeição incluía cereais, plantas e carne de veado e íbex. Um corte profundo na mão e uma flecha alojada no ombro sugerem que os seus últimos dias foram marcados pela violência. Provavelmente morreu devido à hemorragia causada pelo ferimento no ombro. Tinha ainda 61 tatuagens, consideradas das mais antigas conhecidas no mundo. Depósitos de cálcio no coração indicavam possíveis problemas cardíacos, enquanto o seu intestino continha Helicobacter pylori, uma bactéria associada ao cancro gástrico e às úlceras.

Estas novas descobertas sobre os micróbios poderão abrir caminho a futuras revelações — tanto sobre Ötzi como sobre outros vestígios biológicos do passado remoto.

“Esperamos que estudos igualmente rigorosos possam ser realizados numa gama mais ampla de restos humanos e animais, especialmente em tecido ósseo, que constitui a principal fonte de material para a maioria dos estudos de ADN antigo”, acrescenta Bergström.

“Ao estudar a forma como as comunidades microbianas mudam ao longo do tempo nos restos mortais, poderemos compreender melhor quais os micróbios que estavam realmente presentes no momento da morte do organismo — e é isso que, em última análise, mais nos interessa.”

*Mindy Weisberger é jornalista de ciência e produtora de conteúdos multimédia. O seu trabalho foi publicado em meios como a Live Science, a Scientific American e a revista How It Works. É autora do livro Rise of the Zombie Bugs: The Surprising Science of Parasitic Mind-Control (Hopkins Press)

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