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Este osso antigo pode ser a primeira prova física dos elefantes da "máquina de guerra" de Aníbal na Europa Ocidental

CNN , Jack Guy
12 abr, 16:00
Uma representação de um elefante de batalha cartaginês durante a Segunda Guerra Púnica. (Prisma/Universal Images Group/Getty Images)

Os cartagineses eram conhecidos por utilizar elefantes como "máquinas de guerra" nos seus exércitos

Arqueólogos em Espanha descobriram um osso de elefante com 2.200 anos e acreditam que pertenceu a um animal que serviu como "máquina de guerra" num exército enviado para invadir a República Romana.

Após descobrirem o osso do tornozelo no sítio arqueológico da Colina de los Quemados, na cidade de Córdova, no sul do país, os investigadores recorreram à datação por radiocarbono para confirmar que pertenceu a um elefante que viveu entre o início do século IV e o final do século III a.C.. A conclusão consta de um estudo publicado na revista científica Journal of Archaeological Science: Reports.

Por esta altura, a cidade-estado de Cartago, na atual Tunísia, disputava a supremacia no Mediterrâneo com a República Romana.

Os cartagineses eram conhecidos por utilizar elefantes como "máquinas de guerra" nos seus exércitos, aponta a investigação. Os relatos clássicos sugerem que o famoso comandante Aníbal conduziu uma tropa de 37 elefantes através das atuais Espanha e França, numa tentativa de invadir a Itália ao atravessar os Alpes durante a Segunda Guerra Púnica, conflito que ocorreu entre 218 e 201 a.C..

Vista do sítio arqueológico onde o osso foi encontrado, no sul de Espanha. (Agustín Lopez Jimenez)

A visão incrível dos elefantes de Aníbal deixou a sua marca nos registos históricos, mas até agora não tinha sido descoberta qualquer prova física direta da sua presença na Europa Ocidental.

Além da datação por radiocarbono, que coincide genericamente com a cronologia da Segunda Guerra Púnica, os investigadores referem que os indícios para a teoria sobre Aníbal incluem também 12 bolas esféricas de pedra utilizadas em artilharia, encontradas junto ao osso. Esta descoberta "aponta provavelmente para um contexto militar".

Embora reconheçam que a descoberta de um osso isolado não indica que o animal inteiro estivesse neste local (uma vez que poderia ter sido levado para lá como curiosidade ou lembrança), os investigadores sublinham no estudo que o "registo histórico e arqueológico sugere que a sua associação com os acontecimentos da Segunda Guerra Púnica, quer de forma direta ou indireta, fornece a explicação mais plausível". Os especialistas citam ainda a presença de projéteis e pontas de seta, que poderão ter sido deixados para trás na sequência de um episódio violento.

Armas de prestígio e com impacto "psicológico"

Os elefantes de batalha nesta época eram "armas de prestígio, mas também armas psicológicas". A perspetiva é de Fernando Quesada-Sanz, autor principal do estudo e arqueólogo na Universidade Autónoma de Madrid, em Espanha.

Numa declaração enviada à CNN esta quinta-feira, o especialista explicou que os animais eram "muito impressionantes e assustadores para as tropas que não estavam habituadas a enfrentá-los".

O investigador acrescentou que os elefantes eram também particularmente úteis contra a cavalaria e para desorganizar as linhas de infantaria inimigas, funcionando até como pontas de lança para liderar ataques contra as paliçadas de fortificações temporárias, como acampamentos de campanha.

Fernando Quesada-Sanz destacou que esta é a primeira vez, tanto quanto se sabe, que os restos reais de um dos elefantes do exército cartaginês são encontrados em solo europeu. O animal poderá fazer parte do grupo de 21 elefantes que as fontes clássicas indicam que Aníbal deixou na Península Ibérica antes de iniciar a sua marcha para Itália.

O responsável antecipou que "este achado pode ser um alerta para o estudo de coleções de antigas escavações guardadas em armazéns de museus em Espanha, no sul de França ou mesmo em Itália, que poderão, de forma concebível, produzir mais exemplos". Fica também o aviso de que "os ossos de futuras escavações têm de ser verificados cuidadosamente".

Os arqueólogos encontraram o osso do tornozelo no sítio arqueológico da Colina de los Quemados, na cidade de Córdova. (Agustín Lopez Jimenez)

Eve MacDonald, arqueóloga e professora de história antiga na Universidade de Cardiff, no País de Gales, sublinhou à CNN que a descoberta é significativa porque fornece, finalmente, provas físicas para a convicção de longa data de que os cartagineses introduziram elefantes na Península Ibérica durante o século III a.C.. A autora do livro "Carthage: A New History", que não esteve envolvida no estudo, valorizou fortemente o impacto do achado.

O contexto da descoberta, num depósito de armas de artilharia e de outros instrumentos bélicos, acrescenta uma camada convincente à interpretação feita pelos autores do estudo, notou a especialista.

Num e-mail enviado à CNN, Eve MacDonald confessou que "há algo de profundamente gratificante nos momentos em que o registo arqueológico se destaca e confirma o que a história há muito sugeria".

A professora galesa lembrou que a lenda de Aníbal a atravessar os Alpes com 37 elefantes tem capturado a imaginação das pessoas durante milénios: "Os antigos romanos ficaram espantados com isso e nós continuamos a ficar hoje".

A concluir, a investigadora resumiu a emoção da descoberta em poucas palavras, assinalando que "este pequeno osso aproxima-nos mais um passo de uma das mais extraordinárias histórias militares do mundo antigo".

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