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Isabél Zuaa é a atriz portuguesa de "O Agente Secreto": foi só "fazer uma participação" e agora vai estar nos Óscares

14 mar, 18:00
A atriz Isabél Zuaa no filme "O Agente Secreto" (DR)

“Sonhar com os Óscares parece algo impossível, e não só para uma rapariga negra, mas também para uma rapariga branca em Portugal”, diz a atriz, recordando que é apenas a terceira vez que uma atriz portuguesa participa num filme nomeado para o principal Óscar. Aos 38 anos, Isabél Zuaa é uma das mais internacionais atrizes portuguesas, divide-se entre Portugal e o Brasil, faz teatro, cinema e televisão e não abdica das suas próprias criações. Este domingo vai desfiar na passadeira vermelha de Hollywood com a equipa de "O Agente Secreto"

Isabél Zuaa estava em Lisboa quando recebeu um telefonema da sua agência no Brasil: "Queres vir amanhã para entrar num filme do Kleber Mendonça Filho?". A atriz mal teve tempo de fazer mala. Chegou a Recife e foi experimentar a roupa e os penteados da sua personagem ainda sob o efeito do jet lag. Pelo meio, leu o guião e inteirou-se sobre aquela Teresa Victória, uma mulher angolana que escapa da guerra civil e se refugia no Brasil em meados dos anos 70. Olhando agora para trás, Isabél recorda os dias da rodagem de "O Agente Secreto" como "muito felizes", fala do ambiente incrível entre a equipa e da gratidão por ter oportunidade de interpretar uma personagem que tanto lhe diz. Mas nunca imaginou o que vinha a seguir.

"Eu dizia que só tinha feito uma participação. Achava que o meu papel era muito pequeno", conta a atriz. "Depois, quando vi o filme no Festival de Cannes, percebi que ninguém faz uma participação, são todos, todos juntos fazem o filme, tudo faz avançar a história da personagem principal, e é tão incrível isso. É realmente um filme de protagonista soberano, o Wagner Moura, mas todas as personagens são protagonistas da sua própria história. Com mais dor, mais violência, mais silêncios. Cada pessoa naquele edifício tem a sua história. E todos brilham juntos." Em Cannes, onde "O Agente Secreto" se estreou em maio do ano passado, a equipa desfilou na passadeira vermelha dançando ao som de frevo. No final da sessão, o filme teve um enorme aplauso. E saiu do festival com dois prémios - para o ator e para o realizador. "Emocionei-me muito", recorda Isabél. "Que bom poder fazer parte de um filme que está a fazer história. A minha história cruzando-se com essa história."

Isabél Zuaa com a equipa de "O Agente Secreto" no Festival de Cannes em maio do ano passado (GettyImages

Se Cannes já foi "uma adrenalina imensa", imagine-se como será em Hollywood. O filme brasileiro está nomeado para quatro Óscares - melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor casting (uma nova categoria que premeia o responsável pela escolha dos muitos atores que entram num filme), e a atriz portuguesa não esconde o entusiasmo por poder estar em Los Angeles para a entrega de prémios, este domingo. 

Mas, independentemente do que aconteça na cerimónia, só o facto de fazer parte deste filme, já é um marco na sua vida. “Sonhar com os Óscares parece algo impossível, e não só para uma rapariga negra, mas também para uma rapariga branca em Portugal”, diz Isabél Zuaa. “Nós só tivemos duas atrizes que estiveram em filmes nomeados para os Óscares. A Maria de Medeiros, com o ‘Pulp Fiction’, em 1994, e a Rita Blanco no ‘Amor’, em 2012. Faço sempre questão de referir as que vieram antes.” 

Isabél Zuaa no Festival de Cannes em maio do ano passado (GettyImages)

"Eu posso tudo": esta é a mensagem que quer passar

A personagem Teresa Victória "tem camadas sentimentais, emocionais e também político-históricas. Vem do continente africano, passa por Portugal, regressa ao continente africano e depois é exilada no Brasil durante um período que é muito complexo”, explica a atriz, sublinhando que tentou mostrar "o desconforto desse corpo em exílio”. Teresa Victória é inspirada numa mulher que existiu na vida real, uma angolana amiga da mãe do realizador. “O Kleber falou-me do tom dela, do sotaque dela, e nós adentrámos outras camadas também dentro da minha subjetividade”, explica Isabél Zuaa. “Tenho uma grande pesquisa sobre as mulheres da luta da libertação, como a Deolinda Rodrigues, e fui buscar isso tudo. Foi uma oportunidade de honrar as pessoas que lutaram para que nós pudéssemos ter uma maior liberdade. É importante não esquecer.”

A atriz Isabél Zuaa no filme "O Agente Secreto" (DR)

Tal como Teresa Vitória, também ela está ligada aos três continentes. A avó Isabél era da Guiné, a avó Zuaa era de Angola. Isabél Zuaa é portuguesa, cresceu no Zambujal, em Loures. O pai era engenheiro de obras públicas, a mãe teve vários trabalhos, mas é acima de tudo uma cuidadora. “Os meus pais trabalhavam várias jornadas para conseguirem dar uma formação aos filhos”, recorda Isabél, a mais nova de quatro irmãos. ”O meu pai investia muito em livros, comprava enciclopédias e dicionários, fez cursos de espanhol, francês e inglês. "Os irmãos eram mais estudiosos, Isabél tinha outros interesses. “Sempre fui um ser com muita criatividade e uso a criatividade em todos os campos, desde a culinária à forma como organizava os presentes na árvore de Natal.”

Aos cinco anos fez parte de um grupo de dança, sempre adorou cantar e desde a infância, com as primas e as vizinhas, brincava “às novelas brasileiras”. “Eu interpretava as protagonistas ou as antagonistas, porque gostava muito de ser a má. De brincar em ser a má”, conta. 

Lembra-se de ver a “Chica da Silva” - a da Zezé Motta e a da Thaís Araújo - e de improvisar uns vestidos com o ombro à mostra, de brincar a falar com sotaque do Brasil. Sentia-se inspirada pela Whoopi Goldberg em “Do cabaré para o convento” ou pelo Eddie Murphy, no “Príncipe em Nova Iorque”, “que tinha também a questão da diáspora, do sair do continente africano". “Não tinha a ligação ao território, mas tinha a ligação a essa diáspora através dos meus pais”, conta. “Via os filmes e as séries e perguntava-me sempre: quem seria eu naquela circunstância ou naquela época, em 1500, em 1700, nos anos 30, e havia algumas personagens com que eu me identificava mais, mesmo que fisicamente não fossem tão parecidas comigo, mas identificava-me com a atitude, gostava daquela mais irreverente, mais rebelde, fugia assim um pouco aos estereótipos”, recorda. Adorava Amália Rodrigues. Beatriz Costa. Simone de Oliveira. “Atrizes, a família Lapa toda. A Maria João Abreu. A Marina Mota.” São tantas as referências.

A atriz Isabél Zuaa no filme "O Agente Secreto" (DR)

“Lembro-me da primeira vez que vi a Grace Jones e pensei, uau!, eu posso tudo. De ver a Tina Turner. A Whitney Houston. A Josephine Baker. A Nina Simone. A Miriam Makeba. E pensar: eu também posso. Há pessoas com características como as minhas que são muita coisa. Então isso abriu-me possibilidades. Ampliou-me o imaginário. A arte tem o poder de transformar as vidas, e é um clichê mesmo, mas eu acho que a arte transformou a minha vida, a minha realidade, as minhas possibilidades. Por isso é que eu comecei a criar, para que outras pessoas percebessem que também têm essa possibilidade.”

“Em Portugal muitas vezes perguntavam de onde é que eu era"

Isabél estudou no Chapitô e foi a professora Gina Tocchetto, a sua “primeira mestra de teatro”, que a incentivou a ir para o Conservatório. “Eu não queria, queria ir para jornalismo, filosofia, antropologia. Pensei: vou fazer o Conservatório em plano B ou C. Mas acabou por ser o plano principal”. No Conservatório havia intercâmbios com várias universidades estrangeiras, nomeadamente na América do Sul, mas no Brasil só havia em São Paulo e em Porto Alegre. “Eu queria ir para o Rio de Janeiro das novelas, claro. E andei lá meses e meses a chatear até que criaram um convénio com a Unirio, só que não tinha bolsa. E foi incrível. Os meus pais ajudaram-me, mas ao fim de seis meses decidi arranjar um trabalho.” A partir daí não mais parou. Ia para ficar cinco meses e acabou ficando sete anos, sempre a trabalhar, no teatro, no cinema e a começar a fazer as suas próprias criações.

O Brasil tem um mercado maior, com mais oportunidades, mas não foi só isso que agradou a Zuaa. “Acho que o Brasil mistura África, Portugal, também um pouco de Espanha, um pouco de Itália. E eu tenho essa mistura, de forma diferente, junto Portugal e África, e estando no Brasil parecia que eu me identificava mais. Lá as pessoas não me veem como diferente, acham que eu posso ser do Brasil. E esse é um lugar de pertencimento”, explica. “Em Portugal muitas vezes perguntavam de onde é que eu era. Nunca partindo do pressuposto que eu podia ter nascido no hospital da Estefânia. Nunca partindo do pressuposto que eu seria portuguesa. E no Brasil isso não acontece porque há uma enorme miscigenação.” 

No Brasil, pelo contrário, havia quem não acreditasse que Isabél era portuguesa. “O imaginário da portuguesa para eles era uma senhora com um lenço na cabeça a dançar o vira. E eu dizia-lhes que também sei dançar o vira. E também posso cantar um fado. Eu quebro os estereótipos dentro da comunidade africana, dentro do que é ser uma portuguesa, dentro do que é ser uma migrante, dentro do que é ser uma artista”, diz. “Acredito na autenticidade de cada ser humano, de cada história. E acho que a minha maior riqueza são os meus atravessamentos culturais. O facto de ser uma menina que nasceu em Portugal, mas tem a origem guineense, angolana, conviveu com cabo-verdianos, brasileiros, santomenses, moçambicanos, ciganos, romenos, ucranianos, russos... acho que é isso que me dá essa potência.”

Isabél Zuaa no espetáculo "Moçambique", da companhia Mala Voadora, em 2017 (DR)

Voltou para Portugal para trabalhar com a companhia de teatro Mala Voadora em alguns espetáculos e, desde então, vive entre cá e lá, mudando o sotaque com a maior facilidade. “Estou sempre em movimento, gosto de aproveitar as oportunidades que surgem, mas cansa um pouco. Houve uma altura em que eu acordava e eu pergunta ‘onde é que eu estou?’” 

"Uma afro-saloia com o sonho de cantar"

Neste percurso, é preciso destacar a Aurora Negra, o projeto que Isabél tem como Cleo Tavares e Nádia Yracema. Começou por ser um espetáculo que venceu a Bolsa Amélia Rey Colaço e foi apresentado no Teatro Nacional D. Maria II, em 2020. “Queríamos homenagear as mulheres negras que vieram antes de nós e que nos inspiraram. Todas. As artistas, as ativistas, mas também as mulheres que se levantam às três da manhã para ir limpar escritórios, bancos, metros, garagens, cozinhar para as escolas, para os restaurantes, para limpar, cuidar das crianças, cuidar dos mais idosos. Então decidimos também a homenagear as nossas mães e falar das nossas biografias”, recorda Isabél Zuaa. “Só que deixámos tanta coisa por dizer naquela Aurora Negra, porque havia muitas referências para trazer, da Nina Simone, Audrey Lorde, Cristina Roldão, Jamila Ribeiro. Havia tantas referências que nós não podíamos deixar aquilo ficar só ali. Então continuámos como coletivo, a fazer outros espetáculos.” A Aurora Negra continua, ao mesmo tempo que cada uma delas tem os seus próprios projetos.

Isabél Zuaa com Cleo Diára e Nádia Yracema no espetáculo "Aurora Negra", em 2020 (DR)

“Gosto muito de trazer a minha ancestralidade para a criação, trazer o crioulo da Guiné-Bissau, a música, as memórias da minha família, e na verdade eu percebi que a minha biografia e a minha árvore genealógica eram uma matéria muito rica e que, ao mesmo tempo, me permitia conhecer-me melhor, conhecer de onde eu vinha, ter esse resgate da autoestima e poder de alguma forma homenagear a minha ancestralidade", diz a atriz. "Não esqueço de onde eu venho.”

Isabél está dividida entre as oportunidades profissionais que o Brasil lhe dá e a casa e a família que estão em Portugal. Mas está decidida a estar cada vez mais por cá. “Criámos a União Negra das Artes e quero fazer parte, criar movimentos aqui, escrever sobre aqui, porque para mim é importante deixar um legado de escrita aqui para as crianças. Para alimentar o seu sonho. Como eu tive essa oportunidade, é importante para mim que outras crianças também tenham matéria-prima para se inspirarem, para criarem.”

Aos 38 anos, Isabél Zuaa é uma das mais internacionais atrizes portuguesas. Faz teatro, cinema e televisão e, entre outros, ganhou vários prémios com a sua interpretação no filme “Joaquim”, realizado por Marcelo Gomes (2017), e recebeu o prémio de Melhor Atriz no Festival de Gramado pelo filme “Um Animal Amarelo” de Felipe Bragança (2020). Enquanto dá entrevistas sobre "O Agente Secreto", está a preparar a sua próxima criação, com estreia marcada para 13 de junho em Guimarães. “É um espetáculo sobre uma menina, uma afro-saloia que tem o sonho de cantar" - essa menina é ela.

Isabél Zuaa com Julio Machado e Welket Bungue no Festival de Berlim de 2017 quando apresentaram o filme "Joaquim" (GettyImages)

 

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