Kleber Mendonça Filho: Entre a alegria do Carnaval e as sombras da ditadura, "O Agente Secreto" "é um filme muito brasileiro, mas ao mesmo tempo universal"

1 mar, 18:00
O realizador brasileiro Kleber Mendonça Filho (Gareth Cattermole/ GettyImages)

ENTREVISTA || O filme brasileiro "O Agente Secreto" está nomeado para quatro Óscares, entre os quais o de melhor filme do ano. A duas semanas da cerimónia de entrega dos prémios, o realizador Kleber Mendonça Filho falou com a CNN Portugal

Recife, Carnaval de 1977. O Brasil vive numa ditadura militar, nos cinemas os espetadores gritam de medo a ver "O Tubarão", e Marcelo, um professor universitário e opositor ao regime, tem de se esconder, com um nome falso, exilado no seu próprio pais. "O Agente Secreto" é o filme que, depois do grande sucesso de "Ainda Estou Aqui", leva o Brasil até aos Óscares. E é também um filme que nos transporta para o período da ditadura. 

"A história surgiu, como sempre, quando se está a desenvolver um filme, de várias ideias. Uma delas era trabalhar com o Wagner Moura, esse era um ponto de partida inicial. A segunda coisa era fazer um thriller, mas que fosse um filme que desafiasse a própria noção de género. Você talvez tenha dificuldade de dizer se 'O Agente Secreto' é um thriller, é um melodrama, é um filme de terror de uma certa forma, é um filme histórico. São vários filmes nesse roteiro que foi escrito durante quase dois anos", conta o argumentista e realizador Kleber Mendonça Filho.

"Queria fazer uma investigação histórica do meu país, da minha cidade, de um momento muito particular do Brasil, que é os anos 70, quando existia um regime militar nada democrático". Queria mostrar como era "viver num estado de exceção, onde a democracia está distante da vida das pessoas", mas, ao mesmo tempo sem fazer um filme que fosse diretamente sobre a ditadura. No "O Agente Secreto" não há prisões nem torturas, mas é muito visível aquela falta de ar que sente quem vive constantemente com medo.

Kleber tinha 9 anos em 1977. "Não lembro especificamente de nada sinistro, exceto a escola Padre Donino, onde estudei, nos obrigar a marchar todas as sextas-feiras. É uma das memórias mais estranhas de uma escola que não é militar: fazer crianças marcharem como pequenos soldados. Lembro-me de veículos militares nas ruas como algo normal. Passa um táxi, passa um ônibus, passa um veículo militar. Isso era muito frequente naquela época. Lembro-me também - e isso é talvez a parte assustadora - de histórias que a minha mãe contava de amigos que desapareceram, de homens estranhos sentados atrás na universidade, sempre ali no cantinho, em silêncio, a tomar nota, e ninguém saberia dizer quem era aquela pessoa. Esse clima faz parte de mim, mas muito do 'Agente Secreto' veio de histórias que foram contadas pela minha mãe, pela minha família, pelos meus tios, pelo que eu sei que aconteceu, por muita coisa que encontrei nos jornais."

"Num regime ditatorial não é possível chamar a polícia se uma situação extremamente dramática acontece. Muitas vezes a situação dramática acontece por causa das autoridades. Muito do desenvolvimento do roteiro veio desse sentimento histórico", explica o realizador.

A ação passa-se nos anos 70, mas fala diretamente para os dias de hoje. "Recentemente o meu país passou por um momento muito ruim, de sombras, onde uma ideia da democracia começou a distanciar-se novamente", diz o realizador, referindo-se à presidência de Jair Bolsonaro, sem nunca o nomear. "Neste momento recuperamos o sentimento democrático, mas esses anos recentes estabeleceram uma comunicação muito grande entre nós e o que aconteceu há 50 anos. Esse governo, que não foi reeleito, tentou trazer um jeito, uma iconografia, uma lógica da ditadura militar para um Brasil contemporâneo e democrático. Esse foi um dos acontecimentos políticos e históricos mais estranhos e inesperados que eu, como brasileiro, pude observar nos últimos anos do meu país." Talvez seja também esse o motivo porque um filme que está tão longe de seguir os padrões do cinema de Hollywood, esteja a ser tão bem recebido nos Estados Unidos e noutros países. 

O júri de Cannes, onde "O Agente Secreto" se estreou em maio do ano passado, sublinhou que este é um filme “pessoal e, ao mesmo tempo, universal, que não tem pressa e funciona como um recetáculo de memória para um mundo: o mundo do Brasil sob regime militar em 1977 e o mundo de pessoas boas em tempos difíceis”. "Em primeiro lugar é um filme brasileiro", reage Kleber. "Sempre acreditei no filme, gosto muito do que fizemos. Mas é sempre uma surpresa, afinal de contas, é um filme que tem um corte muito brasileiro, mas ao mesmo tempo também achei que poderia ser universal e creio que é universal."

A perda de memória coletiva é algo que preocupa Mendonça Filho e é também um dos temas de "O Agente Secreto". "O Brasil é um país que tem uma certa dificuldade em voltar aos arquivos", explica o realizador. Muitos dos arquivos do regime militar foram destruídos ou foram perdidos. Em 1979, dois anos depois da ação em que se passa no filme, o Brasil teve a lei da amnistia, que foi quando o governo militar decidiu propor que tudo seria esquecido: vamos começar do zero, vamos esquecer tudo. Acredito que isso causou algum tipo de trauma na sociedade brasileira. Porque se você não enfrenta o que aconteceu e você simplesmente finge que está tudo certo, lá na frente isso não será bom - seja para uma pessoa, seja para uma nação do tamanho do Brasil.

Wagner Moura é o primeiro brasileiro nomeado para o Óscar de Melhor Ator (DR)

"O Agente Secreto" tem Carnaval e frevo, sotaques carregados e um Brasil que está muito distante do país que vemos geralmente nas novelas. E tem a "perna cabeluda", uma lenda urbana que "foi criada por dois jornalistas que nos anos 70 tinham dificuldade com a censura. Não podiam escrever exatamente o que aconteceu. Então, sempre que os personagens infratores eram a polícia, o exército ou forças militares, eles passaram a usar a perna cabeluda. Muito para agressões contra pessoas, cidadãos, atos de violência, perseguição à comunidade gay, por exemplo. E a perna cabeluda passou a ser usada como um código para as forças de segurança, as autoridades", explica Kleber Mendonça Filho. "Isso transformou-se numa lenda muito popular. Eu achei os artigos originais impressos no Diário de Pernambuco. Programas de rádio tinham o personagem da perna cabeluda. Em criança passei a ter medo da perna cabeluda e sempre quis trazer a perna cabeluda para um filme."

Kleber Mendonça Filho, realizador de filmes muito diferentes como "Aquarius" (2016), "Bacurau" (2019) e "Retratos Fantasmas" (2023), é fã de muitos géneros de cinema, entre os quais o cinema de terror. "Acho que é uma das expressões mais interessantes. Como dizemos no Brasil, é quando soltamos os cachorros. Tudo pode acontecer num filme de terror, de fantasia. Mas eu também sou muito apegado ao realismo. A união do realismo com o cinema extremo parece-se muito interessante", diz - e é isso mesmo que acontece n'"O Agente Secreto".

O filme junta as memórias do realizador e a sua enorme paixão pelo cinema - pelo cinema enquanto experiência (película, sala, comunidade, imaginário). "O cinema é não só  essa arte que é capaz de expressar ideias através de imagem e som. Estamos num momento de questionar a própria existência da sala de cinema, com tanta tecnologia e tantas maneiras novas de ver, de aceder a imagens, mas o espaço da sala de cinema é extremamente importante porque ele junta pessoas. É um coletivo de perceção da imagem e é algo que defendo muito. Tenho um fascínio por esse espaço coletivo. E fico muito feliz de ver 'O Agente Secreto' a ser um sucesso nas salas de cinema. A cada semana o filme passa por novas descobertas em novas salas no mundo inteiro, isso para mim É muito importante porque a sala de cinema constrói o caráter de um filme. E eventualmente ele vai chegar ao streaming, nada contra, mas o streaming tem que vir depois, primeiro sempre a sala de cinema".

O Agente Secreto" está nomeado para quatro Óscares – melhor filme, filme internacional, ato (Wagner Moura, o primeiro brasileiro nomeado nesta categoria) e casting, que é uma categoria nova que premeia a escolha dos muitos atores que integram o elenco. "Eu tenho muito amor e muito orgulho desse elenco que está indicado ao Óscar. É o primeiro prémio dado a um elenco. E é incrível juntar mais de 60 atores de todos os tipos. Os meus filmes têm múltiplas caras e múltiplos biótipos que representam a vida na sociedade. Ainda mais numa sociedade tão misturada como a brasileira", afirma Kleber Mendonça Filho, sublinhando o privilégio que foi poder trabalhar com "um astro internacional" como Wagner Moura, mas também Isabé Zuaa, a "maravilhosa" atriz portuguesa, e com outros que só tinham experiência no teatro comunitário ou nem isso, como é o caso de Tânia Maria

Sem formação como atriz ou qualquer experiência anterior, a costureira do interior do Rio Grande do Norte Tânia Maria é uma das atrizes de "O Agente Secreto" (DR)

"Tânia Maria é uma estrela no Brasil. Ela, quando sai na rua, é cercada por fãs. Tem feito comerciais de cerveja, de hambúrguer. Ela é um sucesso internacional, é aplaudida em cenas na Polónia, em Los Angeles, no Porto, em Paris, na Austrália. É uma grande pessoa e uma grande atriz", afirma o realizador. "Uma grande atriz que não era atriz, mas ela é atriz. E eu não sou muito fã da expressão não ator, que se transformou em algo corrente no mundo do cinema, chamar alguém de não ator por não ser profissional. Ela não é uma não atriz, ela é uma grande atriz."

"Estou muito feliz com a reação que 'O Agente Secreto' ainda tem no Brasil. Está nos cinemas, como em Portugal, desde o dia 6 de novembro do ano passado. E continua no top 10 de bilheteria. Transformou-se num arrasa-quarteirão, num blockbuster no Brasil", conta o realizador. Em Portugal, "O Agente Secreto" já foi visto por quase 100 mil pessoas e continua em exibição nos cinemas. Depois dos prémios no Festival de Cannes e da Associação de Críticos dos EUA, de dois Globos de Ouro e de muitas outras premiações, Kleber Mendonça Filho prepara-se agora para rumar a Hollywood para a cerimónia dos Óscares que se realiza a 15 de março.

"Tem sido um dos momentos mais intensos de trabalho com um filme que já tive", diz, sobre as muitas viagens que tem feito a promover "O Agente Secreto". "Há uma energia enorme no Brasil em torno do filme. Estamos muito felizes. Eu quero ganhar. Se não acontecer, já estou a pensar muito no próximo filme. O filme tem sido muito bem recebido no mundo inteiro. É um grande momento para todos os que fizemos 'O Agente Secreto'."

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