O filme realizado por uma equipa metade palestiniana e metade israelita está disponível no Filmin e vai chegar na quinta-feira a duas salas de cinema portuguesas: o Cinema Ideal, em Lisboa, e o Trindade, no Porto. É um dos candidatos ao Óscar de Melhor Documentário
Basel Adra, um jovem palestiniano, e Yuval Abraham, um jovem israelita, passaram os últimos anos a fazer um filme que retrata a vida quotidiana da comunidade de Masafer Yata, na Cisjordânia. Os mais de mil habitantes deste conjunto de aldeias têm vindo a ser forçados a deixar a sua terra, uma vez que em 2022 o exército israelita decidiu ali instalar uma zona de treino militar. Os militares israelitas expulsam os habitantes das suas casas para que os bulldozers avancem. Ir para onde? Esta é a minha terra, não tenho outra, dizem os palestinianos. O filme, intitulado “No Other Land”, foi o vencedor do prémio de Melhor Documentário em Berlim e dos Prémios do Cinema Europeu. Em Portugal, o filme foi exibido no festival IndieLisboa, onde venceu o Prémio do Público. E agora está também nomeado para o Óscar de Melhor Documentário.
Enquanto isso, "No Other Land" está disponível no Filmin e vai chegar na quinta-feira a duas salas de cinema portuguesas: o Cinema Ideal, em Lisboa, e o Trindade, no Porto.
A Basel Adra e Yuval Abraham juntaram-se Hamdan Ballal e Rachel Szor - o filme é assinado por todos, uma equipa metade palestiniana, metade israelita, como os dois estados que gostariam que existissem.
As câmaras captam bulldozers a demolir casas e escolas, colonos a sabotar o abastecimento de água e a destruir os campos cultivados, soldados a ameaçar e a disparar contra aqueles que defendem a sua terra. Os residentes protestam, desesperados, mas os soldados mantêm-se impassíveis.
Basel Adra estudou Direito mas de pouco lhe vale o curso ali. Trabalha na construção, ajuda o pai na bomba de gasolina e é ativista. Tinha cinco anos quando viu o pai ser preso. Aos sete já participava em manifestações. "Lembro-me que, em criança, costumava dormir com os sapatos calçados para o caso de os soldados invadirem a nossa casa. Depressa percebi que não tínhamos escolha: se não lutássemos, seríamos expulsos da nossa terra e perderíamos a nossa comunidade", conta no filme.
Desde pequeno que se lembra de ver as pessoas de câmara em punho - e essas imagens granuladas incluídas em "No Other Land", mostram-nos como a luta dos palestinianos não começou hoje. Basel também começou muito cedo a documentar as agressões a que assistia. Relatar os acontecimentos em tempo real nas redes sociais pareceu-lhe a melhor maneira de combater a injustiça e a opressão. “Na altura, acreditava que a partilha destas histórias iria desencadear uma ação - que as pessoas e os governos não ficariam em silêncio”, contou numa entrevista à agência Efe. No entanto, os anos de inação global diminuíram essa esperança. “O Ocidente não quer que o genocídio em Gaza ou a ocupação na Cisjordânia acabem”, diz Adra. "Os vídeos de soldados a cometer crimes estão por todo o lado, mas não há consequências."
Yuval Abraham é um jornalista israelita que chega para saber mais sobre o que se passa na Cisjordânia e se torna amigo de Basel Adra. Enfrentam juntos os bulldozers e os soldados, entrevistam as pessoas que veem as suas casas destruídas, têm conversas profundas enquanto bebem chá, mas ao fim do dia Yuval pode voltar para a sua casa, enquanto Basel não tem autorização para sair dali. O filme é também sobre estas desigualdades e sobre uma amizade complicada. "Pode ter sido o teu irmão ou o teu amigo a destruir a minha casa!", lança-lhe a determinada altura Basel Adra.
"No documentário mostramos a diferença abismal entre a existência deles e a minha", explica Youval Abraham. "Ambos vivemos sob o controlo do Estado israelita, mas com dois sistemas legislativos diferentes. Mostramos o que é viver em condições de apartheid. Os soldados podem entrar na casa de Basel e prendê-lo sempre que quiserem. Eu posso votar, o Basel não. Eu posso ir ao aeroporto, mas Basel, tal como milhões de palestinianos, não pode. No filme perguntamos se a co-resistência é possível."
As filmagens terminam pouco antes dos ataques de 7 de outubro de 2023. De então para cá, a situação na Cisjordânia piorou ainda mais, e Basel Adra continua a filmar e a publicar nas suas redes sociais o que está a acontecer. "Masafer Yatta está a desaparecer à frente dos meus olhos. Só há um nome para estas ações: limpeza étnica", escreveu no outro dia. Apesar do desalento "é muito difícil parar", disse Adra à Efe. "Para pessoas como nós, sem qualquer poder real, é a única maneira que temos de lutar por uma mudança."
Abraham acredita que a mudança só virá através de um esforço coletivo. "Um filme sozinho não vai criar mudanças, nem uma pessoa. Mas juntos, podemos ter esperança de fazer a diferença. O objetivo deste filme era dar a esta comunidade o reconhecimento que merece", diz. "Espero que o filme inspire algum tipo de energia ou impulso no mundo que leve a uma verdadeira pressão internacional."