"Anora" ganhou a noite. "Ainda Estou Aqui" fez história. Mas faltaram discursos assertivos. Onde está Hollywood quando o mundo está um caos?

3 mar 2025, 06:49
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Ninguém falou de Trump, poucos falaram do Médio Oriente ou da Ucrânia, o apresentador Conan O'Brien esteve apagado e sem graça. Salvou-nos a homenagem de Walter Salles a quem resiste às ditaduras e um emocionado Adrien Brody: "Se o passado nos pode ensinar alguma coisa, é que não devemos deixar o ódio passar sem controlo”

Esta foi a noite em que o cinema brasileiro disse: “Ainda estou aqui”. Fernanda Torres pode não ter ganhado o Óscar de Melhor Atriz, o que teria sido realmente incrível, mas o Brasil ganhou o seu primeiro Óscar para Melhor Filme Internacional. É um marco histórico. No seu breve discurso em inglês, no Dolby Theater, em Los Angeles, Walter Salles dedicou o Óscar a "uma mulher que, depois de uma perda sofrida durante um regime autoritário, decidiu não se vergar, mas resistir". Essa mulher é Eunice Paiva, cuja história verdadeira é contada no filme. O realizador dedicou o Óscar também às duas "mulheres extraordinárias" que lhe dão vida na tela, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro - que aparece apenas na cena final. 

Esta vitória é particularmente significativa para Walter Salles, que tinha sido o último realizador brasileiro nomeado para este prémio com “Central do Brasil”, há 26 anos. Nesse filme, Fernanda Montenegro foi a primeira atriz brasileira nomeada para um Óscar. E agora a sua filha, Fernanda Torres, foi a segunda brasileira nomeada para Melhor Atriz. 

E mais: “Ainda Estou Aqui” foi também o primeiro filme brasileiro nomeado para Melhor Filme. “Ainda Estou Aqui” foi um dos filmes mais aplaudidos quando referido por Conan O’Brien no seu monólogo inicial - era aquele filme que todos sabiam que não ia levar o prémio principal mas com quem toda a gente simpatizava. O que se deveu, em grande parte, ao enorme trabalho de promoção feito nos EUA, que é sempre um mercado difícil para as obras não faladas em inglês. Nos últimos meses, Fernanda Torres desdobrou-se em entrevistas e participou nos mais importantes talk-shows da televisão americana, espalhando a sua simpatia e conquistando o público americano com a sua simplicidade. A atriz fez sempre questão de dizer que considerava que ganhar o Óscar seria "impossível" e que estar nomeada já era uma felicidade imensa. E foi mesmo. Depois da cerimónia terminar, Fernanda publicou no seu instagram uma foto sorridente, ao lado de Walter Salles, “Ainda estamos aqui, comemorando”.

 

VEJA AQUI A LISTA DE TODOS OS PREMIADOS

A grande vitória de "Anora". E a derrota de Demi Moore

Haja alguém que se consiga impor frente aos russos, celebrou Conan O’Brien, num dos poucos comentários políticos da noite. Esse alguém é “Anora”, o filme de Sean Baker, que, surpreendentemente, foi o grande vencedor dos Óscares. Não só ganhou o prémio de Melhor Filme, como recebeu ainda mais quatro prémios muito importantes: realização, argumento original e montagem (todos para Sean Baker) e atriz, Mikey Madison - essa, sim, a maior surpresa da noite. 

Claro que Mickey Madison estava entre as favoritas e até já tinha sido galardoada nos BAFTA e nos Independent Spirit Awards. Mas, ainda assim, tudo apontava para a vitória de Demi Moore com a sua interpretação em tons gore em “A Substância”. Moore, que ganhou um Globo de Ouro, o Critic’s Choice Award e o prémio da Screen Actor’s Guild (SAG), apareceu nesta corrida a representar todas as mulheres mais velhas e esquecidas de Hollywood. Apesar de uma longa carreira, nunca tinha recebido prémios importantes e, com filmes como “Striptease” ou “GI Jane” não era muito levada a sério como atriz. Tudo levava a crer que este era o momento de virar a mesa. E foi. Demi Moore teve o seu comeback e fez belos discursos nestes últimos meses. Só lhe faltou mesmo ganhar o Óscar.

A ironia disto tudo: em vez de uma mulher que fica em pânico ao perceber que está a envelhecer, a Academia escolheu uma jovem bastante sensual, Anora, uma bailarina exótica, que masca pastilha enquanto dança no colo de homens meio ébrios que lhe deixam notas no soutien. Um dia, Anora é escolhida para entreter um jovem filho de um mafioso russo que fica encantado por ela. Decidem casar, a relação parece estar a correr bem até que o pai dele descobre e manda os seus funcionários terminarem com o casamento. O filme tem um tom de comédia, mas tem também um lado mais emocional. Anora não é só um corpo bamboleante, é também uma mulher com sentimentos, que se apaixona e acredita que tem direito a uma vida de Cinderela, como qualquer outra. Não foi por acaso que tanto o realizador Sean Baker como a atriz Mikey Madison agradeceram a todos os trabalhadores do sexo que partilharam as suas histórias e permirtiram tornar tão real Anora e o mundo em que ela se movimenta.

“Cresci em Los Angeles, mas Hollywood sempre me pareceu tão distante, por isso, estar aqui, nesta sala, hoje, é realmente incrível", disse a atriz de 25 anos ao receber o prémio.

Mickey Madison recebe o Óscar de Melhor Atriz por "Anora" (AP)

Argumentista, realizador, montador e produtor, Sean Baker tornou-se a primeira pessoa a ganhar quatro Óscares com o mesmo filme. Isto para um realizador que tem feito a sua carreira com filmes de baixo orçamento, como "Florida Project", e que colocou "Anora" nos cinemas através de uma distribuidora independente, Neon. 

Da terceira vez que subiu ao palco, para receber o Óscar de realização das mãos de Tarantino (que nunca ganhou tal distinção), Sean Baker pousou a estatueta no chão para poder ler o discurso que tinha preparado: “Ver um filme numa sala de cinema é uma experiência comunitária. Numa altura em que o mundo está tão dividido, podemos ir ao cinema chorar, rir e emocionarmo-nos juntos”, disse, deixando um apelo a todos os que trabalham nesta indústria para que continuem a fazer filmes para o grande ecrã. “Esta é a minha luta”, disse, apelando ainda aos pais para que levem os filhos ao cinema: “Os meus pais apresentaram-me ao cinema quando eu tinha cinco anos”. As palavras de Sean Baker foram muito aplaudidas mas a verdade é que ainda não foi desta que as plataformas de streaming ganharam os Óscares - muito pelo contrário.

O melhor discurso: Adrien Brody. "Se o passado nos pode ensinar alguma coisa, é que não devemos deixar o ódio passar sem controlo”

Numa cerimónia sem grande entusiasmo, onde até Conan O'Brien pareceu contido e sem graça, foram poucos os discursos que saíram da lista de agradecimentos às equipas e às famílias. Até porque, com 45 segundos apenas para falar, era preciso não esquecer ninguém importante. Só Adrien Brody, vencedor do Óscar de Melhor Ator pela sua interpretação em "O Brutalista", teve coragem de furar as regras e mandar calar a orquestra quando esta começou a tocar, assinalando o fim do tempo regulamentar. "Eu já fiz isto antes", brincou, lembrando que este é já o seu segundo Óscar, depois de ter vencido por "O Pianista" em 2003.

"A representação é uma profissão muito frágil", disse Brody, que teve de entregar a pastilha elástica à sua companheira Georgina Chapman antes de subir ao palco. "Não importa onde estejamos na nossa carreira, não importa o que tenhamos conseguido, tudo pode desaparecer. E acho que o que torna esta noite mais especial é a consciência disso. E a gratidão que tenho por ainda fazer o trabalho que adoro." Brody agradeceu aos pais por lhe darem as "fundações para o respeito, a gentileza e a força para perseguir este sonho". 

Adrien Brody agradece o Óscar de Melhor Ator por "O Brutalista" (AP)

Vencedor de três Óscares, Fotografia, Banda Sonora Original e Melhor Ator, "O Brutalista, de Brady Corbet, acabou por ser o segundo filme mais premiado da noite. Em "O Brutalista", Brody interpreta um arquiteto húngaro que sobrevive ao Holocausto e emigra para os Estados Unidos, onde se sujeita a fazer todo o tipo de trabalhos até ter uma oportunidade de voltar a usar o seu talento para criar um enorme edifício. É um filme que mostra não só o modo como a guerra afetou aqueles que a viveram na pele, mas também como os exilados continuaram a ser discriminados e mal-tratados, mesmo na "terra dos sonhos" que era a América.

“Estou aqui mais uma vez para representar os traumas persistentes e as repercussões da guerra, da opressão sistemática, do antissemitismo, do racismo e da discriminação", disse o ator na parte final do seu discurso. "Rezo por um mundo mais saudável, mais feliz e mais inclusivo, e acredito que se o passado nos pode ensinar alguma coisa, é que não devemos deixar o ódio passar sem controlo”. 

A derrota anunciada de "Emilia Pérez"

Karla Sofia Gáscon, a protagonista de "Emilia Pérez" que causou mais polémica por ter publicado há alguns anos tweets com discurso de ódio do que pelo facto de ser a primeira pessoa transgénero nomeada para um Óscar, foi praticamente ignorada. A atriz esteve sentada na plateia, mas não desfilou na passadeira vermelha e não ganhou qualquer prémio. A sua presença passou tão despercebida que se Conan O'Brien não se lhe tivesse referido nem sequer daríamos por ela: "Anora diz fuck 479 vezes. São mais três do que o recorde estabelecido pelo assessor da Karla Sofía Gascón. Karla está aqui nesta noite. Se fôr tuitar sobre os Óscares, lembre-se que o meu nome é Jimmy Kimmel", disse-lhe.

"Emilia Pérez", de Jacques Audriard, chegou à cerimónia com 13 nomeações e saiu com duas estatuetas: Zoe Saldaña ganhou o Óscar de Melhor Atriz Secundária e "El Mal" foi eleita a Melhor Canção.

Zoe subiu ao palco bastante emocionada e foi por entre lágrimas que lembrou as suas origens na República Dominicana: "A minha avó veio para este pais em 1961, sou uma orgulhosa filha de imigrantes", disse, lembrando que a família teve de trabalhar muito para conseguir chegar aqui e sublinhando a oportunidade que teve para interpretar e cantar em espanhol. 

Zoe Saldaña agradece o Óscar de Melhor Atriz Secundária (AP)

Não houve Trump nem política: Hollywood está politicamente correta

Era óbvio que as palavras de Zoe Saldaña eram um recado para o presidente norte-americano, Donald Trump, no entanto a verdade é que o seu nome não foi referido ao longo de toda a cerimónia. A noite era de festa e parece que ninguém quis tocar em assuntos incómodos. Já íamos em mais de uma hora e meia de espetáculo quando Daryl Hannah entrou em palco para apresentar o Óscar de Melhor Montagem, e chegada ao microfone lançou um "Slava Ukraini" - foi a única a lembrar a guerra na Ucrânia.

Os realizadores iranianos de "In the Shadow of Cypres", a melhor curta-metragem de animação, lembraram a situação política no seu país e dedicaram o seu Óscar a todos os que lutam pelos seis direitos. Uma das realizadoras da curta-metragem de ficção "The Only Girl in the Orchestra" fez referência ao modo como "a arte dá sentido ao caos em que vivemos". E obviamente que o israelita Yuval Abraham e o palestianiano Basel Adra, realizadores do melhor documentário, "No Other Land", falaram da guerra israelo-palestiniana. “Apelamos ao mundo para que tome medidas sérias para pôr termo à injustiça e à limpeza étnica do povo palestiniano”, afirmou Basel Adra. “Há cerca de dois meses, tornei-me pai, e espero que a minha filha não tenha de viver a mesma vida que eu estou a viver agora." 

Mas foi só isso. Nem a homenagem aos bombeiros de Los Angeles, que combateram os grandes incêndios de janeiro, foi especialmente tocante, apesar de aqueles homens e mulheres que subiram ao palco com farda de cerimónia terem recebido aquela que foi - de longe - a maior ovação da noite.

Morgan Freeman emocionou-se a lembrar o amigo Gene Hackman, falecido há poucos dias. Os momentos musicais cumpriram a sua função delicodoce. Mick Jagger surpreendeu tudo e todos com a sua presença e o seu humor para anunciar a melhor canção. E foi bom voltar a ver Billy Cristal e Meg Ryan, os atores de "When Harry Met Sally", que vieram anunciar o Melhor Filme. Em pouco mais de três horas e meia estavam entregues os Óscares, sem sobressaltos nem envelopes trocados nem bofetadas nem nada que viesse dar alguma emoçãozinha extra a esta noite. 

Feitas as contas, "Anora" ganhou cinco Óscares (Argumento original, Montagem, Realização, Atriz e Melhor Filme) e "O Brutalista" levou três estatuetas para casa (Fotografia, Banda Sonora e Ator).

Com dois Óscares ficaram "Wicked" (guarda-roupa e design de produção), "Emilia Pérez" (Atriz secundária e Canção), e "Dune II (Som e efeitos visuais).

Finalmente, "Conclave" (Argumento adaptado), "Substância" (Caracterização) e "Uma Verdadeira Dor (Ator Secundário) ganharam um Óscar.

"A Complete Unknown" e "Nickel Boys" não ganharam qualquer prémio.

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