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Organismos Graciosamente Modificados

16 mai, 16:52

Atualmente, 99% da produção global de insulina é feita através de bactérias geneticamente modificadas. No passado, seria necessário abater milhares de suínos para extrair alguns gramas da hormona dos seus pâncreas. Hoje, graças à alteração genética da bactéria E. Coli, esta produz a hormona em ambientes higiénicos, bem monitorizados, e em ampla quantidade. É graças a este avanço que a insulina é acessível à carteira de todos e que simultaneamente evita grandes quantidades de abate animal para salvar vidas humanas. A bactéria é um Organismo Geneticamente Modificado (OGM, ou GMO, Genetic Modified Organism em inglês).

Imagine-se então ser-se diabético e anti-organismos geneticamente modificados. Ou defensor de direitos animais e anti-GMO.

No seu mais recente livro intitulado “A lotaria genética”, a geneticista comportamental Kathryn Paige Harden lança a discussão. Há que ter em conta a variação genética entre humanos para ambicionamos uma sociedade mais justa. Não se deve pensar em termos de “superioridade genética”, mas sim em termos de “sorte genética”. É uma discussão válida e ainda na sua infância. O que é certo é que em termos de lotaria, alguns de nós nascem com menos sorte do que outros.

O progresso surge, precisamente, como maneira de repor aquilo que muitos de nós vemos como injustiça. E as notícias são reconfortantes. Vejamos três casos recentes. Uma estudante norte-americana com um tipo de cegueira hereditário conseguiu recuperar parte da sua visão após terapia genética. Utilizando CRISPR, uma ferramenta de edição genética que valeu o prémio Nobel da Química de 2020 às suas duas inventoras, a estudante recuperou parte da sua visão. Noutra história, um rapaz Italiano com 11 anos, com uma forma de surdez congénita rara, ouviu pela primeira vez. Cientistas conseguiram trocar um gene defeituoso por um funcional, eliminando assim um resultado azarado da lotaria genética. Finalmente, uma criança britânica também recuperou a sua audição quase totalmente graças a uma intervenção que durou apenas 16 minutos. Também graças a uma forma de terapia genética.

O impacto positivo na sociedade que estas técnicas podem vir a ter é imenso. Mas estas histórias levantam outra questão. Se conseguimos recuperar visão e audição em tratamentos médicos, porque algo simples como alterar genes em plantas é visto como perigoso por muitos? Em Abril, a Greenpeace conseguiu pressionar o tribunal de apelos das Filipinas para interditar o cultivo de arroz dourado. O arroz dourado é uma variedade de arroz geneticamente modificado enriquecido com um precursor da vitamina A, que visa abordar a deficiência desta vitamina em populações que dependem do arroz como alimento fundamental. De outra forma, estas populações não teriam acesso fácil à vitamina. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a deficiência de vitamina A causa 250.000 a 500.000 casos de cegueira facilmente evitável em crianças todos os anos. Ao fim de mais de 20 anos de testes, não há registos de qualquer efeito adverso para a saúde ou para o meio ambiente decorrente da utilização deste alimento.

Nos Estados Unidos, segundo a Food and Drug Administration, em 2020 a soja geneticamente modificada representou 94% de toda a soja plantada, o algodão OGM representou 96% de todo o algodão plantado e 92% do milho plantado foi milho OGM. Em 2013, a canola OGM representou 95% da canola plantada, enquanto a beterraba sacarina OGM representou 99,9% de toda a beterraba sacarina colhida. Sem um único caso identificado de efeitos adversos para a saúde. Algumas variedades de berinjela geneticamente modificada, um alimento considerado fundamental em algumas zonas do globo, ajudam inclusive a reduzir o uso de pesticidas. Adicionalmente, são capazes de mais produção, permitindo a pequenos produtores ter uma fonte de receitas adicional. Já a China tem planos para acelerar os testes e a certificação de alimentos geneticamente modificados, numa diretiva para aumentar a sua segurança alimentar. 

A Europa, mais uma vez, deixa-se ultrapassar, tendo discussões que já deveriam ter sido concluídas há várias décadas. As eleições Europeias estão à porta. Urge eleger quem defenda a ciência.

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