Orcas em mar português, naufrágio em Sines: caso isolado ou nem por isso? Nem por isso (mas nada de pânicos)

3 ago, 12:53
Orcas

O atum e os telemóveis explicam parte do fenómeno em curso

Um encontro com orcas em Sines, na madrugada do passado domingo, resultou no naufrágio de um veleiro e suscitou um aceso debate sobre a natureza das interações entre orcas e humanos. Afinal, como explicar este fenómeno? Os investigadores apontam várias explicações possíveis: as redes sociais, o crescimento da população de algumas espécies de atum e a curiosidade natural dos cetáceos mais jovens. 

Os dados recolhidos pelo Grupo de Trabalho Orca Atlântica comprovam uma tendência crescente de interações entre orcas e embarcações em águas ibéricas. Em 2020, o saldo é de 51 interações; em 2021, este número mais do que triplicou para 185. O relatório ressalva que nem todas estas interações foram tão perigosas como a de Sines, "sendo em alguns casos meros contatos com navios que não causaram danos".

Embora existam "registos de outros casos de interações noutras partes do mundo", trata-se de casos esporádicos e geralmente causados por animais isolados. Na Península Ibérica, este fenómeno comportamental parece ser específico a uma subpopulação "muito pequena" e "ameaçada" destes mamíferos: as Orcas do Estreito de Gibraltar e Golfo de Cádiz, que percorrem o Mediterrâneo em perseguição da sua principal fonte de alimentação - o atum.

Os investigadores Sofia Silva e Alfredo Rodrigues, coordenadores científicos da organização Sea Shepherd Portugal, reconhecem o ano de 2019 como um ponto de viragem na frequência destes eventos, até então raramente comunicados. “Não é um padrão normal de todo”, frisam, indicando uma possível explicação para o fenómeno. “Cada vez mais temos telemóveis, redes sociais, tudo facilmente à mão, o que faz com que exista uma disseminação da informação muito maior do que havia antigamente.” E, debruçando-se especificamente sobre o incidente de Sines, “se algo assim aconteceu há 150 anos ninguém tinha uma rede social à mão para poder comentar”.

A análise do grupo Orca Atlântica parece sustentar esta hipótese, ao explicitar as dificuldades na recolha de relatos e ao relevar o papel da tecnologia neste contexto. Alguns dos casos registados foram comunicados pelas autoridades marítimas ou pelos próprios tripulantes dos navios, mas noutras instâncias a fonte de informação partiu de órgãos de comunicação social ou de redes sociais.

A partilha destes casos na Internet e o crescente interesse e mediatismo do tema são as hipóteses mais apontadas pelos investigadores - mas não as únicas. Várias espécies de atum, até há poucos anos ameaçadas de extinção, conseguiram uma recuperação surpreendente no seguimento de esforços internacionais contra a pesca predatória, incluindo no Oceano Atlântico e no Mar Mediterrâneo. A recuperação desta espécie pode repercutir-se, também, num aumento da população de predadores como as orcas.

O que fazer se abordado por orcas? Seguir o protocolo e manter-se calmo. É só curiosidade (em princípio)

Apesar de comummente apelidadas "baleias assassinas", as orcas não matam (nem comem) seres humanos. Na verdade, e apesar do seu grande porte, estes cetáceos nem sequer são baleias - são “golfinhos como os restantes”. 

Num comunicado divulgado após o encontro de domingo, a Marinha Portuguesa cita que “a interação com estes mamíferos ocorre sobretudo devido ao comportamento curioso de orcas juvenis". A Sea Shepherd Portugal concorda que “comportamentos agressivos mais facilmente podem partir de adultos do que de juvenis”, o grupo mais atraído pelas embarcações. 

Mas até as orcas juvenis são corpulentas o suficiente para danificar ou derrubar uma pequena embarcação, provocando danos mais sérios do que os geralmente registados. "Se quisessem ser agressivas, veríamos batidas com a barbatana caudal nas embarcações ou investidas de baixo para cima, como vemos por exemplo com o que fazem com icebergs ou plataformas similares", explica a organização, destacando que em contactos com embarcações as orcas parecem preferir pancadas laterais pela popa aos lemes. "Se elas realmente quisessem virar uma pequena embarcação, com o peso, dimensão e força que possuem, convenhamos... seria muito fácil."

Os golfinhos são conhecidos (e acarinhados) pela inteligência e curiosidade. As orcas, golfinhos de grande porte, não são exceção. "Velocidades, ruídos e partes móveis debaixo de água despertam interesse nestes animais", que iniciam uma perseguição “entusiasmada” com aparentes fins lúdicos. “Sendo atraídos pela velocidade e sons, o entusiasmo diminui muito se tudo isso for retirado.”

Importa aqui relembrar as instruções divulgadas pela Autoridade Marítima Nacional e o Instituto da Conservação da Natureza das Florestas (ICNF): “Em caso de avistamento destes mamíferos recomenda-se a todos os navegantes que seja desligado o motor, por forma a inibir a rotação da hélice, e que se imobilize a porta do leme, desmotivando assim estes mamíferos a interagir com as estruturas móveis das embarcações".

No contacto com orcas, a opção mais sensata é seguir os protocolos. Fonte da Associação de Armadores e Pescadores de Cascais garante à CNN Portugal que a Direção-Geral de Pescas e Aquicultura “emana todos os anos diretrizes com normas fixas sobre procedimentos a adotar” na eventualidade de avistamentos de animais de grande porte. Esta informação é depois divulgada pelos associados e pescadores, nomeadamente através da afixação do protocolo em locais visíveis e de frequente acesso como “capitanias dos portos, locais de carga e descarga do pescado e cacifos de pescadores”.

A Associação destaca que, no que respeita aos pescadores, as situações de acidente raramente ocorrem por falta de informação. A ação individual tem aqui um peso decisivo: “muitas vezes a curiosidade dos pescadores” pode coagi-los a aproximar-se ou a não aplicar de imediato as instruções sugeridas, facilitando “esses incidentes que ocorrem”.

“É pensarmos no caso dos cães”, exemplifica a Sea Shepherd Portugal. “Se começarmos a correr à frente de um que esteja a ladrar, muito provavelmente virá a correr atrás de nós a seguir, mas se estivermos quietos no mesmo local, até pode ladrar - mas a reação muda.”

Já para navegantes menos experientes, a falta de informação pode ser um fator decisivo. O protocolo de segurança está disponível online e a sua consulta é aconselhada a qualquer tripulante de qualquer tipo de embarcação. Não obstante, o grupo Orca Atlântica deixa o alerta: "Não existem protocolos à prova de idiotas". 

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