Há quem diga - incluindo o autor Mario Draghi - que 1,2 biliões são suficientes, outros dizem que é demasiado e há quem ainda diga que não chega
Ursula von der Leyen vai apresentar o próximo Orçamento Comunitário esta quarta-feira. O plano contempla um total de 1,2 biliões de euros, cerca de 1% do PIB da União Europeia.
O Quadro Financeiro Plurianual (MFF, sigla em inglês), como é conhecido o gigante dos planos de gastos de longo prazo, deverá ser aplicado entre 2028 e 20234. Von der Leyen reservou dois anos para negociações sobre o conteúdo do projeto, o que faz antever que a presidente da Comissão Europeia quer antecipar um caminho negocial conturbado até que sejam encontrados consensos entre os 27 governos nacionais dos Estados-membros, que têm de aprovar o documento em unanimidade.
O plano financeiro foi idealizado pelo antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE) e ex-primeiro-ministro de Itália. Mario Draghi já tinha passado o comando do executivo italiano a Georgia Meloni quando Ursula von der Leyen o abordou, em setembro de 2023, para que realizasse uma última tarefa para Bruxelas: encontrar forma de tornar a Europa novamente competitiva.
"Tive de pensar durante alguns dias antes de realmente dizer que sim", relembrou Draghi, citado pelo Politico, durante a publicação do relatório final para a revitalização da economia da União Europeia.
Draghi confessou que o pedido de von der Leyen parecia uma “tarefa assustadora e difícil” e facilmente se percebe o que levou o ex-presidente do BCE a este tipo de pensamentos. É que os riscos deste MFF dificilmente poderiam ser maiores.
Isto porque o novo Orçamento Comunitário terá de lidar com vários desafios sem precedentes como a guerra comercial com os EUA de Donald Trump, a guerra real com a Rússia de Vladimir Putin, a intensificação de concorrência da China de Xi Jinping, os conflitos no Médio Oriente, a crise climática, a imigração e a ascensão da extrema-direita no velho continente.
Perante um cenário que ainda pode piorar a qualquer momento, Draghi tinha somente uma certeza: “Chegámos ao ponto em que, sem ação, teremos de comprometer o nosso bem-estar,o nosso meio ambiente ou a nossa liberdade”.
Contudo, o orçamento da União Europeia vai contar com cerca de 1,2 biliões de euros, o que representa apenas 1% do PIB total da UE. Em termos comparativos, a Alemanha alocou 48% do seu PIB interno no orçamento deste ano, enquanto França gasta 57%. Perante isto, Draghi e vários especialistas europeus argumentam que o investimento do sector público do bloco é lamentavelmente inadequado para responder aos desafios que o continente enfrenta.
O Politico escreve que agora a questão volta a ser a mesma: quão maior terá de ser a bazuca orçamental de Bruxelas desta vez? E a resposta é tudo menos unânime.
Enquanto uns Estados-membros querem um aumento de 0%, outros querem que Bruxelas duplique o Orçamento Comunitário.
“Este é o intervalo, de 0% a 2%, e a minha avaliação seria que, aumentando-o em menos de metade, já seria possível alcançar muito do que faz sentido fazer no âmbito da União Europeia”, explica Jan Stráský, economista sénior da OCDE ao Politico. “Talvez 20 ou 30%” - o que elevaria o orçamento total para cerca de 1,3% do PIB - “se bem gasto, poderia ser uma grande melhoria”.
O plano financeiro europeu terá dois pilares centrais: a Defesa e tornar o mercado de eletricidade mais integrado, o que reduziria os custos de energia e ajudaria a estimular o crescimento.
“Também não se trata de procurar a solução perfeita, mas sim de colher os benefícios de primeira ordem como os frutos mais fáceis de colher”, justifica Stráský.
