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Comentador da CNN Portugal. Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Diretor do European Observatory on Illiberalism and Culture Wars. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, na polarização e nos impactos nos direitos fundamentais. Analisa, ainda, questões de geopolítica contemporânea

Grande Hotel Budapeste: a noite em que perderam Orbán, Putin e Trump

13 abr, 16:04
Trump, Putin e Orbán (Getty)

A noite de Budapeste e de outras cidades e vilas da Hungria pintou-se de alegria; Orbán foi derrotado. Esta não era uma mera eleição, era um teste claro à resistência da democracia iliberal, com a sua captura das instituições, a viciação das regras eleitorais, o controlo da imprensa, a programação cultural para o controlo da “alma nacional” e a violação de direitos fundamentais, de que Viktor Orbán foi rosto e mestre. 

E a noite trouxe esperança, confirmando a tese de Cas Mudde de que o populismo de direita radical é uma patologia normalizada, um desvio à democracia liberal, o que não significa, entenda-se, uma inevitabilidade histórica, como o “ar dos tempos” nos parecia apontar. 

A lição para esta direita iliberal é que o iliberalismo que floresce à sombra do ressentimento económico e se articula com valores etnonacionalistas não basta, por si só, para se eternizar como cimento ideológico, se não for acompanhado de políticas concretas de resposta social e económica.

Nesse sentido, além de Orbán, foram derrotados Vladimir Putin e Donald Trump, ambos determinados a destruir um projeto europeu a partir de dentro. Tendo em Orbán o seu “cavalo de Tróia”, Putin e Trump partilham e disputam o mesmo ideal para a Europa – um espaço de influência política, uma sombra colonizada por valores nacionalistas e isolacionistas, que tornem os países desconfiados entre si e, assim, mais frágeis e suscetíveis de se tornarem aquilo que Mark Rutte já é: um serviçal de Trump, a quem chegou a chamar “Daddy”.

A sua derrota é uma vitória e uma manhã limpa para o projeto europeu, assente na força conjunta dos valores da democracia, da liberdade e do Estado social. Numa nova ordem geopolítica do caos e das grandes potências imperiais, a Europa tem espaço para manter o seu orgulho e a certeza de estar do lado certo da história. 

No entanto, depois da euforia e dos copos vazios, a pergunta que se impõe é: irá a Hungria ser capaz de transitar de novo para a democracia liberal? Péter Magyar, antigo membro do governo de Orbán, recebeu o máximo endorsement popular, ao conseguir a supermaioria de dois terços que lhe permite rever a Constituição e ultrapassar as cardinal laws que Orbán usou para construir uma arquitetura iliberal de controlo do Estado e da opinião pública. 

A essa supermaioria Magyar tem respondido com palavras de vontade de trazer o liberalismo político de volta ao país. Para tal, precisa de conseguir um conjunto de resultados:

  1. Aproximar-se da União Europeia e participar ativamente da construção do Estado social europeu e da arquitetura de defesa conjunta.

  2. Afastar-se de Vladimir Putin e da sua tentativa de mudança cultural em todo o leste europeu.

  3. Responder aos problemas graves das populações rurais húngaras, que se sentem economicamente frágeis e socialmente abandonadas.

  4. Retomar a normalidade do Estado de direito.

  5. Atacar a corrupção endémica, sobretudo no plano local.

  6. Desorbanizar as estruturas de viciação e doutrinação social e cultural.

 O facto de Magyar ser um conservador pode tanto ser um problema – caso não tenha a coragem de se afastar das traves-mestras do iliberalismo de Orbán – quanto uma potencialidade, ao representar uma rutura suave, centrista e com consciência nacional ampla, num país em que coabitam fragilidades sociais e económicas com um elevado sentido de orgulho nacional, em que o cosmopolitanismo de Budapeste está paredes-meias com um mundo rural mais preso no tempo. 

A questão, agora, já não é saber se Orbán caiu. Caiu. A questão é outra: se com ele cai também o regime que construiu. 

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