Diogo Costa

27 out 2022, 18:05
Diogo Costa

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

A evolução do futebol deu à luz um espécime ainda incapaz de gerar consenso entre os velhos do Restelo: o guarda-redes completo. Este fenómeno lembra-me mais a minha avó Carolina do que o cheiro a arroz-doce dos restaurantes, naturalmente por não existir aroma que se equipare ao por ela confeccionado.

Lembra-me pela relutância face à modernidade. Um telemóvel sem teclas, com algum custo, lá se vai aceitando. Agora, um telemóvel sem teclas que nos mostra a prima Xana que vive na Suíça há 12 anos? A minha avó sorri, peço-lhe para fazer adeus com a mão e ela faz, mas não há vez em que eu não fique com a sensação de que ela acha que está a ser enganada.

Primeiro, porque tem dúvidas de que seja real. Segundo, porque, caso seja, pode ser uma coisa um bocadinho perigosa. No fundo, tudo o que os velhos do Restelo sentem acerca dos guarda-redes completos. Passámos por isto durante a transformação do vulgo ‘trinco’ em médio-defensivo.

Na antiguidade, olhava-se para uma equipa de futebol como se olhava para uma orquestra. Essa analogia era, aliás, muito usual, daí ter nascido o termo “carregador de pianos” para os jogadores a quem a bola só interessava quando estava nos pés do adversário. Dizia-se que cada um estava apto para tocar somente o seu instrumento, ou seja, aos defesas-centrais não se pedia mais do que a defesa daquela zona recuada do terreno, assim como não se imaginava que o avançado baixasse no campo. Cada um no seu poleiro para não se encavalitarem e a música não sair torcida. Bom, mas isso era na antiguidade. Hoje em dia já não se tropeça nesses discursos. Falo por mim. Vocês ainda tropeçam?

A verdade é que o guarda-redes completo está para os velhos do Restelo como o telemóvel sem teclas que nos mostra a prima Xana que vive na Suíça há 12 anos está para a minha avó. Tendencialmente, eles preferem o Vlachodimos.

Diogo Costa traz a cura para o arcaísmo. Inserido num colectivo onde os habituais titulares da linha-defensiva pouco acrescentam com bola em ataque organizado e perante a pressão do adversário, tornou-se o principal desequilibrador através do passe curto ou do passe longo.

Se a equipa do FC Porto subiu o nível – desde a época passada – nesse momento do jogo, deve-o, também, ao seu guarda-redes, que não raras vezes é o primeiro a saber identificar o espaço certo para dar seguimento à circulação. Para tal, de mãos dadas à qualidade técnica, tem de andar sempre a inteligência táctica, combinação ideal na missão de gerar vantagens aos companheiros, de lhes proporcionar melhores condições para chegar à baliza contrária.

Esses apontamentos denotam entreajuda, uma vez que o jogador solidário não é somente aquele que se mostra abnegado no processo defensivo, mas também o que se preocupa em oferecer a bola jogável.

É certo que Diogo Costa jamais seria completo se denotasse evidentes deficiências no controlo da profundidade, no controlo dos cruzamentos, no controlo entre os postes. O que, por vezes, escapa aos velhos do Restelo é que, em 2022, não há guarda-redes que se possa denominar completo sem que possua a característica sobre a qual discorri no parágrafo anterior.

Ser-se bom com bola é obrigatório para te sentares à mesa com os melhores do mundo e o que vou explicar à minha avó quando ela ler este texto é que nenhum adolescente entra numa loja de telemóveis para comprar um que não faça vídeo-chamadas.

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