A opinião do jornalista Nuno Chaves
Este dia ia chegar mais cedo ou mais tarde. Até era o cenário mais provável mas ouvir Rafael Nadal dizer que se vai retirar é um murro no estômago para qualquer amante de ténis. É como se a modalidade perdesse alguma da sua essência, tal como aconteceu com o adeus de Roger Federer, há dois anos.
Falar de Nadal é falar de resiliência, luta, garra, determinação e humildade. Vou ser sincero. Cresci a ver ténis, sempre apoiei Federer, custou-me muito ver algumas derrotas do suíço contra o espanhol, deu-me muitas vezes ‘azia’ mas a verdade é que com o passar dos anos passei também a idolatrar ‘El Toro’, precisamente, por tudo aquilo que foi oferecendo à modalidade ao longo dos anos. E hoje agradeço todas essas ‘azias’ que me provocou durante a minha adolescência.
Foram 92 títulos. 92. Entre eles estão 22 Grand Slams, 2 medalhas de ouro olímpicas, 36 Masters 1000 ou 4 Taças Davis. Tudo isto de alguém que sempre foi muito fostigado por lesões, devido à intensidade constante e à exigência física que implementava em cada encontro.
Mas há aqui o outro lado. Por muito que custe este adeus de Nadal, a verdade é que foi a melhor decisão. O nível do espanhol já estava longe de ser o necessário para competir de forma regular ao mais alto nível e um jogador como Nadal não merecia nem quereria estar a competir só por competir. A derrota com Novak Djokovic nos Jogos Olímpicos ou até a derrota com Nuno Borges na final do ATP 250 de Bastad foram exemplos claros. Foi, felizmente, uma imagem que as pessoas não vão recordar, é um dos casos em que se pode dizer que a última imagem não é a que fica. Já agora, Nuno Borges tem razões para estar feliz, já que foi ele o adversário no último encontro de Nadal no circuito ATP.
Tive a felicidade de ver Nadal jogar algumas vezes, ambas em 2019. Roland Garros e Taça Davis. No caso da Taça Davis, que aconteceu em Madrid, estive lá como jornalista e pude ver como lidava com a imprensa, como agia nas conferências de imprensa. Um senhor, com uma educação extrema e com uma classe termenda a responder a qualquer pergunta, fosse incómoda ou menos incómoda. Foi daquelas experiências que irei guardar para a minha vida.
Este adeus marca a saída de dois dos três melhores de todos os tempos. Só falta Novak Djokovic. É certo que não há insubstituíveis mas olhando para estes nomes, será, certamente, muito complicado para a nova geração seguir sem fazer esquecer o Big Three, principalmente para aqueles que, como eu, assistiram à era mais grandiosa da história do ténis. Não é só o talento, é também o carisma.
Felizmente teremos uma ‘Last Dance’ de Nadal. Tal como aconteceu com Federer. Mas aqui há uma diferença: esse despedida vai acontecer em competição, na Taça Davis, em Espanha. E que bom seria o adeus de Nadal ser com aquilo que fez durante toda a sua carreira: ganhar títulos.
Obrigado por tudo, Rafa. Cumpriste com a tua parte, agora resta-nos desfrutar dos últimos momentos contigo dentro de um court de ténis e como tenista profissional.
Porque os que parecem imortais, afinal, também são humanos…
