Sem Odysseas

16 jun 2023, 00:16
Vlachodimos (Benfica) (AP Photo/Armando Franca)

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

Odysseas Vlachodimos prepara-se para assumir a titularidade da equipa do Benfica pela sexta época consecutiva, uma marca que levanta mais dúvidas sobre a gestão do clube quanto àquela posição do que esbate certezas quanto à fiabilidade do guarda-redes grego.

Aos 29 anos, não se espera que Vlachodimos multiplique os pontos-fortes e apure os fracos, transformando-se num André Gomes com experiência, mas, ao que parece, o clube foi-se arrastando no conforto de ter alguém entre os postes que «não comete erros grosseiros», enquanto caía no ridículo de impedir o salto colectivo que a equipa alcançaria com outro guarda-redes na baliza. É a chamada auto-sabotagem, que faz lembrar o esforço de um puto que prometeu aguentar o xixi sem tirar o rabo do sofá até terminar Rabo de Peixe e acabou o último episódio com as cuecas mijadas. É assim ser-se campeão com Odysseas Vlachodimos.

Se, na Liga Portuguesa, a diferença entre ‘os três grandes’ e os outros - sem ignorar a boa temporada do SC Braga - não fosse tão acentuada, acredito que a qualidade do guarda-redes do Benfica estaria sob mais criteriosa avaliação. Por outro lado, não deixa de ser curioso que aqueles que se atropelam para dizer que «as lacunas defensivas de Grimaldo só sobreviveram ao Campeonato Português», tenham perdido a bomba da asma antes de referirem que as lacunas de Vlachodimos a jogar com os pés só sobrevivem num Campeonato em que não há mais do que duas equipas a exercer pressão alta contínua quando o adversário é o Benfica.

É a chamada falta de rigor, facilmente desculpável caso se apresente na presença de uma frase que resiste à velhice, mas não ao absurdo: «os guarda-redes não estão lá para jogar com os pés». As pessoas que desprezam a evolução do jogo fazem-me sempre lembrar a minha avó. Já falei disto noutra ocasião. Quando a ponho a falar com a minha tia por vídeo-chamada, não há vez em que, antes de desligar, não me pergunte: «Ela está a ver-me?». E só depois é que acena à minha tia, como se nos minutos anteriores não acreditasse que estava a ser filmada.

Em 2022/23, o pior período exibicional do Benfica de Roger Schmidt coincidiu com a recepção ao FC Porto e com os quartos-de-final da Liga dos Campeões, frente ao Inter de Milão, sendo que, ao longo dos três jogos, perante adversários trabalhados para roubar a bola ao Benfica em zonas altas, Vlachodimos nunca foi solução em zona de construcção, nem através de um posicionamento que pudesse oferecer linhas de passe aos colegas de equipa e criar dúvidas à pressão contrária, nem dando continuidade às jogadas através do passe.

A verdade é que foram raras as vezes em que o Benfica se mostrou capaz de ligar o seu jogo desde trás, batendo a pressão, raras as vezes em que a bola chegou jogável a zonas de criação, raras as vezes em que, ao longo dos três jogos, Gonçalo Ramos, Rafa, João Mário ou Aursnes receberam em condições favoráveis. Não estou a insinuar que Vlachodimos é o grande culpado de todos os males; estou a dizer-vos que, nesses contextos, Vlachodimos é mais um problema do que uma solução.

Mesmo dentro do barómetro da sua melhor característica, que é a defesa entre os postes, continua a denotar imprecisões no acompanhamento dos lances, no que ao posicionamento diz respeito, a deixar a bola à mercê dos adversários na sequência de abordagens incompletas, a tremer quando se exige que dê dois passos à frente, a não dar garantias no controlo aéreo da sua área. Fora dos postes, Albano Jerónimo chamar-lhe-ia quarta-feira, tantos são os exemplos em que ficou a meio no controlo da profundidade, calculando mal as saídas. Geralmente, até opta por se amarrar à linha de baliza. Tudo isto num contexto favorável, ao qual se veio juntar um modelo favorável, muitas vezes eficaz na recuperação da posse no meio-campo ofensivo.

Com a saída de Grimaldo, a prioridade do Benfica é a de arranjar um substituto para a lateral-esquerda. Depois, é urgente um guarda-redes, porque uma coisa é seres campeão mesmo com as cuecas mijadas, outra é ficares com a sensação de que não foste, porque tiveste preguiça de te levantar para ires à casa-de-banho, antes de começares a ver Rabo de Peixe.

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