Visão Global - a opinião de André Pipa
FC Porto campeão. Justo. Foi a melhor equipa, o coletivo mais forte e determinado. Liderou o campeonato (quase) do princípio ao fim. Sobreviveu à perda, por lesão, dos dois melhores avançados. Fez uma gestão inteligente do plantel na fase crucial da época e focou-se em absoluto na conquista do campeonato, olhando de soslaio para a Liga Europa. No final, impediu o Sporting bicampeão de chegar a um «tri» que, assim que se percebeu a qualidade de Luis Suárez (o substituto de Gyokeres), parecia mais ou menos inevitável.
Não aconteceu e esse mérito é inteiro do FC Porto.
O italiano Francesco Farioli chegou com o peso da dúvida de uma liga neerlandesa absurdamente perdida no «photo finish», mas com a confiança absoluta de Villas-Boas – a mesma que o presidente publicamente expressara na capacidade do argentino Martín Anselmi, uma aposta que valeu ao clube, além de um campeonato medíocre, uma derrota humilhante com o modesto Inter de Miami e uma saída pela porta dos fundos no Mundial de Clubes. A primeira época da inteira responsabilidade de André Villas-Boas foi, para todos os efeitos, um fiasco embaraçoso.
Um ano e mais de 100 milhões de euros em contratações certeiras depois (Froholdt, Bednarek, Kiwior, Pietuzewski e Fofana acima de todos), Villas-Boas corrigiu a partida em falso e o seu FC Porto terminou novamente no lugar a que os seus adeptos mais se habituaram nos últimos 35 anos: o primeiro. O título acontece com normalidade, mais devido à espantosa primeira volta (16 vitórias e um empate em 17 jornadas) do que à reta final, onde o FC Porto, menos seguro e mais nervoso, titubeou mais do que se esperava – embora essa quebra não fosse propriamente novidade na carreira de Farioli. O título é justo, repete-se, embora o futebol desta equipa portista, nestes últimos meses, tenha ficado, em termos estéticos e exibicionais, longe da qualidade exibida por outras equipas portistas campeãs – lembro a do último campeonato de Sérgio Conceição (2022); a máquina arrasadora de Villas-Boas, campeã sem derrotas com 21 pontos de avanço (2011); as equipas cintilantes de Mourinho (2003 e 2004), de Bobby Robson (1995 e 1996), de Tomislav Ivic (1988), de Artur Jorge (1985 e 1986), de José Maria Pedroto (1978 e 1979)…
FC Porto campeão. Este é um dos sound-bytes mais recorrentes na minha carreira jornalística. Comecei a escrever sobre futebol nos inícios de 1987 e, poucos meses depois, o FC Porto de Artur Jorge e Pinto da Costa ganhou a Taça dos Campeões Europeus em Viena. O Benfica nessa altura ainda era a potência dominante, mas essa vitória histórica espoletada pelo calcanhar de Madjer foi um aviso muito claro sobre o que vinha aí. O FC Porto não estava disposto a continuar ser o parceiro menor de uma trindade cujo poder estava firmemente ancorado em Lisboa. O FC Porto desse tempo era a tal equipa que começava a tremer assim que deixava a ponte D. Luís.
Passei a infância e a adolescência a ver o Benfica ganhar séries de três campeonatos seguidos, matematicamente interrompidas pelo Sporting em ano de Campeonato do Mundo – foi assim em 1966, em 1970, e 1974. Em 1978 a tradição continuou a ser cumprida, mas dessa vez foi o FC Porto (de José Maria Pedroto), que não era campeão nacional há 19 anos, a negar o tetra aos encarnados.
Desde então, basicamente o FC Porto não parou de ganhar. Tornou-se a potência dominante na década de 90 do século passado e tem reforçado esse estatuto no séc. XXI. Um ou outro período de insucesso (geralmente não muito prolongado) não chega para contrariar a factualidade que tanto incomoda os adeptos lisboetas. Que é esta: o FC Porto nas últimas três décadas tem ganho muito mais títulos que o Benfica e muitíssimo mais títulos que o Sporting.
Veja-se. Quando Pinto da Costa se tornou presidente do FC Porto, em abril de 1982, o FC Porto tinha seis campeonatos e um total de 16 títulos no futebol, contra 15 campeonatos e 32 titulos do Sporting, e 24 campeonatos e 47 títulos do Benfica. Uma diferença brutal, aparentemente irrecuperável.
Hoje o FC Porto tem 87 títulos no futebol, tantos como o Benfica e mais 30 que o Sporting.
Se o Benfica foi, destacado, o clube mais titulado no séc. XX, o FC Porto é a referência indiscutível do séc. XXI: lidera folgadamente com 41 títulos, contra 26 do Benfica e 21 do Sporting, marcando forte superioridade nas competições mais relevantes. Na realidade, desde a viragem do milénio o FC Porto tem mais campeonatos (13) do que o Benfica (8) e o Sporting (4) juntos; e tem mais Taças de Portugal (10) que o Sporting (6) e o Benfica (3) juntos. Sem esquecer, claro, as conquistas internacionais (4 das sete ocorreram nos últimos 23 anos). O FC Porto é, aliás, a única equipa que ganhou taças europeias sem Portugal ter o prof. Oliveira Salazar como presidente do Conselho de Ministros.
Por tudo isto, nenhuma novidade na notícia do FC Porto novamente campeão.
Apenas um regresso à normalidade.
