Visão Global - a opinião de André Pipa
Transparecia em certos olhares dele a dureza de uma lei não escrita que a todos convinha obedecer. Por vezes, um olhar bastava a Jorge Costa para fazer valer o estatuto de capitão e primeiro defensor da causa portista em campo.
Um líder icónico, foi o que ele foi.
O Maniche e o Abel Xavier (ambos consternados com a perda do amigo) deram na CNN exemplos do que era Jorge Costa como capitão do FC Porto e como companheiro de Selecção. Confesso: tocou-me ouvi-los falar do ‘Bicho’ que conheci apenas e só como jornalista - comecei a carreira profissional mais ao menos ao mesmo tempo em que ele debutava como profissional.
O que mais me impressionou em Jorge Costa foi a diferença entre aquilo que ele era em campo – uma fera, um gladiador que anunciava ao que ia no próprio túnel de acesso ao relvado, com o ruído intimidante dos pitons a martelar o cimento; e a imagem que projectava fora dele – a de um tipo calmo, gentil, reservado, de poucas palavras. Relembro a voz dele: suave, doce, por vezes quase um murmúrio… e penso no contraste brutal desse ‘sussurro’ com a memória do animal de competição que em campo marcava de forma impiedosa todos aqueles que se atreviam a pisar o seu território.
Um líder icónico, bigger than life, cromo certo na caderneta dos imortais azuis-e-brancos. A personificação da identidade portista, o exemplo consumado do jogador ‘à Porto’. Garra. Brio. Competitividade. Espírito de luta. Aversão compulsiva à derrota.
A morte de um grande jogador cuja carreira acompanhámos desde o inicio obriga-nos a percorrer muito do caminho percorrido em conjunto. Tenho boa memória, não preciso de fazer grande esforço para recuperar episódios marcantes. Como posso esquecer que Jorge Costa foi um dos heróis da alcunhada Geração de Ouro que ganhou nos ‘penalties’ ao Brasil (ele marcou um) a final do Mundial de sub-20 em 1991, em Lisboa, com o estádio da Luz a rebentar por todos os lados com uma enchente de 127 mil espectadores.
Como posso esquecer que Jorge Costa era um dos pesos pesados daquela tremenda equipa portista que ganhou (com Bobby Robson, António Oliveira e Fernando Santos) o primeiro e único pentacampeonato (1995, 1996, 1997, 1988 e 1999) da história do futebol português. Central marcante que todos temiam e, lá no fundo, ansiavam ter do seu lado…
Como posso esquecer que Jorge Costa era o capitão daquela fabulosa equipa portista construída por Mourinho que, against all odds, conquistou, no espaço de dois anos (2003 e 2004), em plena era do futebol-indústria e dos potentados, dois títulos europeus e um título mundial - a Taça Uefa, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental.
Capitão Vitória, foi o que ele foi. Taça na mão em Sevilha. Taça na mão em Gelsenkirchen. Taça na mão em Yokohama.
A simples evocação do imenso currículo de Jorge Costa ao serviço do FC Porto (além dos títulos internacionais, ganhou oito campeonatos e cinco Taças de Portugal) lembra-nos o que muitas vezes a hegemonia mediático-noticiosa do Benfica e a recente dominância do Sporting fazem esquecer: que o FC Porto é a grande potência futebolística nacional do séc. XXI e a única com conquistas internacionais – sempre as mais difíceis. Jorge Costa contribuiu muito para isso sem nunca se por em bicos de pés.
É da mais elementar justiça que a nação portista, ainda ferida com a perda do seu maior goleador (Fernando Gomes, 1956-2022) e do seu maior presidente (Pinto da Costa, 1937-2025), celebre Jorge Costa como grande capitão que foi e lhe ofereça uma despedida à altura dos maiores.
Nem sempre o FC Porto tratou como devia os seus ídolos, mas creio que a morte inesperada deste gigante sereno, ocorrida num tempo de grandes esperanças, pode vir a ter um efeito congregador na nação portista. Não duvido que a equipa vai lutar o que for preciso para lhe oferecer este campeonato.
Descanse em paz, Capitão Vitória.
