Pouco importa, pouco importa

29 set, 18:18
Fernando Santos (Getty)

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

O Joãozinho era um puto curioso. Pouco ou nada popular no ringue escolar, esse tribunal consagrado, sobretudo durante a adolescência, na hora de atribuir estatutos, mas curioso. Como não lhe passavam a bola, o puto cirandava pela rua aos pontapés nas pedras. Ocasionalmente, os outros putos interpelavam-no, questionavam-no sobre a agilidade com as pedras, concediam-lhe meia dúzia de minutos na equipa, só que rapidamente se fartavam das suas perguntas. Eles não queriam ser questionados quando perdiam e quando ganhavam, mas o Joãozinho tentava a sua sorte, pelo que os putos apenas cantavam: «Pouco importa, pouco importa, se jogamos bem ou mal.»

Certo dia, quando regressava a casa após mais um dia de aulas, o Joãozinho deteve-se num cata-vento. Nunca havia visto um. Chamou-lhe a atenção algo semelhante a uma ventoinha no topo de um prédio. O puto insistia nos propósitos e foi por isso que, na manhã seguinte, ainda antes de a professora ditar o sumário, tomou a iniciativa de levantar o dedo para lhe perguntar para que é que servia um cata-vento. Surpreendida, a professora explicou que os cata-ventos servem para indicar a direcção do vento, satisfazendo a pretensão do Joãozinho, a quem sempre ensinara que perguntar não ofende.

Quando se organizavam os grandes torneios de inter-turmas, o Joãozinho nunca era convidado a participar. O puto tinha agilidade até com as pedras, mas a curiosidade tramava-o junto dos demais. Não deixando de marcar presença na bancada, registava conversas alheias, porque se divertia a comparar pontos-de-vista com os seus. Ouvia, comparava, reflectia. Ouvia, comparava, reflectia. Nessas ocasiões, focava-se, sobretudo, nas análises aos jogos da sua turma.

Houve um ano em que, ao contrário do que sucedia habitualmente, as conversas alheias iam sempre ao encontro das suas reflexões. O Joãozinho, tal como toda a gente, considerava fracas as várias exibições da turma, que contou por três empates os três jogos disputados naquele inter-turmas. Três empates frente a turmas que, segundo as reflexões do Joãozinho e as conversas alheias, eram individualmente inferiores. Contudo, pela primeira vez na história dos inter-turmas daquela escola, a turma do Joãozinho chegou à final do torneio sem qualquer vitória, já que um dos finalistas se viu desclassificado, após «festejos abusivos» junto aos adeptos. Três empates era mesmo o melhor registo até ao momento, o que concedeu à turma do Joãozinho o tão cobiçado lugar na final.  

Sem que nada fizesse prever, os putos da turma do Joãozinho chegaram perto dele e pediram-lhe que jogasse a final. Claro que o Joãozinho se apressou a perguntares-lhe o porquê, ao que os putos responderam que era fezada, que um deles sentia que a diferença iria estar na sua agilidade, que um outro até sonhara com o Joãozinho a marcar o golo decisivo. Os argumentos pareceram-lhe fracos e a esses juntou-se um pedido da turma. Fosse qual fosse o resultado, o Joãozinho não podia fazer perguntas. Remeter-se-ia ao silêncio em caso de derrota e acompanhá-los-ia na canção em caso de vitória. Depois de alguns minutos de reflexão, o Joãozinho comunicou aos putos que não estava disposto a abdicar das suas convicções. Surpreendidos, quiseram saber o motivo e o Joãozinho respondeu: «Porque não sou um cata-vento.»

A turma do Joãozinho venceu o inter-turmas, o Joãozinho abandonou o ringue ao som do: «Pouco importa, pouco importa, se jogamos bem ou mal.»

Reza a lenda que esta foi a história que Luís Enrique passou ao balneário no final da derrota por 2-1, frente à Suíça, a contar para a Liga das Nações.

P.S. – Talvez esteja a brincar.

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