Filho, temos de falar...

25 jul, 14:15
Gyökeres

Box-to-box

São tempos difíceis.

Tempos de lágrimas, de dificuldades em adormecer, de tristeza nos olhos. São tempos de conversas duras em muitos lares. Fazem lembrar aquela vez em que foi preciso explicar que não era coincidência que o avô desaparecesse sempre que o Pai Natal entrava em casa. Enfim, vocês sabem.

É preciso ser forte. E o pai, esse herói de guerra que sobreviveu a dezanove anos à espera do título de 2021, tem de respirar fundo e encher-se de coragem.

- Filho... precisamos de conversar.
- O que aconteceu, pai? É o Paulinho outra vez?

Não, desta vez é mais grave. É o fim de uma era: uma era de arrancadas à força de touro, de golos atrás de golos e de felicidade, uma enorme felicidade.

- Lembras-te que o pai já te explicou que às vezes os jogadores mudam de clube?
- Sim, pai, eu sei. Como fez o Paulinho.
- Exatamente.
- Mas não faz mal. Temos o Guiócares.

Sete anos e ainda não consegue dizer o nome do jogador. Se calhar temos de pensar em terapia da fala. Mas enfim, isso fica para mais tarde. Agora há algo mais urgente em mãos: como explicar que não, já não têm o Gyökeres?

Como explicar que foi e já não volta? Que se mudou para um clube que não é campeão há 21 anos? Que virou as costas ao Sporting e forçou a saída?

E que aperto é este no coração, que não passa?

- Não, filho, já não temos o Gyökeres. Ele também mudou de clube. Foi para o Arsenal.

O miúdo olha em silêncio. Não há lágrimas a correr pelo rosto. Não há brinquedos a voar pelo ar. Não há gritos. E isso é preocupante.

– Mas... ele volta, não volta?
– Sim, volta. Um dia. Para jogar contra nós na Liga dos Campeões e provavelmente marcar dois golos.

Sim, foi duro. Mas se calhar é melhor assim: terapia de choque. É preciso debilitar aquela paixão que mora no coração do miúdo.

Afinal de contas, Gyökeres não foi só um jogador. Foi golos, muitos golos, e foi aquele festejo. Foi no fundo um herói, igualzinho aos heróis das histórias dos livros, que punha a máscara e salvava o mundo. Pelo menos o mundo daquele miúdo.

E voltava para fazer tudo outra vez. E outra. E mais outra.

Por isso, na escola, todos queriam ser Gyökeres. Fazer um golo e colocar a máscara. Sair a correr pelo pátio do recreio. E encher o peito de orgulho.

Confirma-se, Gyökeres não foi apenas mais um jogador. Foi um ídolo. Em torno do qual cresceu o amor de tantas crianças pelo futebol.

Como é que se ultrapassa isto?!

Não é fácil, de facto. Mas há que estar preparado para tudo.

Para a fase da negação, em que vai gritar que o pai não sabe nada e que o Gyökeres não fazia isso. Para a fase da raiva, em que vai pegar na camisola com o número 9, que o pai tinha comprado em promoção, e colocá-la do lado de fora do quarto. E, por fim, para a fase da aceitação, quando pegar na caderneta, arrancar o cromo do sueco e colar por cima o de Trincão, fixado com fita cola.

Durante algum tempo não vai querer ver futebol e não vai acreditar em super-heróis com poderes mágicos. Vai deixar o leão de peluche debaixo da cama.

Sim, faz parte. É melhor assim.

Não vale a pena gritar, bater com o pé, armar o maior berreiro. De nada serve entrar com providências cautelares, ações de despejo ou intimações. Esqueçam isso. Não é assim que os heróis saem do coração dos miúdos.

É preciso tempo. Aceitar a mágoa e aguentar a desilusão. Regressar aos jogos na escola, tornar a escolher um jogador que se quer ser, voltar a entusiasmar-se com o Sporting. Deixar a mágoa ficar mais pequenina, até que desapareça.

Nessa altura, ele vai compreender que o mais importante é que aconteceu, e ele teve a felicidade de vivê-lo.

«Box-to-box» é um espaço de opinião de Sérgio Pereira, editor-chefe do Maisfutebol

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