Carta ao Sr. Joaquim

4 jul, 13:45
Diogo Jota, frente à Finlândia (RODRIGO ANTUNES/LUSA)

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Caro Sr. Joaquim,

Acho que nunca falei com o Diogo Jota, pelo menos não tenho memória disso, mas lembro-me perfeitamente de falar consigo. Lembro-me de lhe ligar para conversarmos um pouco e lembro-me de me ter explicado como pelos filhos nós fazemos tudo.

O sr. Joaquim, por exemplo, teve de arranjar um segundo trabalho para pagar as despesas do futebol: mensalidades, chuteiras, equipamentos, viagens.

«Para eles poderem fazer o que mais gostam», acho que foram estas as suas palavras.

Lembro-me também, já agora, de desligar o telemóvel e pensar como o sr. Joaquim era boa gente: uma pessoa de trabalho, simples, honesta, autêntica.

Não consigo, por tudo e também por isso, imaginar o que está a viver.

É impossível, é demasiado brutal para ter sequer uma ideia. Um homem de família, que dedicou a vida aos filhos, perder ambos e perder tudo desta forma... É desumano. É cruel.

Não há consolo, nem sentido, nem justiça que se agarre a isso. Faz-nos questionar tudo. Como é possível? Que lógica tem a vida?

Eu, que sou pai de dois meninos também, com este vazio no peito que parece deixar o coração suspenso, não consigo imaginar tamanho sofrimento.

No entanto, quando o tempo anestesiar a dor pelo menos um bocadinho, quando conseguir pensar com um pouco mais de clarividência, espero que possa entender como Diogo Jota era amado. Pelos colegas, pelos adeptos, por todos nós. E que isso o conforte.

No meio da comoção geral, houve um vídeo que me marcou. Era de um adepto do Liverpool, com uma respeitável idade. Perguntaram-lhe o que significava para ele o Diogo Jota e ele respondeu com a simplicidade dos antigos. «Ele é um dos nossos rapazes. Não anda atrás de manchetes. Sai de manhã para trabalhar e no final do dia regressa para junto da família.»

É isto, sabe? É mesmo isto.

Diogo Jota, e imagino que o André também - têm a mesma educação -, é um de nós. Gente com pés na terra, com raízes, com uma família.

Ouvi dizer que hoje devíamos falar do homem mais do que do jogador. Discordo totalmente. Temos de falar do jogador. Porque foi isso que tornou o seu filho especial: ele foi um craque, que esteve numa das maiores transferências do futebol nacional, que jogou anos a fio no Liverpool, foi um milionário, famoso e bajulado.

Foi tudo isso e continuou a ser sempre ele: não se vendeu ao primeiro brilho.

Num tempo em que as nossas crianças crescem a ver estrelas milionárias, mimadas e arrogantes, em redes sociais coreografadas, o seu filho aproximava-nos do relvado.

Ele mostrava-nos como o futebol também pode ser feito por gente como nós: gente que sai de manhã para trabalhar e ao fim do dia volta para a família.

Gente verdadeira e genuína.

Neste mundo de luxo e excessos em que se tornou o futebol, ele foi sempre honesto com quem era: no fundo foi sempre aquele rapaz de Gondomar, que aos 19 anos já jogava no plantel principal do P. Ferreira e ainda vivia no lar do clube, porque era ali que mais se sentia o espírito do Paços.

Senhor Joaquim, deve ter muito orgulho. Porque para além dos jogadores, criou dois homens. No caso do Jota, vê-se nos gestos. Nos olhos com que olha. O futebol precisa de craques assim, costuma dizer-se. É verdade. Mas sobretudo o mundo precisa de pessoas assim.

Acho que provavelmente nunca vai ler esta carta, e não faz mal, mas alguém devia transmitir-lhe o essencial: todos amávamos o seu filho.

Com estima,

«Box-to-box» é um espaço de opinião de Sérgio Pereira, editor-chefe do Maisfutebol

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