«António Silva emprestado pelo SL Benfica ao Estoril Praia»

6 out, 21:55
António Silva e Neymar no Benfica-PSG

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

O Sport Lisboa e Benfica informa que chegou a acordo com o Estoril Praia para a cedência por empréstimo, até final da época desportiva de 2022/23, do atleta António Silva. Quem? António Silva. António Silva? Ah, sim, o miúdo que venceu a Youth League na temporada passada. Pé esquerdo, alto, mas franzino. Não, pé direito. Pé direito, sim. Mas magrinho, certo? Pois, far-lhe-á bem rodar, ganhar robustez, perceber o que custa a vida – quiçá, passar as passas do Algarve antes de conquistar os primeiros minutinhos na Primeira Liga portuguesa, essa Liga a transbordar de defesas-centrais deveras superiores ao António. E há que não esquecer que um central franzino não garante umas porradas nos múltiplos jogos em que o SL Benfica é encostado às cordas. Isso acontece tantas vezes! Não te lembras do Ferro? Também era o próximo Rúben Dias e anda pela Croácia. Já agora: o António não tem pelo menos 50 jogos na equipa B, logo, não dará resposta na equipa A. Se é assim tão bom, será titular do Estoril Praia e depois logo se vê. Logo se vê se não lhe fica a faltar, ainda, um emprestimozinho maroto ao Wolverhampton ou ao Getafe.

Em Portugal, dá ideia de que são donos do mais espectacular e talentoso campeonato do mundo. De que os craques são tantos que nem o Vitinha era de caras. De que dá gosto sentar no sofá para assistir a qualquer equipa, a qualquer jogo. Mas que raio. Nos últimos anos, uma mão não chega para contar o número de clássicos e dérbis intragáveis. Amigos, clássicos e dérbis. Onde se encontram os melhores da Liga. O cheiro a ignorância em relação ao que sucede no futebol além-fronteiras paira no ar e lá se transforma em sirenes de alarme aquando goleadas vindas dos Países Baixos, da Bélgica ou da Áustria. Os projectos desportivos são conversa de quem não cheira o suor dos balneários, porque o que importa é ganhar; a aposta na formação não convence, porque só assenta nos predestinados; o António Silva tem apenas dois jogos a titular pelo Estoril, portanto não serve para o SL Benfica (esqueçam, confundi com o Gonçalo Esteves).

Quando um clube abre mão de um atleta da formação, seja por empréstimo, seja em definitivo, parte da premissa de que esse atleta não está apto para integrar a equipa principal. Os motivos podem ser vários, mas a avaliação não advém do infalível Chapéu Seleccionador inventado por J. K. Rowling em Harry Potter, advém de treinadores. Os treinadores não são infalíveis nas avaliações, tão pouco imparciais, já que têm uma ideia de jogo e preferências no que toca a características individuais. Ora, se Roger Schmidt tem libertado António Silva para um empréstimo ao Estoril Praia, o António Silva passaria a estar sob avaliação de um treinador totalmente diferente, que poderia aceitar o jogador, mas, de certo, não lhe garantiria a titularidade. O caso de Gonçalo Esteves é revelador, o caso de Bernardo Silva é enigmático e os casos de Vitinha e Florentino são recentes. Estão à frente dos nossos olhos para nos provar que não existem fórmulas matemáticas. 

O que, aos 18 anos, António Silva tem feito na equipa principal do SL Benfica é, também, rasgar ideias bacocas sobre a fisionomia de um defesa-central, provar que a inteligência tática não tem idade, a experiência de Champions League vale o que vale e habitar num colectivo bem trabalhado ajuda muito mais a formar do que comer banco fim-de-semana após fim-de-semana. António Silva é dono de uma calma atroz em situações de caos, alia velocidade e inteligência na leitura dos lances – quando deve antecipar, quando deve manter contenção -, é forte nos duelos pelo ar, procura que a intercepção seja o início da acção defensiva e não o seu final, detém uma invulgar qualidade no passe curto e longo. Pela frente, já teve opositores de variadas dimensões. Temos o direito de não estar convencidos, mas, infelizmente para mim, confessa admiradora de Ferro, ter como principal argumento alegadas parecenças entre ambos não cola. Ferro foi o central português proveniente da formação que mais me entusiasmou com a bola no pé, contudo, as lacunas defensivas eram evidentes e não sei se teve quem o ajudasse a superá-las.

É difícil que não tenhamos notado as exibições de António Silva em Guimarães e frente ao Paris Saint Germain. Foi um dos melhores em campo em ambos os empates e acredito que possa ser um dos primeiros nomes a ir à forca nas mesas dos cafés no período em que os resultados custarem a aparecer. Afinal, é só o miúdo magrinho de pé esquerdo que venceu a Youth League. Não, pé direito.

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