«Era uma vez na América» - III
Filadélfia é uma cidade intimamente ligada à génese dos Estados Unidos da América. Foi lá que foi redigida a declaração da independência em 1776 e que ela foi lida publicamente a 8 de julho desse ano, quatro dias depois da criação dos EUA como país. Para isso, os habitantes da cidade foram convocados através do toque de um sino: o sino da liberdade que, mesmo rachado, é hoje uma valiosa peça de museu em Filadélfia.
A cidade, que no século XVIII chegou a ser a maior dos Estados Unidos, foi também capital temporária do país, até que em 1800 o Congresso fixou-se definitivamente em Washington DC.
Hoje, o berço do nascimento dos EUA transborda em riqueza cultural. Pela cidade há milhares de autênticas obras de arte pintadas em muros e nas fachadas de prédios antigos, uma forte influência de diversos géneros musicais e uma gastronomia rica. Os finais de tarde e as noites são animados, com muita gente nos bares e nas ruas. Há espaços para todos os gostos e feitios: desde os mais barulhentos aos mais intimistas, onde se bebe um copo de vinho no final de um dia de trabalho.
Tudo isto acontece ao mesmo tempo em que Filadélfia luta contra o flagelo da toxicodependência. O bairro de Kensington é o que gera mais preocupação. É lá que mais se compra e se consomem drogas, mas bem perto da Câmara Municipal, numa zona nobre da cidade, também são bem visíveis os seus efeitos nefastos.
Pessoas prostradas nos passeios ou nas estações de autocarros e de metro durante horas, a vaguearem de olhar vazio, a pedirem dólares a quem passa, a arrastarem-se pelas ruas e com feridas ao longo do corpo. Quase todas jovens, máximo dos máximos na casa dos 40 anos. Sim, porque não há compatibilidade possível entre esta vida e a velhice.
No dia em que deixo Filadélfia, onde estive entre 16 e 21 de junho, não me saem da cabeça duas imagens: a de um rapaz que não devia ter mais do que 20 e tal anos paralisado da cintura para baixo e em parte do rosto; e a de uma mulher, talvez na casa dos 30, com marcas das substâncias tóxicas em todo o corpo e semblante triste. Via-os todos os dias, sempre nos mesmos locais. A ela, à entrada de uma ruela quase entupida de contentores do lixo ao lado de um restaurante; a ele, à saída de uma estação de metro.
Os números são esmagadores. Em 2023, o Departamento de Saúde de Filadélfia registou 1.315 mortes por overdose. Na grande maioria dos mortos (79 por cento) foi encontrado fentanyl, um opioide usado para mitigar a dor severa, mas que é também uma das substâncias mais traficadas nos Estados Unidos e responsável por 70 por cento das cerca de 100 mil mortes por overdose registadas anualmente no país.
O fentanyl é frequentemente misturado com xylazine, um fármaco usado por veterinários que abranda a respiração, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea para níveis perigosamente baixos e, muitas vezes se usado nesta combinação explosiva, fatais.
Nas ruas de Filadélfia, a miséria não tem horas nem local para se mostrar. Não há sequer vergonha, porque também já não há a mínima réstia de autoestima em quem parece já ter desistido de viver. E tudo isto acontece perante a indiferença de quem passa pela rua a caminho ou a regressar do trabalho, para ir tomar um copo, comer a um restaurante ou ir a um supermercado. Como se fosse – e é, tristemente – algo quotidiano, invisível.
«Era uma vez na América» é um espaço de crónica do jornalista David Marques, enviado-especial do Maisfutebol ao Mundial de Clubes
