Acabou o banzé e vem aí o melhor dia da Campanha, que é quando ela acaba: o dia de reflexão
Conversas sérias nunca fizeram aumentar audiências e o tempo é, definitivamente, de começar a discutir o meio – os media, os smartphones, as redes sociais, os interstícios entre media e partidos e a vulnerabilidade do eleitorado (sobretudo o mais jovem) perante este estado de coisas; a consequência, se não o fizermos, é votarmos a mensagem à total irrelevância. Penso que já todos percebemos que da hipermediatização instalada pouco ou nada sairá que nos permita refletir seriamente sobre o que quer que seja; já não é um problema de mensagem ou falta dela, é um problema de meio ou falta dele. Conhece as listas dos deputados à Assembleia da República, que são, de facto, o objeto do seu voto no próximo domingo? Provavelmente não, porque, justamente, um sistema destes não pode senão resvalar para o culto da personalidade, é-lhe inerente; daí o fim dos partidos como os conhecíamos, e a retórica política reduzida a ídolos ou a sua antítese. A armadilha é que o perigo não está na esquerda nem na direita, está no regime e na sua imensa inércia e decadência, muito bem disfarçadas pela inundação constante do que resta do espaço cívico com pretensas novidades. Roubando uns versos ao bem-humorado Sérgio Godinho: é “o elixir da eterna juventude, esse que quer que tudo mude, para que tudo fique igual”.
Reflexão: não importa tanto que o candidato “A” ou “B” tenha razão, se não souber o que fazer com a razão que tem; essa é, aliás, a diferença entre demagogia e pedagogia – a primeira aproveita-se das evidências, a segunda tentar fazer algo construtivo com elas. Nas últimas décadas habituámo-nos a celebrar “carisma” e “habilidade”, mas esquecemo-nos que essas qualidades são, na esmagadora maioria das vezes, usadas para proveito próprio. Há um epíteto lusitano para isso: o “chico-esperto” (brilhante língua, a nossa). Por paradoxal que pareça, só há mesmo uma forma de regenerar tudo isto: votar, porra! Fim de reflexão.