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Pediatra, Hospital da Cuf

Vírus adormecidos ressurgem durante a pandemia. Porquê será ?

27 ago, 17:12

O confinamento impediu contactos com vírus e bactérias, o que afetou o sistema imunitário que não foi criado para se manter num ambiente fechado, limpo e asséptico

Desde que foram reportados, no dia 31 de dezembro de 2019, à Organização Mundial de Saúde(OMS) os primeiros casos de Covid-19 , muitas mortes e sequelas físicas e psicológicas ocorreram na população mundial por causa da pandemia. 

Hoje em dia, sabemos muito mais sobre a epidemiologia do vírus e as consequências do “long Covid”, mas o que salta para as primeiras páginas dos jornais e artigos científicos é o ressurgimento de velhas doenças e de outras novas cuja verdadeiras causas ainda estão por encontrar.

O nosso sistema imunitário não estava, aparentemente, preparado para ficar retido em prisão domiciliária durante semanas ou meses, evitando o contacto diário com os vírus comuns. Estávamos habituados a conviver e viver com eles no nosso quotidiano. As crianças e os adultos que vivem nas ruas, que enfrentam o frio e o calor, o sol e a chuva, os vírus e bactérias que circulam à sua volta, não são estas pessoas que habitualmente procuram mais os médicos ou estão internadas. 

O nosso organismo foi preparado para enfrentar as dificuldades diárias e os ataques frequentes dos vírus, bactérias e fungos. Os nossos leucócitos e linfócitos T killers querem estar em atividade para nos ajudar a defender de quase todas as adversidades. 

O que aconteceu durante a pandemia? 

Precisamente para evitar a propagação do Sars-Cov-2, fomos obrigados, no bom sentido da palavra, por razões de saúde pública, a ficar retidos e confinados nas nossas casas, sem muitas possibilidades de podermos contactar com os velhos e novos vírus. Quando saíamos por algum motivo, a máscara acabava por nos ajudar a proteger não só do Covid-19, mas também de outros vírus potencialmente contagiosos . 

Todo o ciclo dos vírus foi alterado e as pessoas ficaram doentes em menor número e em épocas completamente atípicas durante este período. 

Nos estudos realizados no Alabama e no Reino Unido, 90% das crianças com hepatite de causa desconhecida testaram positivo para adenovirus 41, que habitualmente causa gastroenterite na criança. Felizmente não tem provocado uma taxa elevada de mortalidade . 

Varíola dos macacos

A varíola dos macacos, que ao contrário da Covid-19 está associado ao DNA e não a RNA. Só esta diferença significa que a capacidade de replicação do vírus é menor. O primeiro caso em humanos surgiu no Congo em 1970. Este ano, o novo surto aconteceu em Inglaterra e o diagnóstico foi feito a 12 de Maio. Desde então, foram registados em vários países no mundo, com maior incidência em Portugal e Espanha. 

Tal como na Covid-19, o risco da pessoa ficar internada é de 10%, mas a mortalidade é muito menor, sendo 0,02 % na varíola dos macacos e 0,5% no SarsCov2. 

A fonte de contágio também difere, uma vez que na Covid-19 é através de gotículas e na varíola dos macacos, é por contacto direto “skin with skin”. O sinal mais comum de varíola em crianças e adultos é a erupção cutânea. A erupção da varíola do macaco passa da fase inicialmente lisa para saliente, repleta  de líquido e, finalmente, para uma crosta que  cai e é substituída por uma nova camada de pele. Febre, dor de cabeça, fadiga e adenopatias  também são comuns em crianças com varíola, mas não  aparecem em todos os casos. 

A SarsCov2 atinge mais pessoas idosas por causa do seu sistema imunitário ser mais frágil. Na varíola de macacos, o contágio é geralmente através de relações sexuais entre pessoas do mesmo género, mas crianças com menos de oito anos são suscetíveis de serem contagiadas por causa do seu sistema imunitário ser também mais débil, através do contacto direto.

A variante da varíola dos macacos da Bacia do Congo é mais propensa a provocar uma infecção grave em crianças nesta faixa etária. A variante da varíola dos macacos que tem propagado pelo mundo é da África Ocidental, que é conhecida por causar uma doença mais leve. 

Poliomielite

Apesar de há muito tempo os casos de poliomielite serem raros, por causa da vacinação em massa na população mundial, em países altamente industrializados, tal como nos Estados Unidos, começaram a ressurgir casos de poliomielite. O primeiro caso surgiu este ano num doente não vacinado. 

Os profissionais de saúde devem ter uma alta suspeita de poliomielite ao observarem pacientes com paralisia flácida aguda, especialmente em pessoas não vacinadas ou com história de viagens internacionais recentes (últimos 30 dias). Em caso de suspeita de poliomielite, devem ser colhidas duas amostras de fezes com 24 horas de intervalo para confirmação do poliovírus. Amostras faríngeas também podem ajudar a orientar o diagnóstico.

O que irá acontecer a curto prazo noutros países? Quais serão os próximos vírus a ressurgirem do nada depois de estarem aparentemente adormecidos? A pandemia por Covid-19 não nos causou apenas perda de vidas humanas, danos na economia mundial, crise política e social em quase todos os países. As sequelas físicas e psicológicas foram graves, mas, com o confinamento e ausência de contacto com os vírus, bactérias e fungos provocou uma reação negativa no nosso sistema imunitário que não foi preparado para viver em ambiente fechado, limpo e asséptico.

Por outro lado, os velhos vírus recuperaram dos ataques constantes dos nossos leucócitos, linfócitos, macrófagos e ganharam mais força, ressurgindo de novo na nossa sociedade e nas nossas vidas, infectando-nos como se tratasse de um primeiro contacto e aparecendo em épocas diferentes do habitual. Vieram mais agressivos, mais virulentos, causando-nos sintomas mais graves! 

Vamos ter de estar preparados para este embate, não só com antivírus mais eficazes, mas também com vacinas capazes de estimular o nosso sistema imunitário e recuperar terreno que perdemos nesta batalha que travamos diariamente com os vírus! 

Importante vacinar

Vacinar é a medida mais importante porque se formos atacados por estes agentes, os efeitos nocivos serão menores e a nossa recuperação será mais rápida. Há países que estão a reduzir o confinamento para três dias ou até já nem é necessário ficar em confinamento, desde que não tenha qualquer tipo de sintoma. 

Neste momento, depois de mais de dois anos e meio de conhecimento sobre o SarsCov2, apesar de estarmos próximos do inverno, a melhor política sanitária será, na minha opinião, vacinar a população mais idosa ou com doenças graves suscetíveis de correrem risco de vida no caso de serem infetados por Sars Cov2. Pessoas com obesidade, diabetes, imunodeprimidas, doenças renais e cardíacas crónicas, doentes oncológicos, devem fazer o reforço vacinal. 

As crianças e jovens que são muitas vezes os responsáveis pelo contágio, devem ser também vacinadas para a sua proteção pessoal, evitando também o contágio às pessoas mais vulneráveis. 

Temos de nos adaptar à realidade e às consequências de confinamento prolongado. Não é neste momento a solução para o problema . 

Quantos menos dias estivermos confinados menor será o risco! Neste momento em que uma grande parte da população nomeadamente europeia está vacinada, não se justifica confinamentos prolongados. Caso contrário, ficar confinado durante muito tempo, conduta frequente ainda em muitos países asiáticos, pode resultar no despertar de um outro vírus adormecido e consequentemente causarmos ainda mais problemas!


Este passo já é uma nova atitude perante o inimigo porque estar confinado não é a melhor solução para nos podermos defender. Temos de o enfrentar, estando vacinados! 

Mesmo em relação a poliomielite se estivermos vacinados com três ou quatro doses, não vamos ficar com as sequelas nem tão pouco infetados. É uma boa altura para as pessoas cépticas em relação às vacinas, ponderarem melhor sobre os riscos e benefícios da vacinação. Há indubitavelmente o ressurgimento de velhas infeções e o aparecimento de novos vírus. 

A vacinação é, sem dúvida, a melhor forma de estarmos preparados para os enfrentar. Sem a vacinação universal, milhões de pessoas teriam morrido por infeções víricas e bacterianas ou teriam ficado com sequelas graves caso sobrevivessem. 

A comunidade científica internacional e a OMS vão ter de estar atentos aos novos ataques de vírus que estavam em estado de latência mas que estão a regressar cheios de força para causar danos no ser humano.

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