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Edifício do Futebol próximo da implosão – com estrondo

27 nov 2021, 09:24
Bola de futebol
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Percebem-se agora as aproximações entre Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Percebem-se os silêncios, os incómodos, as desconfianças e as manobras de diversão. As operações Cartão Vermelho e Cartão Azul são uma ameaça ao regime que dominou o futebol português. Se juntarmos a Operação Fora de Jogo, percebemos que a investigação está a colocar pressão sobre caminhos paralelos. E isso representa um ‘assalto’ às decantadas marginalidades fomentadas no desporto-rei

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Durante anos a fio acumularam-se fortes indícios de que na área do futebol profissional em Portugal tudo era permitido, mas os resultados desportivos, a capacidade de certos líderes utilizarem a rivalidade clubística para, através de debates acalorados e expedientes de baixa ética, esconderem irregularidades e abusos de poder, os métodos utilizados para calar as vozes críticas e para manipular as principais sedes de decisão, geraram no País sensações de medo e de bloqueio.

O Estado, a Assembleia da República, o poder político, nunca souberam lidar muito bem com a realidade do futebol profissional que foi crescendo e alimentando a ideia de que poderia autonomizar-se com uma regulação mais ou menos artificial e seguramente ineficaz.

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O futebol profissional em Portugal cresceu dentro de uma bolha e, dentro dela, os mecanismos de (auto)regulação funcionavam como laranjas (de casca grossa) que, exprimidas, não deitavam uma gota de sumo.

O futebol português passou da fase do mecenato — gente com poder económico para através dele gerar importantes influências — para a fase das SAD, a partir das quais, supostamente, com um ordenamento jurídico formal e em tese mais exigente, ir-se-ia adquirir mais equilíbrio e sobretudo mais transparência.

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Um logro.

O edifício do futebol profissional é um arranha-céus que foi construído, nos últimos 30 a 40 anos, andar sobre andar, com três problemas absolutamente críticos:

1)    Arbitragem e as suas viciações;
2)    Transferências e os seus labirintos nebulosos;
3)    Centros de decisão incapazes de se autonomizarem e exercer as suas competências acima do poder clubístico.

A impunidade no ‘mundo do futebol’, depois dos abusos consentidos e fomentados pelo poder central antes do 25 de Abril, agudizou-se e conheceu um momento verdadeiramente dramático com a forma como a Justiça e a Justiça Desportiva (não) resolveram o processo denominado ‘Apito Dourado’. A partir desse momento e com a consciência pública do que estava em causa, através da subversão escandalosa da Verdade Desportiva, criou-se a ideia de que tudo era possível em benefício do(s) infractor(es).

O País a fracturar-se, através do futebol, numa indesejável divisão Norte-Sul e a magnanimidade da competição desportiva a diluir-se no ódio e na escolha dos métodos que pudessem mitigar supremacias achadas através de meios, até, coercivos.

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O regime foi-se construindo, nas últimas duas décadas, através da influência e do poder de Pinto da Costa, actual presidente do FC Porto e Luís Filipe Vieira, ex-presidente do Benfica.

Todas as outras entidades e instituições e parceiros da Liga tiveram de se acomodar a um sistema que se foi fortalecendo - criando desigualdades insanáveis — através de silêncios e cumplicidades.

As outras instituições, directa e indirectamente ligadas ao futebol, foram-se anichando ou reagindo de acordo com as ‘regras’ ditadas por aqueles dois protagonistas, acossadas pela chegada do ‘furacão’ Bruno Carvalho, ex-presidente do Sporting, que quis colocar uma viga de ferro, um obstáculo proeminente, a interromper a fluidez no trânsito da estrada da bipolarização.

O edifício abanou, mas a actividade sísmica não provocou maiores danos porque Bruno de Carvalho ficou soterrado por uma pedra gigantesca que fez desabar sobre si próprio e obrigou Sporting a rever comportamentos e propósitos. E a verdade é que, no pós-invasão da Academia de Alcochete, o clube de Alvalade, sob uma liderança mais equilibrada e moderada, firme mas sem radicalismos, intrometeu-se no caminho da bipolarização e está hoje a tentar afirmar-se como um destes veículos híbridos que se vêem nas estradas portuguesas, utilizando algum do combustível tradicional, mas com o objectivo de electricamente retirar poluição ao ambiente.

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É preciso dizer que a iniciativa da FPF em se antecipar à implementação do novo paradigma de futebol com VAR à escala europeia e mundial evitou males maiores num contexto de pré-ruptura do futebol português.

É preciso dizer também que a Justiça, sempre muito condicionada pela falta de recursos, foi fazendo o seu caminho e, mesmo num ambiente de muitas dificuldades, confrontada com tantos indícios de ilicitudes, desde fraude fiscal até branqueamento de capitais, conseguiu penetrar em zonas de investigação e intervenção que antes lhe pareciam vedadas.

A detenção de Luís Filipe Vieira e tudo o que entretanto se lhe vê associada, abrindo um novo ciclo no Benfica, representa um sinal de ‘nova ordem’ no futebol em Portugal, mesmo considerando as resistências, as extensões e até as representações de um falso renovado sentido.

A operação Cartão Vermelho abriu um novo capítulo e passou a ser observado como uma ameaça a uma parte importante do regime. A operação Cartão Azul, vista como uma ‘irmã gémea’ da operação Cartão Vermelho, é em cúmulo uma ameaça ao regime que dominou o futebol português nas últimas décadas.

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Percebem-se agora as aproximações entre Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Percebem-se os silêncios, os incómodos, as desconfianças e as manobras de diversão.

Se a elas juntarmos a Operação Fora de jogo, que lança suspeitas sobre dinâmicas de negócio no SC Braga e no Vitória (de Guimarães), percebemos que na verdade a investigação está a colocar uma enorme pressão sobre caminhos paralelos que podem ter visado o empobrecimento das SAD em contraponto com o enriquecimento de dirigentes, agentes/intermediários e outros agentes desportivos, com a colaboração de advogados direta ou indiretamente ligados a esses negócios, e isso representa um ‘assalto’ às decantadas marginalidades fomentadas no desporto-rei.

Nenhuma destas buscas é, em si, uma surpresa. Há muito que a percepção pública alcança um futebol em estado de podridão suprema no qual a maior curiosidade parece ser quem vai… ‘ficar de fora’ e resistiu à contaminação.

NOTA - Assim como fiz em jeito de movimento ou proposta em relação à introdução das novas tecnologias no futebol, para impedir que se realizassem ‘roubos de igreja’ nas competições nacionais (anulando praticamente o efeito do ‘erro grosseiro’), venho defendendo há longos anos a criação de uma Casa das Transferências que permita escrutinar TODOS os movimentos realizados em transferências de jogadores e treinadores de futebol para impedir especulações, inflacionamentos, e esquemas vários, passando por offshores e manobras que visem camuflar ou apagar o rasto do dinheiro. 

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O Futebol nunca quis. Porquê? O Estado nunca avançou. Porquê?

A FIFA e a UEFA vêm alimentando este ‘modelo de negócio’ e os Governos não ousam. Chegou-se longe de mais neste ensaio sobre a cegueira.

Em Portugal, o edifício do Futebol Profissional ameaça implodir. Com estrondo.

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