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Mais um texto sobre João Neves

27 abr 2023, 19:51
João Neves (FOTO: Benfica)

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

«Quem vem da equipa B, se não for um prodígio, não está preparado para jogar na A. Desculpem. Desculpem. Tirando os prodígios, precisas de 50 jogos, no mínimo, de equipa B para dar resposta numa equipa A do Benfica.»

O princípio foi defendido por Renato Paiva, em 2021. Desde então que aquelas palavras me martelam a cabeça sem que nunca meio milímetro de alguma me tenha entrado com sentido. Kyle Walker celebra já a sexta época junto de Pep Guardiola e eu também continuo sem achar indícios de lógica nesta amizade - isto só para atestar que ser guardiolista é diferente de pertencer a um chafardel de carneiros e que a partir do momento em que ousas colocar em causa as opções do melhor treinador da História do jogo, assumes-te ousado para colocar em causa qualquer uma das suas meras testemunhas.

Apontar nomes de jogadores para refutar a tese de Renato Paiva seria um exercício fácil, mas preguiçoso, pois, tal como a própria tese, ignoraria o traço mais vincado do futebol, que é o de ter uma natureza colectiva.

A tentativa de projectar o sucesso ou o insucesso de uma resposta individual, num contexto de alto nível, partindo de um número de jogos realizados, num contexto de nível abaixo, é bizarra. Desde logo, transmite a falsa sensação de que qualquer jogador que cumpra os tais 50 jogos na equipa B, estará mais preparado para vingar na equipa A, colocando o ónus numa quantidade sempre desprovida de riqueza conjuntural. Não é a repetição que, per se, arma os atletas de melhores ferramentas. A imprevisibilidade proporcionada por um jogo de futebol, faz com que quem procura aperfeiçoar a sua prática descubra mais dificuldades e exigências do que quem procura aperfeiçoar a cobrança de livres directos, por isso é que um exímio batedor de livres directos - ou um excelente driblador, ou um tecnicista formidável - não passa a ser um jogador de futebol exímio. As valências individuais são úteis se bem aplicadas no jogo, porque a agilidade de um malabarista de nada serve no xadrez.

Se, em 50 jogos, um defesa-central da equipa B do Benfica for estimulado, sobretudo, para, em zonas de construção, procurar o ponta-de-lança ou o extremo do lado contrário através do passe longo, de que forma estará a ser preparado para dar resposta numa equipa A do Benfica, onde lhe vão pedir para tentar bater a pressão do adversário através do passe vertical para os médios, para um dos extremos que baixa dentro ou para o avançado que recua em apoio? Estou a idealizar um cenário de equipa B em que a equipa nem sequer se prepara para lhe oferecer condições para esse passe vertical, ou seja, um cenário em que o defesa-central é mais vítima do que culpado. Nesta perspectiva, não há potencial para que os 50 jogos na equipa B sejam mais prejudiciais do que benéficos na evolução do defesa-central em causa? De que é que lhe valeram os 50 jogos em que viu serem-lhe amarradas as suas principais virtudes?

Se, em 50 jogos, um lateral da equipa B do Benfica for estimulado, sobretudo, para, com bola, procurar a linha-de-fundo e cruzar, de que forma estará a ser preparado para dar resposta numa equipa A do Benfica, onde lhe vão pedir para invadir zonas interiores, evitar o cruzamento sem critério, procurar tabelar para ganhar vantagens no corredor? Estou a idealizar um cenário de equipa B em que a equipa nem sequer se prepara para responder a cruzamentos, coloca dois um três jogadores em zona de finalização, mas apenas um com argumentos no jogo aéreo, além de trabalhar pouco a jogada, o que faz com que o adversário esteja invariavelmente organizado, ou seja, um cenário em que o lateral é mais vítima do que culpado. Nesta perspectiva, não há potencial para que os 50 jogos na equipa B sejam mais prejudiciais do que benéficos na evolução do lateral em causa? De que é que lhe valeram os 50 jogos em que viu serem-lhe amarradas as suas principais virtudes?

Há jogadores que tardaram em afirmar-se por culpa de repetições que não se adequavam às suas características - sim, vou continuar a mencionar João Félix - e outros cujo desenvolvimento também se deveu aos companheiros que encontraram dentro de campo - o feliz envolvimento de Messi, numa fase inicial da sua carreira, com Xavi e Iniesta ajudou-o a sofisticar vários aspectos do seu jogo. A confiança que um treinador transmite a um jogador, as ideias que pretende pôr em prática, as preferências face a inúmeros perfis individuais, o talento individual, a estrutura mental do jogador, as melhores ou piores sociedades que nascem dentro de um sistema, o nível competitivo da Liga - todos estes parâmetros me soam mais preponderantes no sucesso ou no sucesso de uma resposta do que o número de jogos cumpridos numa equipa B.

Analisando cada um deles, fica fácil concluir que João Neves, com apenas 11 jogos ao serviço da equipa B do Benfica, pode estar perante um bom contexto para dar o salto. Primeiro, sem ter de tolerar mais treinos de Luís Castro, segundo, sem cumprir a fatalista participação no carrossel dos empréstimos (prática mui nobre que gostar de transformar um ‘vais ter de te desenrascar’, num ‘isto é para o teu bem’). Talento não lhe falta, já que até do terceiro anel se pode apreciar o vasto repertório no gesto técnico mais importante do futebol, o passe. Ao passe junta intenção, visão de jogo, boa gestão dos ritmos, boa qualidade de execução. Tem, além disto, outra característica muito apreciada por Roger Schmidt - e pelo terceiro anel -, que é a abnegação sem bola quer a defender, que se exprime na forma como se predispõe nas divididas, como se mostra capaz de cobrir espaços grandes ou como adora incomodar o portador adversário, quer a atacar, que se releva na busca incessante por dar linhas de passe aos colegas ou no entendimento se é o momento de pedir no pé ou de se movimentar para abrir espaços. Em princípio, tendo em conta o número de minutos concedidos a um e a outro, João Neves parte à frente de Cher Ndour nas preferências do treinador alemão, que também foi generoso nos elogios após a estreia a titular, frente ao Estoril. Quanto ao nível da Liga Portuguesa, resta-me dizer que é a Liga que fica mais rica caso João Neves faça parte dela, aplicando uma máxima que usei para defender a aposta em Vitinha, Fábio Vieira, Daniel Bragança e tantos outros, como Afonso Sousa ou Tiago Dantas, que não vimos vingar nesta poderosíssima competição, famosa por dar palco a tantos jogadores com dois pés esquerdos.

Gostava que o Benfica terminasse a temporada com um meio-campo composto por Florentino e João Neves e de voltar a entrevistar Renato Paiva.

* a autora escreve com o acordo ortográfico antigo

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