Opinião de Jesualdo Ferreira Jesualdo Ferreira, treinador do Alverca, escreve nestas páginas durante o Euro-2000. Leia as previsões para os quartos-de-final.
Desta vez os números são reveladores de uma agradável realidade. A primeira fase do Euro caracterizou-se por um futebol aberto, bem jogado, com muitos golos (2,7 de média), apenas dois jogos sem golos nos ( só ) quatro empates registados. As discussões tácticas foram relegadas para posteriores análises, ganhando relevo as diferenças que algumas equipas foram revelando em relação a outras, por força da qualidade do seu jogo e dos seus jogadores.
Parece claro, no momento, que as criticas apontam em dois sentidos: de aplauso, para as equipas de melhor futebol, e de natural desagrado para outras selecções, cujas prestações medíocres não se enquadram na tradição dos últimos anos. No primeiro caso Portugal lidera pelo pleno de resultados conseguidos, mas em especial pela demonstração de classe dos jogadores e pela eficácia do jogo de ataque, com a Itália e Holanda por perto, mas sem o mesmo brilhantismo.
A França com alguma dificuldade em substituir unidades nucleares (não falamos só de Zidane) logo seguida por uma Roménia a revelar pouco equilíbrio no meio-campo e ataque, a Espanha ainda não refeita do susto do primeiro jogo e da qualificação no último minuto e por isso desconfiada do seu valor (factor que se pode revelar negativo no próximo jogo) fecham o ciclo das melhores equipas cujo factores de aproximação se medem pelo futebol atractivo e ofensivo, com jogadores muito dotados no plano técnico e fantasia q.b. e com a curiosidade da raíz latina só não ser pertença da Holanda.
Alemanha, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e República Checa, mais do que a Bélgica Eslovénia e a Noruega, constituem as grandes decepções deste Europeu, numa demonstração de menor qualidade dos seus jogadores dentro do ciclo normal de renovação, de que estas selecções não podem fugir. Uma palavra de ânimo para a Eslovénia pela postura táctica utilizada e também pelo nível de alguns dos seus jogadores e o reconhecimento da capacidade dos jogadores checos, traídos por erros individuais e por alguma falta de sorte.
Na final deste Europeu vai, esperamos, estar presente uma equipa de raiz latina. A Turquia é uma equipa competitiva, organizada em redor de uma filosofia de trabalho colectivo bem definido, e com três jogadores muito importantes, Hakan Sukur e Arif no ataque e Alpay no comando defensivo. A presença nesta fase da prova vale como uma motivação extra, e por isso muito importante num só jogo, decisivo. Portugal, por força da capacidade demonstrada, é o favorito. Trata-se de uma situação pouco vulgar nas grandes competições, por isso de maior responsabilidade, o que todos os jogadores reconhecem pela experiência que possuem destas situações competitivas.
Trata-se de uma oportunidade, talvez a mais importante na carreira destes jogadores, que nenhum quer perder. Aliás, toda a gente espera por uma vitória porque somos melhores, no plano individual e colectivo: o nosso jogo é mais consistente , equilibrado, criativo e menos previsível.
O Espanha-França vai testar duas equipas ainda escondidas. Uma, a França, atrás do seu título Mundial mas com deficiências defensivas preocupantes, que resultam de alguns desequilíbrios no eixo central da defesa e no meio-campo. Talvez Desailly, Laurent Blanc, Deschamps, Petit e Djorkaeff não tenham já, em conjunto, as mesmas possibilidades de um passado recente. A outra, a Espanha, com problemas de identidade-novo seleccionador e novos jogadores nos últimos dois anos-, mas apenas com Raul.
Guardiola e Hierro com experiência de grandes clubes e grandes competições, apesar de muito talento em novos jogadores a quem falta a rodagem nestes eventos, talvez fruto do exagerado número de estrangeiros nas melhores equipas e também porque os melhores jogadores espanhóis não saem para os grandes clubes e para outros campeonatos.
O Itália-Roménia e o Holanda-Jugoslávia aproximam-se em estilo, qualidade técnica, talento e muita experiência, mas distanciam a Itália e a Holanda no plano competitivo pela superior cultura no plano táctico que exibem, aliando ainda muita maturidade apesar de alguma juventude em especial nos italianos.
São alguns destes atributos e um grande desejo afectivo, que nos levam a pensar em finalistas onde o talento, a técnica, a fantasia, eliminam as análises exaustivas no plano táctico. Matéria, aliás, pouco discutida neste Europeu, e que resulta da forma positiva como todas as equipas atacaram o jogo, expondo as suas qualidades e os seus defeitos, resultando assim belos jogos, muita paixão, e com a vitória a contemplar (quase sempre) os melhores. Assim o futebol é mais interessante, apelativo e apaixonante. O desafio continua nos próximos sete jogos.