Onde estão Dom Phillips e Bruno Araújo Pereira? Mas onde estão Dom Phillips e Bruno Araújo Pereira? Repetir a pergunta até à exaustão

14 jun, 15:22
Jornalista britânico e indígena brasileiro desaparecem na Amazónia (Getty Images)

Um jornalista britânico e o seu guia brasileiro desapareceram durante uma reportagem na Amazónia, no Brasil - trata-se de um mistério que está a correr o mundo. E enquanto não há resposta para esse mistério: onde estão Dom Phillips e Bruno Araújo Pereira? Mas onde estão Dom Phillips e Bruno Araújo Pereira? Repetir a pergunta até à exaustão. Repetir a pergunta até serem encontrados. A região onde desapareceram é particularmente perigosa, especialmente por questões que envolvem o tráfico de drogas, exploração ilegal de madeira e minério

Mais de uma semana após o desaparecimento do especialista em cultura indígena Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, permanece o mistério em torno deste caso na Amazónia. Dom Phillips, que é colaborador do jornal britânico The Guardian, ia entrevistar povos indígenas na região e o brasileiro acompanhava-o na realização do trabalho pelo Vale do Javari, a segunda maior terra indígena do país e local da maior concentração do mundo de povos isolados. 

Dom morava em Salvador e fazia reportagens sobre o Brasil há mais de 15 anos para jornais como Washington Post, New York Times e Financial Times, além do Guardian. Dom e Bruno faziam expedições juntos na região desde 2018.

Desapareceram no domingo de 5 de junho quando faziam o trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael até Atalaia do Norte, uma viagem de cerca de duas horas. Os dois estavam a viajar numa embarcação nova, com 70 litros de gasolina, que era suficiente para a travessia que tinham de fazer. Mas nenhum dos dois chegou ao destino final. A última vez que foram avistados foi na Comunidade São Gabriel, abaixo de São Rafael. 

De acordo com informações da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), os dois chegaram ao Lago do Jaburu no dia 3 de junho para visitar a equipa de Vigilância Indígena. Já no dia 5, a dupla deixou o lago e partiu para a comunidade São Rafael, onde o especialista participaria numa reunião. Pelo que consta nas informações trocadas via Dispositivo de Comunicação Satelital SPOT, chegaram ao destino por volta das 6:00. Após conversarem com uma local, ambos recomeçaram o trajeto de regresso a Atalaia do Norte e nunca mais foram vistos.

O desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips foi comunicado pela Univaja na segunda-feira seguinte. As buscas mobilizaram entidades indígenas e equipas da Polícia Federal, das Forças Armadas e de órgãos de segurança do Amazonas. Foi, inclusive, criado um gabinete de crise para esta operação. 

Na terça-feira(dia 7), Jair Bolsonaro disse esperar um desfecho feliz mas insinuou que os desaparecidos podem ter sido imprudentes: "Realmente, duas pessoas num barco, numa região tão selvagem, não é recomendado", disse Bolsonaro, que acrescentou que naquela área "tudo pode acontecer". "Pode ter sido um acidente, pode ser que eles tenham sido executados", afirmou.

As suspeitas e as contradições

Na quarta-feira (dia 8), a Polícia Federal brasileira confirmou que equipas envolvidas nas buscas detiveram em flagrante o primeiro suspeito: Amarildo da Costa de Oliveira, de 41 anos, por posse de armamento de uso restrito. As autoridades também apreenderam uma embarcação registada no seu nome.

De acordo com a CNN Brasil foram encontrados vestígios de sangue no barco, que seguiram para análise. O suspeito, que ficou em prisão preventiva, alegou entretanto ter sido torturado por agentes da autoridade após a detenção.

Dias depois, na sexta-feira (dia 10 de junho), as equipas que integram a Operação Javari localizaram “material orgânico aparentemente humano” no Rio Itaquaí, próximo do porto de Atalaia do Norte. As amostras também foram encaminhadas para perícias mas o resultado das análises ainda não foi divulgado.

No sábado, 11 de junho, um grupo de voluntários indígenas encontrou objetos pertencentes à dupla no local onde se perdeu o rasto. E este no domingo, 12 de junho, um comunicado da polícia federal brasileira informou que entre os itens recuperados estavam um par de calças, um par de botas, um cartão de saúde com o nome de Bruno Pereira e uma mochila cheia de roupas de Phillips.

Polícia Federal encontra pertences de Bruno Pereira e Dom Phillips (AP Photo/Edmar Barros)

A mulher do jornalista britânico, Alessandra Sampaio, anunciou esta segunda-feira (dia 13) que os corpos de Dom Phillips e de Bruno Pereira tinham sido encontrados. A notícia foi inicialmente avançada por Fred Arruda, embaixador brasileiro no Reino Unido, à família do jornalista numa chamada telefónica: “Ele disse que queria que nós soubéssemos… tinham encontrado dois corpos”, contou Paul Sherwood, cunhado de Dom Phillips. “Não descreveu o local e só disse que foi na floresta tropical, que eles estavam presos a uma árvore e que ainda não tinham sido identificados, acrescentou, adiantando ainda que, segundo o embaixador, a identificação dos corpos seria realizada quando houvesse luz suficiente.

Contudo, a Polícia Federal brasileira emitiu um comunicado a negar que os corpos dos dois tenham sido encontrados. A associação indígena Univaja, que denunciou o desaparecimento dos dois, também não confirmou estas informações.

As ameaças

A região onde a dupla desapareceu é particularmente perigosa, especialmente por questões que envolvem o tráfico de drogas, exploração ilegal de madeira e minério. 

Por essa razão, quando comunicou o desaparecimento, a Univaja citou supostas ameaças sofridas pela dupla. Aliás, segundo o G1, na última década Bruno Araújo Pereira foi o coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Atalaia do Norte, Amazonas, precisamente a mesma área onde foi visto pela última vez. O especialista abandonou o cargo em 2016, na sequência de um conflito registado entre povos isolados da região. Já em 2018 tornou-se coordenador-geral de Índios Isolados e de Recém Contatados da Funai, quando liderou a maior expedição para contacto com índios isolados dos últimos 20 anos. 

Segundo a Univaja, o funcionário federal recebia ameaças constantes. A entidade disse ao G1 que as ameaças vinham de madeireiros, mineiros e pescadores. Bruno foi entretanto exonerado do cargo em outubro de 2019, após pressão de sectores rurais ligados ao governo do presidente Bolsonaro.

O jornal O Globo teve acesso a uma carta enviada à organização por pescadores, que praticavam pesca de forma ilegal. A carta incluía ameaças de morte a Bruno Pereira: “Sei que são vocês que estão perseguindo os trabalhadores que pescam para sobreviverem, já estamos cansados dessa perseguição de vocês índio contra a família dos trabalhadores. Sei quem são vocês e vamos achar para acertar as contas. Sei que quem é contra nós é o beto índio e bruno da funai quem manda os índio irem para área prender nossos motores e tomar nosso peixe”. 

"Indícios de alguma maldade"

O desaparecimento do jornalista britânico e do especialista brasileiro está a desencadear uma onda de reações a nível internacional. Após uma semana de buscas e poucos resultados, organizações não-governamentais e organismos internacionais como o Gabinete dos Direitos Humanos da ONU e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos exortaram o Governo de Jair Bolsonaro a redobrar esforços para encontrar os desaparecidos.

Em Londres, manifestantes reuniram-se frente à Embaixada do Brasil, na quinta-feira, para exigir respostas sobre o desaparecimento.

No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro voltou a manifestar-se sobre o caso - fê-lo através do Twitter, onde reiterou a cooperação entre as forças de segurança brasileiras para encontrar os dois homens desaparecidos: "Instruí os meus auxiliares a não se distraírem com narrativas mediáticas para que possam concentrar todas as energias no acompanhamento dos trabalhos e nas buscas. Esses oportunistas só se querem promover com o caso. Nós queremos solucioná-lo e levar conforto aos familiares”, publicou. Contudo, esta segunda-feira Bolsonaro disse que “há indícios de que fizeram alguma maldade” com os desaparecidos.

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