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Saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP é uma "jogada política" que "pode travar a subida de preços do petróleo"

29 abr, 07:00
Tanques de petróleo (AP)

Decisão não vai ter "efeitos imediatos" na produção e nos preços do petróleo, mas "no médio e longo prazo pode ter um grande impacto", admite António Costa Silva, antigo ministro da Economia. Ricardo Marques, analista de mercados, estima que esta saída- pode mesmo "ajudar a que os preços baixem"

A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP e da OPEP+ é sobretudo uma “jogada política” para “reforçarem a sua posição” no Médio Oriente, mas que não terá, para já, impactos a nível económico, nomeadamente ao nível da produção e dos preços do petróleo, segundo especialistas ouvidos pela CNN Portugal. 

Na prática, explica António Costa Silva, antigo ministro da Economia, com esta decisão, os Emirados Árabes Unidos ficam “libertos do sistema de quotas” da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que limitava a sua produção “a quatro milhões de barris por dia”.

Sendo a Arábia Saudita a maior produtora de petróleo do mundo - por comparação, produz 10 milhões de barris por dia - é ela que “impõe as regras das quotas de produção para cada um” dos atuais 12 membros da organização, sublinha Ricardo Marques, analista de mercados e especialista em petróleo. “E, no fundo, os Emirados querem ter liberdade de produzirem o que quiserem”, acrescenta.

Ou seja, os Emirados Árabes Unidos deixam de estar sujeitos aos limites impostos pela Arábia Saudita e passam a extrair petróleo ao seu próprio ritmo. “Eles têm capacidade para aumentar bastante mais a sua produção” de petróleo, observa António Costa Silva, apontando que só os Emirados detêm “cinco dos grandes campos produtores de petróleo do Golfo Pérsico” e, por isso, “podem aumentar bastante a sua produção acima dos quatro milhões de barris por dia”.

Nesta altura, porém, esta decisão “vai ter pouco” ou “nenhum impacto” a nível da produção de petróleo e dos preços do petróleo, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal. É que os ataques às infraestruturas energéticas nos países do Golfo e o bloqueio do Estreito de Ormuz fizeram com que “a cada cinco dias, faltem 100 milhões de barris de petróleo no mercado mundial, com impactos brutais no custo dos combustíveis”, aponta António Costa Silva.

“Nesta altura, é preciso todo o petróleo e mais algum, e não adianta os Emirados produzirem a mais porque não conseguem escoar”, acrescenta Ricardo Marques.

O ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Al Mazrouei, reconheceu isso mesmo em declarações à CNN, ao referir que a decisão foi tomada agora porque o Estreito de Ormuz está fechado e o impacto desta saída no mercado petrolífero será limitado.

“O momento é oportuno porque não terá impacto significativo no mercado e no preço, uma vez que o Estreito de Ormuz está fechado e com restrições”, justificou. “Portanto, todos estão limitados, incluindo nós, mas tomar a decisão agora ajudará todos os nossos aliados a não sentirem a pressão sobre o preço.”

Mas o cenário pode mudar dentro de “um ou dois anos”, estima António Costa Silva, acreditando que este é o tempo que vai demorar até se “restabelecer a situação no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico” e voltarmos a assistir a um ciclo normal de produção de petróleo.

“No médio e longo prazo, pode ter um grande impacto”, antevê o antigo ministro da Economia. “Se voltarmos a um ciclo normal de produção de petróleo, é evidente que os Emirados vão produzir bastante mais e isso vai ter reflexos no mercado mundial, no sentido de pressionar os preços em baixa, porque vai haver mais oferta.” 

Ricardo Marques concorda que os efeitos desta decisão só serão sentidos “a médio e longo prazo”, estabelecendo o mesmo prazo que António Costa Silva: “Daqui a um ou dois anos, [a saída dos Emirados da OPEP] poderá ajudar a travar uma subida de preços, ou mesmo ajudar a que os preços baixem.”

Decisão dos Emirados deixa OPEP numa situação "fragilizada"

Neste contexto, a OPEP fica numa situação “muito mais fragilizada”, acredita Ricardo Marques, considerando, tal como António Costa Silva, de que esta parece ser “uma questão mais de disputa regional” do que propriamente económica. O analista de mercados admite ter ficado surpreendido com os ataques do Irão contra as infraestruturas energéticas dos países parceiros da OPEP.

"Há uma situação que me faz alguma confusão, que é ter um país da OPEP, que é o Irão, a atacar militarmente outros parceiros da OPEP, como a Arábia Saudita, o Kuwait, o Iraque e os Emirados. Portanto, ninguém sabe como é que isto vai acabar, mas eu calculo que as relações entre o Irão e os outros membros da OPEP não fiquem propriamente cordiais", antecipa Ricardo Marques.

O antigo ministro da Economia diz mesmo que esta saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP “já era previsível”, não por causa dos ataques do Irão, mas tendo em conta os atritos com a Arábia Saudita.

“Sobretudo nos últimos anos, houve um choque entre a liderança política dos Emirados, do sheik Mohammed Bin Zayed e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman”, observa. 

Os dois países “sempre foram parceiros”, mas nos últimos anos assiste-se a “uma cisão cada vez maior” entre ambos, aponta António Costa Silva, desde logo no que diz respeito aos conflitos regionais. “Eles estão sempre de lados opostos da barricada - por exemplo, na Líbia, no Sudão, noutros países africanos. E a gota que fez transbordar o copo foi a intervenção que os Emirados tiveram, sob a orientação do sheik Mohammed Bin Zayed, na guerra do Iémen”, onde os Emirados “apoiaram um ou dois grupos de insurgentes, que, inclusive, atacaram as fronteiras da Arábia Saudita”, explica o antigo ministro.

É neste contexto que António Costa Silva acredita que esta decisão dos Emirados Árabes Unidos “é uma jogada política, para reforçar a sua posição na região” no Médio Oriente, de modo a estabelecer-se como “um polo alternativo à hegemonia que representa a Arábia Saudita”.

No meio disto tudo, o antigo ministro da Economia considera que “os EUA são, do ponto de vista do mercado do petróleo, um dos grandes vencedores deste conflito”, porque “desestabilizaram completamente o Golfo Pérsico, que está paralisado na sua produção”, e conseguiram, assim, o estatuto de “maior produtor mundial de petróleo” atualmente.

“Os EUA estão a produzir 14 milhões e meio de barris por dia, muito à frente da Arábia Saudita. E são os maiores produtores mundiais de gás”, destaca António Costa Silva, sublinhando que nos últimos dias assistiu a um “fenómeno impensável há alguns anos”, quando “68 navios superpetroleiros atracaram nos portos americanos para serem carregados com petróleo e gás”, quando, antes da guerra no Irão, “a média era à volta de 28”. “É quase mais do dobro, portanto os EUA estão a capitalizar muito com isto”, argumenta.

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