Gigantes da inteligência artificial entram em bolsa sob enorme pressão. OpenAI e Anthropic preparam-se para enfrentar o verdadeiro teste de Wall Street
Tal como a Space X, a OpenAI e a Anthropic terão em breve um novo patrão a quem prestar contas: Wall Street.
A criadora do ChatGPT, a OpenAI, é a mais recente gigante da inteligência artificial a anunciar planos para entrar em bolsa, depois de a Anthropic ter revelado há dias que apresentou confidencialmente a documentação para uma Oferta Pública Inicial (IPO). A SpaceX, que inclui a empresa de IA xAI de Elon Musk, estreou-se nos mercados na sexta-feira. As três operações são vistas como a oportunidade mais próxima de observar o verdadeiro estado do mercado da inteligência artificial — e poderão movimentar centenas de milhares de milhões de dólares em vendas de ações.
Mas isso significa também que os seus negócios de IA, já avaliados perto da fasquia do bilião de dólares, estarão sujeitos a um nível de escrutínio sem precedentes, numa altura em que Wall Street exige crescimento explosivo de três em três meses.
“As expectativas que parecem geríveis nos mercados privados podem tornar-se implacáveis sob os holofotes da propriedade pública”, diz à CNN Nigel Green, CEO da consultora financeira deVere Group.
Wall Street quer sempre mais
Wall Street já tem expectativas elevadíssimas para a inteligência artificial, deixando pouca margem para resultados que não sejam extraordinários trimestre após trimestre. Um exemplo é a Broadcom, que anteriormente estabeleceu parcerias com a OpenAI e a Anthropic. A empresa apresentou resultados impressionantes: crescimento de receitas de 48% no segundo trimestre e uma expansão esperada de 180% no negócio dos semicondutores face ao ano anterior. Ainda assim, isso não foi suficiente para convencer os investidores. As ações da Broadcom caíram mais de 13% na semana passada, registando o pior desempenho semanal desde setembro de 2024.
As ações ligadas aos chips para IA acompanharam a queda. O Nasdaq recuou durante três sessões consecutivas e o S&P 500 registou o pior dia desde outubro. Um fundo cotado em bolsa (ETF) que acompanha ações de fabricantes de chips de memória perdeu 15% numa semana.
“As pessoas querem mais”, explica à CNN Stacy Rasgon, analista da Bernstein que acompanha o mercado de semicondutores. “Querem sempre mais.”
Nem sequer a Nvidia, atualmente a empresa cotada mais valiosa do mundo, escapou a este tipo de pressão. Em janeiro de 2025, a fabricante de chips para IA perdeu um valor recorde de 600 mil milhões de dólares em capitalização bolsista num único dia, após a entrada no mercado da concorrente chinesa DeepSeek.
Mais escrutínio para a IA
A OpenAI e a Anthropic deverão ser avaliadas segundo critérios semelhantes, funcionando como verdadeiros barómetros do crescimento da indústria da inteligência artificial. Wall Street procurará também sinais de que ambas dispõem de recursos financeiros suficientes para suportar os investimentos maciços em infraestruturas de IA.
As duas empresas já divulgaram alguns indicadores do seu crescimento, embora o tenham feito por iniciativa própria e não por obrigação legal.
A OpenAI anunciou que captou 122 mil milhões de dólares em março, elevando a sua avaliação para 852 mil milhões de dólares. Nesse mesmo mês, revelou estar a gerar receitas de 2 mil milhões de dólares por mês, um salto significativo face aos mil milhões de dólares por trimestre anteriormente reportados.
O ChatGPT tornou-se também, no mês passado, a aplicação mais rápida de sempre a atingir mil milhões de utilizadores, segundo a empresa de análise Sensor Tower. Aplicações como Google Maps, TikTok ou YouTube demoraram entre cinco e oito anos a alcançar esse marco, enquanto o ChatGPT o conseguiu em cerca de três anos.
A Anthropic viu a sua avaliação subir de 380 mil milhões de dólares em fevereiro para 965 mil milhões em maio, ultrapassando a OpenAI, segundo a própria empresa. No mês passado, anunciou ainda ter alcançado uma receita anualizada de 47 mil milhões de dólares, uma métrica que projeta receitas anuais futuras com base nos dados financeiros atuais. Pela primeira vez, mais empresas utilizaram os serviços da Anthropic do que os da OpenAI em maio, de acordo com a fintech Ramp.
O verdadeiro teste começa agora
A entrada em bolsa poderá indicar que OpenAI e Anthropic estão suficientemente confiantes no seu caminho para a rentabilidade para enfrentarem o escrutínio dos mercados financeiros. As duas empresas não responderam de imediato ao pedido da CNN para comentar o calendário dos respetivos processos de IPO.
Mas os números são apenas o começo. Os analistas deverão pressionar o CEO da OpenAI, Sam Altman, e o CEO da Anthropic, Dario Amodei, durante as apresentações de resultados, procurando sinais de crescimento ilimitado e de novas oportunidades de negócio.
Isso significa que poderão ter de responder publicamente a questões como atrasos no lançamento de novos modelos, estratégias para transformar esses modelos em produtos pagos ou mudanças de rumo nos produtos. Decisões como o encerramento da aplicação de vídeo Sora por parte da OpenAI deverão enfrentar um nível de questionamento muito mais intenso.
“Os investidores privados podem apostar numa visão e esperar anos pelos resultados”, observa Green. “Os mercados públicos raramente oferecem esse luxo.”
