"Pode sair da sala, talvez seja mais fácil não ouvir a verdade": o momento em que o embaixador russo na ONU abandonou a reunião do Conselho de Segurança

7 jun, 04:52

Vassily Nebenzia, o representante da Rússia na ONU, não gostou das acusações de Charles Michel sobre a responsabilidade russa na crise alimentar mundial. Pela primeira vez desde o início da guerra, abandonou uma reunião do Conselho de Segurança. "O enviado de Putin nunca esteve tão nervoso", reagiu o representante da Ucrânia

Vassily Nebenzia, o embaixador da Rússia na ONU, abandonou ontem a reunião do Conselho de Segurança, em protesto pelas acusações lançadas contra o seu país pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel. O representante da UE acusou a Rússia de ser a única responsável pela crise alimentar mundial, por utilizar os cereais ucranianos como uma arma de guerra: a Rússia tem bloqueado os portos ucranianos através dos quais os grãos eram exportado, tem atingido infraestruturas de armazenamento e transporte ferroviário de cereais, e tem desviado para o seu território ou para venda a terceiros trigo e outros grãos armazenados na Ucrânia - factos denunciados pelas autoridades ucranianas e por representantes da ONU, bem como por organizações não-governamentais de diversas nacionalidades.

Perante as acusações de Charles Michel, Nebenzia levantou-se e saiu da sala de forma tempestuosa, o que mereceu um comentário imediato do presidente do Conselho Europeu: "Pode sair da sala, talvez seja mais fácil não ouvir a verdade".

You may leave the room, maybe it's easier not to listen to the truth, dear Ambassador #Nebenzia @RussiaUN@UN #SecurityCouncil #UNSC pic.twitter.com/aeb1OF4y6T

Também o representante permanente da Ucrânia na ONU, Sergei Kyslytsia, comentou o momento pouco diplomático de Nebenzia: "O enviado de Putin nunca esteve tão nervoso", disse o embaixador ucraniano.

No Twitter, Kyslytsia escreveu mais tarde: "É importante que a delegação russa continue a aparecer nas reuniões do Conselho de Segurança sobre a Ucrânia. Como uma espécie de reuniões pré-julgamento, elas são valiosas porque são registradas: tudo o que é dito pelos cúmplices de crimes pode e será usado ​​contra eles em tribunal."

 

"Mentiras", queixa-se o embaixador russo

O representante russo explicou depois, em declarações aos jornalistas, que "não podia ficar" na reunião perante o que estava a ser dito por Michel, que Nebenzia acusou de estar a "mentir". "Charles Michel veio aqui propagar mentiras", acusou o embaixador de Moscovo, "visivelmente irritado", segundo o relato da agência Reuters.

Num discurso muito duro perante os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, Charles Michel falou diretamente para o embaixador russo, que pouco antes havia negado todas as acusações que têm sido lançadas sobre a Rússia, à semelhança do que tem feito desde o primeiro dia da invasão. A existência de uma guerra, a destruição de cidades inteiras, o bombardeamento de bairros de habitação, a morte de milhares de civis, as violações de mulheres, crianças e homens ucranianos por parte dos soldados russos, o roubo e o saque da propriedade dos civis ucranianos, a utilização dos cereais ucranianos como arma de guerra - tudo tem sido negado pelo embaixador russo, e voltou a sê-lo ontem.

 

"Senhor embaixador, sejamos honestos"

"Senhor embaixador da Federação Russa, sejamos honestos", disse Charles Michel falando diretamente para o representante da Federação Russa. "O Kremlin está a utilizar fornecimentos alimentares como mísseis invisíveis contra países em desenvolvimento. As consequências dramáticas da guerra da Rússia estão a espalhar-se pelo mundo e a empurrar a crise alimentar, a pobreza e a desestabilização de toda a região. A Rússia é totalmente responsável por esta crise. Apesar da campanha de mentira e desinformação do Kremlin."

E prosseguiu: "Milhões de toneladas de cereais estão à espera em contentores e navios porque há navios russos no Mar Negro. São os ataques russos que estão a destruir as infraestruturas da Ucrânia, e os tanques, bombas e minas russos estão a impedir a Ucrânia de semear e colher. O Kremlin está também a atacar celeiros e a roubar cereais da Ucrânia, culpando outros", disse Charles Michel.

Face às acusações russas de que a crise alimentar não se deve à invasão russa, mas às sanções da UE e dos EUA, o representante dos 27 lembrou que "a UE não tem sanções para o setor agrícola na Rússia. Zero. E mesmo as nossas sanções ao setor dos transportes russo não ultrapassam as nossas fronteiras da UE. Elas não impedem os navios com bandeira russa de transportar cereais, alimentos ou fertilizantes para países em desenvolvimento."

Foi nesta altura que o embaixador russo se levantou e saiu da sala, deixando cair a sua habitual pose impenetrável pela primeira vez desde o início da guerra russa na Ucrânia. 

 

Violações em grupo; familiares obrigados a assistir

Apesar de ter sido a questão do bloqueio russo aos cereais ucranianos a "gota de água" que marcou a reunião, esta foi agendada com outro tema como prioridade: a violência sexual que os invasores russos têm exercido sobre a população civil da Ucrânia. Charles Michel acusou as tropas russas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, citando especificamente relatos de violência sexual e descrevendo-a como "uma tática de tortura, terror e repressão".

Durante sua declaração no início da reunião, Nebenzia "refutou categoricamente" quaisquer acusações de violência sexual por soldados russos, condenando o que ele disse ser uma "mentira". Porém, os factos sobre inúmeros casos de violações e outros tipos de violência sexual foram enumerados pelo embaixador da Ucrânia, e confirmados pela representante das Nações Unidas.

Segundo Pramila Patten, a Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para a Violência Sexual em Conflitos Armados, são cada vez mais as queixas de violência sexual que chegam da Ucrânia, tendo já chegado ao seu gabinete 124 queixas de alegados atos desta natureza.

Contrariando as negações russas, Patten disse que mulheres e raparigas constituem a maioria das alegadas vítimas, mas há também casos de violência sexual sobre homens e rapazes. O seu gabinete já recebeu "múltiplas denúncias chocantes que vão desde violação em grupo, até coerção, em que os entes queridos são obrigados a assistir a um ato de violência sexual cometido contra um parceiro ou uma criança."

A representante da ONU alertou ainda que, entre os quase 6,8 milhões de pessoas deslocadas pela guerra, são "alarmemente evidentes" os riscos de tráfico de pessoas, nomeadamente para fins de exploração sexual e prostituição de mulheres e crianças.

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