A realidade segundo Donald Trump ou um resumo do discurso proferido pelo presidente dos EUA na 80.ª Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, que teve três grandes alvos: a própria ONU, os imigrantes e o seu antecessor no cargo
Foi o primeiro discurso de Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas neste segundo mandato. O seu primeiro grande alvo: as próprias Nações Unidas, que nas palavras do presidente dos Estados Unidos estão decrépitas, com escadas rolantes aos soluços e telepontos que não funcionam porque não quiseram seguir o seu conselho em obras de remodelação. Pior do que isso, sublinha Trump, “estão a financiar um ataque aos países ocidentais e às suas fronteiras”, porque "ajudam imigrantes ilegais a infiltrarem-se na fronteira sul" dos EUA e "financiam” os que estão a invadir os outros países ricos.
Essa, contudo, “já não é a realidade nos EUA”, graças a ele, Donald Trump. Antes de ter vencido as presidenciais de novembro passado, o país estava a braços com “uma invasão colossal da fronteira sul,” mas, “em apenas quatro meses seguidos, o número de imigrantes ilegais foi zero”.
“É difícil de acreditar, há um ano tínhamos milhões de pessoas a jorrar de prisões de todo o mundo, de instituições para doentes mentais, a virem para os EUA”, adiantou. “A nossa mensagem é muito simples: se vierem ilegalmente, ou vão para a prisão ou vão voltar para de onde vieram ou vão voltar para ainda mais longe – sabem o que isso significa.” Aqui, Trump aproveitou para “agradecer a El Salvador por receber tantos criminosos” que tinham entrado nos EUA.
Como a Europa não segue o seu caminho, “está em sarilhos”, avisou. “Tem estrangeiros a entrar a rodos e não é sustentável”, isto porque “escolhem ser politicamente corretos e não fazem absolutamente nada quanto a isto”. Trump olha para Londres, que tem como presidente de Câmara “um homem terrível, mesmo terrível”, onde agora “querem impor a Sharia”. Trump olha para os países europeus e vê que a maioria da população prisional é estrangeira – diz ele, a título de exemplo, 50% dos presos na Áustria, 72% dos presos na Suíça. “Estes países vão para o inferno, a imigração é a possível morte do Ocidente” – e tudo com o “impulso da ONU”.
Também graças a Trump, segundo Trump, “a América é novamente respeitada”. Num discurso onde pulularam os ataques não apenas à ONU mas também ao seu antecessor, “sleepy Joe Biden”, o chefe de Estado norte-americano congratulou-se por ter acabado com “sete guerras em sete meses”, nomeando algumas, até inexistentes, como “a guerra entre a Sérvia e o Kosovo” ou “a guerra entre o Egito e a Etiópia”.
Da lista não consta nem a guerra de Israel na Faixa de Gaza, nem a guerra da Rússia na Ucrânia. Sobre a primeira, sem surpresas, Trump criticou os vários países que, nos últimos dias, na véspera desta Assembleia Geral em Nova Iorque, avançaram com o “reconhecimento unilateral” do Estado da Palestina – “é premiar as horríveis atrocidades do Hamas” quando “o mundo devia estar unido em torno de uma só mensagem”. A mensagem: o Hamas tem de devolver os últimos 20 reféns e os 38 corpos daqueles que morreram em cativeiro. “Estou muito empenhado em alcançar um cessar-fogo em Gaza, temos de acabar com aquilo rapidamente.” Não é bem certo o que “aquilo” significa para Trump, que não esconde os planos para criar na Faixa de Gaza uma “riviera do Médio Oriente”.
Sobre a guerra na Ucrânia, Trump também tem, segundo Trump, “trabalhado sem descanso para acabar com a matança” – “das sete guerras a que pus fim achei que essa seria a mais fácil, por causa da minha boa relação com o presidente Putin, mas na guerra nunca sabemos o que vai acontecer, há sempre muitas surpresas, para o bem e para o mal”. Para o mal de Putin, adiantou, a guerra não acabou “em três dias” como muitos disseram – mas também não acabou num mês, como o presidente chegou a prometer durante a campanha presidencial.
E porque a guerra na Ucrânia continua em curso, Trump disse estar “preparado para aplicar tarifas muito pesadas à Rússia”, mas só quando “as nações europeias se juntarem [aos EUA] na adoção das mesmas medidas”. Só que “China e Índia e até países da NATO continuam a comprar produtos energéticos russos” – “descobri isso há duas semanas e não fiquei feliz, estão a financiar a guerra contra si próprios”. Os EUA estão protegidos da Rússia por um oceano, adiantou, mas os europeus não. “Vamos discutir isso hoje, as nações europeias devem estar ansiosas por me ouvir, mas é isto que eu faço, digo o que penso e digo a verdade.”
Os "grandes flagelos do mundo" segundo Trump
Um dos grandes perigos que o mundo enfrenta, segundo Donald Trump, são as armas biológicas e nucleares, que podem fazer com que "o mundo literalmente chegue ao fim, não haveria ONU, não haveria nada". E foi por isso que a sua administração decidiu "liderar um esforço internacional para aplicar a convenção de armas biológicas", anunciou, e será com esse objetivo que irá encontrar-se "com líderes de topo mundiais" para, "com recurso à AI, que pode ser uma das melhores coisas de sempre, mas também pode ser perigosa", combater esse tipo de armamento.
Foi também por causa desse armamento, concretamente o nuclear, que decidiu atacar o Irão, justificou, como foi para "proteger os cidadãos da América" que decidiu lançar um ataque na Venezuela para matar "violentos senhores da droga" que "inundam os EUA" com o produto. A verdade para Donald Trump, contudo, é que “o grande flagelo do mundo” é outro.
"São as migrações", repetiu, mas "também a energia verde", porque há países como a China que não têm de cumprir os mesmos critérios que outros e porque o resto do Ocidente é demasiado "politicamente correto", adiantou. “Ao contrário da América, muitos países na Europa estão à beira da destruição por causa da agenda de energia verde.” Deu como exemplo o caso da Alemanha, que está a caminho da bancarrota por causa dos imigrantes e por causa da transição energética. Na Casa Branca já não se diz apenas “carvão”, diz-se “carvão lindo e limpo, porque soa melhor” – até porque os EUA de Trump, ao contrário de tantos outros países, não papam “o maior embuste já perpetrado contra o mundo que são as alterações climáticas, inventadas por pessoas estúpidas”.
E se as outras 192 nações da ONU queriam mais lições, Trump deu-as e convidou os seus líderes a irem à capital norte-americana jantar com ele em restaurantes para verem com os próprios olhos mais um fruto do seu trabalho incrível: “Estou aqui em Nova Iorque, estamos a reduzir o crime – e falando em crime, Washington DC era a capital do crime da América e agora, em 12 dias, é uma cidade totalmente segura”, graças às tropas que mobilizou para as ruas. “Liguei à Guarda Nacional, deram conta do recado, tirámos 1.700 criminosos de carreira das ruas e pusemo-los na prisão. Washington DC é, outra vez, uma cidade segura. Já podemos andar na rua, já não temos de andar em carros blindados.”
Por tudo isto, mas sobretudo pelas guerras a que pôs fim, “muitos dizem” que é a Donald Trump que o Nobel da Paz 2025 deve ser atribuído. Mas ele não pensa nisso.
“É triste ter de ser eu a parar as guerras e nunca recebi sequer um telefonema da ONU. Estava demasiado ocupado a trabalhar para salvar milhões de vidas, mais tarde percebi que a ONU não estava lá para nós. Qual é o propósito da ONU, que tem tanto potencial? Tudo o que parecem fazer é escrever cartas com palavras duras – palavras ocas que não resolvem guerras, a única coisa que resolve guerras é ação. Agora, depois de acabar com estas guerras e de negociar os Acordos de Abraão – muito importantes, mas pelos quais os EUA não receberam qualquer agradecimento – muitos dizem que eu devia receber o Nobel da Paz. Para mim, o verdadeiro prémio é que filhos e filhas vão crescer com as suas mães e pais porque milhões de pessoas já não vão ser mortas nestas guerras. O que me importa não é ganhar prémios, é salvar vidas.”