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"Sem paz, o desenvolvimento é uma utopia". Rafael Grossi quer ONU mais focada nas negociações de paz

Agência Lusa , MSM
29 mai, 14:31
Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atómica, em Zaporizhzhia  (AP Photo/Andriy Andriyenko)
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O diretor-geral da AIEA está na corrida à sucessão de António Guterres como candidato a secretário-geral da ONU

O candidato a secretário-geral da ONU Rafael Grossi defendeu que a prioridade da organização deve ser a paz e a segurança, num contexto internacional marcado por guerras que estão a fragilizar ainda mais o sistema multilateral.

"Devido à realidade atual, é necessário sermos mais ativos neste momento em matéria de paz e segurança, pois a guerra entre Estados regressou de forma violenta à Europa, ao Médio Oriente, à Ásia e a África. E sem paz, o desenvolvimento é uma utopia", afirmou Grossi, numa entrevista à agência Lusa em Londres a propósito da corrida à sucessão de António Guterres.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) admitiu que a instituição enfrenta uma “crise profunda”, não apenas financeira, mas também política e de credibilidade, e que isso exige uma mudança de rumo.

"Temos de reconhecer que existe uma enorme lacuna de credibilidade e de confiança na instituição", avançando ter escutado um dirigente internacional questionar a existência da ONU dentro de 20 anos.

Isto "é uma manifestação do prolongado declínio da ONU ao longo dos últimos anos, não apenas no passado recente", considerou.

Grossi disse acreditar que há "tempo para reagir, mas isso exige mudança, não fazer o mesmo, porque o mesmo não vai resultar": "nem nos vai tirar da situação em que estamos".

Sobre o tipo de liderança de que a ONU necessita, o diplomata argentino, de 65 anos, defendeu uma abordagem mais ativa e pragmática.

"É tempo de um tipo diferente de liderança na ONU, que reconheça o que está a acontecer, que tenha experiência real em paz e segurança, que seja uma pessoa do terreno, que vá para onde estão os problemas", vincou.

Grossi considerou ter o perfil necessário de interlocutor ativo e experiente para enfrentar a atual fragmentação internacional, tendo em conta a competência da AIEA nos anos em que esteve à frente, desde 2019, para gerir conflitos.

"Conseguimos interagir, mediar a sério em cenários de guerra no Médio Oriente, na Rússia e na Ucrânia, em lugares onde era necessário falar com líderes beligerantes", disse à Lusa.

No seu entender, "ser aceite e procurar soluções" é uma qualidade essencial para o cargo de secretário-geral.

Na vertente financeira, o candidato lamentou que os problemas da ONU também reflitam uma quebra de confiança na gestão, apontando tensões com o principal financiador, os Estados Unidos.

"Há uma crise de liquidez, e os norte-americanos decidiram esperar para ver quem ficará no comando antes de reavaliar a sua abordagem à ONU", explicou, mostrando-se confiante de que será capaz de reatar o diálogo com a administração do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Questionado sobre a expetativa de uma mulher ser finalmente escolhida para o cargo pela primeira vez em 80 anos, Grossi sustentou que a escolha deve assentar no mérito.

"Deixem os Estados-membros decidir, com base na visão, no percurso e no mérito, quem é a melhor pessoa", argumentou.

Sobre António Guterres, deixou palavras de apreço, salientando um percurso de mais de uma década ao serviço das Nações Unidas, durante o qual transformou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e foi "incansável nos seus esforços em prol da paz".

Reconhecendo que o português exerceu funções num período particularmente difícil, marcado pela pandemia da covid-19 e pelo agravamento das tensões com os Estados Unidos, considerou que "será bem recordado como um estadista dedicado, um estadista pela paz".

Além de Rafael Grossi, os cinco candidatos ao cargo de secretário-geral da ONU são a antiga presidente chilena Michelle Bachelet, a antiga vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan, a antiga ministra dos Negócios Estrangeiros equatoriana María Fernanda Espinosa e o ex-presidente senegalês Macky Sall.

O próximo secretário-geral da ONU assumirá o cargo a 1 de janeiro de 2027.

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