Esta nova comédia romântica capta o espírito extremamente sensual de 2026

CNN , David Mack
15 ago, 09:00
One Night Only
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O apetite por conteúdos mais picantes tem vindo a crescer há anos, como demonstra também o número crescente de livrarias especializadas em romances por todo os Estados Unidos da América

O entretenimento pode muitas vezes ser uma forma de desligarmos do mundo. Este ano, aquilo que temos visto nos ecrãs tem sido frequentemente pensado para nos excitar. Dos prazeres sensuais de ‘Wuthering Heights’ (‘O Monte dos Vendavais’, em português) às cenas de duche escaldantes de Heated Rivalry, o sexo tem estado no centro de uma série de êxitos recentes, de formas que, no passado, talvez os tivessem impedido de se tornar fenómenos culturais mainstream. É seguro dizer que a excitação sexual está a viver um momento de glória.

Entra agora em cena o próximo concorrente pela nossa atenção e pelas nossas fantasias: ‘One Night Only’ (‘Apenas uma Noite’, em português), uma comédia romântica recém-estreada que está muito alinhada com esta tendência provocadora. Protagonizado pela nomeada para um Óscar Monica Barbaro e por Callum Turner (também conhecido como marido de Dua Lipa), o filme acontece num universo em que um governo conservador aprovou uma lei que proíbe o sexo entre pessoas solteiras - exceto numa noite por ano, durante a qual lhes é permitido dar largas aos desejos uns com os outros em restaurantes, no metro e em parques públicos. É certo que a premissa é ridícula - e já deu origem a uma série de piadas recentes na internet -, mas garante que o filme ‘One Night Only’ está repleto de desejo e luxúria, algo que certamente agradará a um público mais excitado.

“É uma daquelas premissas tão disparatadas e engraçadas porque a sinopse fácil é dizer que é o ‘The Purge’, mas para o sexo”, diz Sophia Benoit, romancista especializada em romances e colunista de sexo, que tem estado entre os que se deleitam com a oferta de entretenimento de 2026. “Sinto muitas vezes que estou a votar com o dinheiro que gasto no cinema: por favor, façam mais coisas assim.”

Em 'One Night Only', Monica Barbaro e Callum Turner vivem num mundo onde o sexo entre pessoas solteiras é legal apenas por uma noite em todo ano. (Imagem: Nicole Rivelli/Universal Pictures)

Tal como as personagens de ‘One Night Only’, espectadores como Benoit têm estado, de certa forma, privados de sedução até à ofensiva deste ano. O nível de conteúdo sexual na maioria dos filmes caiu quase 40% entre 2000 e 2023, segundo um estudo realizado pelo analista de dados cinematográficos Stephen Follows sobre os 250 filmes com maior bilheteira de cada ano, publicado na revista Economist. O site Kids-in-Mind.com, que classifica filmes estreados nos cinemas para benefício dos pais, forneceu à CNN dados que mostram que a percentagem de filmes com uma classificação de pelo menos 8 em 10 na sua escala de sexo e nudez caiu de 8% em 2016 para entre 2% e 3% no período de 2019-2023, antes de subir ligeiramente para 4%-6% em 2024-25, o último ano para o qual existem dados disponíveis.

Há cinco anos, a escritora cultural RS Benedict analisou o panorama cinematográfico e concluiu que as coisas estavam tão desoladoras que escreveu um ensaio viral para a revista digital Blood Knife, intitulado ‘Everyone is Beautiful and No One is Horny’ (‘Toda a gente é bonita e ninguém está excitado’). Ao comparar os maiores filmes das décadas de 2010, 1980 e 1990, Benedict argumentava que, embora os físicos dos atores modernos tivessem sido aperfeiçoados até atingirem níveis de beleza quase impossíveis, as suas personagens eram frequentemente super-heróis virtuosos com corpos de Adónis, mas com a libido de limões. ‘Ninguém se sente atraído por mais ninguém. Ninguém deseja mais ninguém’, lamentava.

Agora, as coisas parecem subitamente muito diferentes. O enorme sucesso de ‘Heated Rivalry’ - e, em menor medida, de ‘Off Campus’ - levou Hollywood a correr para produzir réplicas, ao mesmo tempo que ‘Love Island USA’, um programa em que pessoas atraentes competem formando casais, se tornou o reality show mais comentado do país. Até os rapazes do outrora extremamente inocente ‘Heartstopper’ estão agora a envolver-se em situações bem mais ousadas.

O erotismo também abunda no grande ecrã - a tal ponto que ‘A Odisseia’ está a ser criticado pela sua castidade surpreendente. Em ‘Os Montes dos Vendavais’, os corpetes foram rasgados e, no romance BDSM Pillion, houve quem lambesse botas. O filme de Olivia Wilde sobre casais que praticam swinging, The Invite (‘O Convite’, foi um sucesso junto da crítica, enquanto Wilde também interpreta uma amante dominante no recém-estreado ‘I Want Your Sex’ (sem tradução para o cinema português). O público pode ainda aguardar por ‘Verity’, thriller erótico com Anne Hathaway e Dakota Johnson, que estreia em outubro, e por ‘Wicker’, uma comédia de fantasia em que Olivia Colman encontra satisfação sexual com um marido feito de vime, interpretado por Alexander Skarsgård. Uma comédia sobre a criação do manual sexual de 1972 ‘The Joy Of Sex’ também acaba de receber luz verde.

“Acho bastante entusiasmante ver o sexo a regressar”, disse Benedict numa entrevista.

Connor Storrie e Hudson Williams tornaram-se superestrelas globais graças às suas cenas picantes em 'Heated Rivalry'. (Imagem: Sabrina Lantos/HBO Max)

Como Benedict tinha observado, o desaparecimento do sexo dos nossos ecrãs coincidiu com a transformação do Universo Cinematográfico Marvel numa força cultural dominante e com o declínio dos filmes de orçamento médio destinados a adultos. Para proteger os resultados financeiros, os estúdios começaram a apostar em filmes baseados em propriedades intelectuais de confiança, com o máximo de apelo possível para diferentes idades, grupos demográficos e mercados estrangeiros. “Hollywood começou a alimentar esta nova geração com personagens assexuadas”, queixa-se Richard Linklater, realizador de filmes como a trilogia ‘Before’ e ‘Boyhood’, bem como do sensual ‘Hit Man’, de 2023, ao Times. “Os super-heróis não fazem sexo. Francamente, nem sequer têm genitais.”

O movimento #MeToo, em 2017, mudou a abordagem de Hollywood às cenas de amor, proporcionando maiores proteções aos intérpretes através da utilização de coordenadores de intimidade. Mas Benoit, a colunista de sexo, acredita que a indústria compensou excessivamente noutros aspetos, inclinando-se demasiado para o puritanismo. 

Suspeita que Hollywood também possa ter tentado adaptar-se aos gostos da Geração Z, que, segundo alguns inquéritos, queria ver menos sexo no ecrã - embora existam opiniões divergentes sobre essa questão. “Havia uma espécie de atitude de punho fechado: ‘Bom, então não vos vamos dar nada!’ Quase como uma rigidez reacionária ou uma revogação do sexo e do erotismo”, diz Benoit. Observou que ‘Twisters’, de 2024, chegou a cortar um beijo na cena final entre os protagonistas, Glen Powell e Daisy Edgar-Jones, depois de o produtor executivo Steven Spielberg ter aconselhado contra a sua inclusão, embora os atores tenham dito que a decisão teve como objetivo manter o foco no arco narrativo da personagem de Edgar-Jones.

Esta súbita ascensão cultural não surgiu do nada. O apetite por conteúdos mais picantes tem vindo a crescer há anos, como demonstra o número crescente de livrarias especializadas em romances por todo os Estados Unidos (de apenas uma em 2016 para mais de 230 atualmente). Também foram lançadas as bases por obras populares e escaldantes como ‘Bridgerton’, ‘Saltburn’, ‘Challengers’ e o vencedor do Óscar ‘Poor Things’ (‘Pobres Criaturas’, em português). Os thrillers eróticos, um género que atingiu o auge nas décadas de 1980 e 1990, também têm vindo a regressar lenta mas consistentemente. Embora a revista britânica Dazed tenha declarado, em janeiro de 2025 - quase um ano antes da estreia de ‘Heated Rivalry’ -, que “everyone is horny now” (“toda a gente está excitada agora”), aquilo que parece diferente é o número impressionante de obras centradas no sexo que passaram a fazer parte do entretenimento mainstream.

“Acho mesmo que isto é diferente”, adianta Benoit sobre este momento cultural, que, na sua opinião, evoluiu para além das imagens gratuitas de seios ou das violações presentes em ‘Game of Thrones’ (‘A Guerra dos Tronos’). “Há muito mais narrativa romântica. É muito mais queer. Há mais ‘olhar feminino’.”

"Challengers" - estrelado por Zendaya, Mike Faist e Josh O'Connor - foi lançado em 2024 e provou que o público queria ver personagens mais ousadas. (Imagem: Metro Goldwyn Mayer Pictures)

Benoit observou que grande parte das obras atualmente lançadas foi concebida inicialmente no período imediatamente posterior ao levantamento das restrições da pandemia de Covid-19, quando as inibições sociais começavam a diminuir e o sentido de diversão estava a regressar. Esmé Louise James, historiadora do sexo e autora do livro ‘Kinky History’, também acredita que o impacto contínuo da pandemia é responsável pelos nossos gostos cada vez mais adultos. “Houve uma enorme mudança na nossa exploração sexual durante este período”, diz James, acreditando que isso também tornou mais fácil abordar estas conversas nos meios de comunicação mainstream.

Mas James acredita que poderão estar em ação forças ainda maiores. Ao longo da história, observa, tem havido uma procura consistente de conteúdos sexuais em períodos de convulsão política e social - como aconteceu durante a Revolução Francesa, que decorreu tendo como pano de fundo o surgimento da pornografia enquanto género comercial. Esta era de “grande perturbação global”, afirma James, não é diferente. “O sexo nos meios de comunicação funciona hoje de forma muito semelhante. É intrinsecamente político. É utilizado para chocar as pessoas, atraí-las, subverter expectativas e gerar conversas à escala global”, continua.

O filme ‘One Night Only’, embora seja mais casto do que alguns dos outros títulos que aqueceram este ano, procura claramente reproduzir o sucesso do anterior filme do realizador Will Gluck, ‘Anyone but You’ (‘Todos Menos Tu’), de 2023, a comédia romântica protagonizada por Powell e Sydney Sweeney que se tornou um “fenómeno mundial de bilheteira”, arrecadando 220 milhões de dólares. Tal como esse filme, a nova produção encontra grande parte da sua sensualidade na química e nas trocas de provocações divertidas entre os seus atraentes protagonistas. ‘One Night Only’ é sobretudo sobre o ato de desejar, algo que Benedict, a escritora cultural, suspeita que será igualmente excitante para os espectadores. “A antecipação é, por si só, uma grande emoção”, afirmou Benedict. “Estamos a criar a tensão. Isso torna o clímax - trocadilho ligeiramente intencional - ainda mais satisfatório.”

 

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