O calor mata e as cidades têm os seus próprios desafios: saiba quais os riscos e o que deve fazer

11 jul, 18:00
Calor

Esta semana, as temperaturas em Portugal podem chegar aos 48 graus e todos os cuidados são poucos. "As ondas de calor matam", lembra o médico Bernardo Gomes. Sobretudo nas cidades

Evitar a exposição direta ao sol e beber água: estes são os dois conselhos básicos para lidar com o calor extremo. Mas, perante dias consecutivos com temperaturas a rondar os 40º, isto pode não ser suficiente - sobretudo nas cidades onde a poluição, o excesso de construção e a falta de vegetação ainda fazem as temperaturas subir mais. Durante a vaga de calor desta semana, as temperaturas numa cidade como Lisboa vão ultrapassar os 40 graus e podem não cair abaixo dos 23º Celsius, mesmo à noite. A população que vive nestas áreas está, por isso, mais exposta a um stress térmico permanente de 24 horas. A situação complica-se principalmente para aqueles que vivem nos andares mais altos dos edifícios e para todos os que moram em habitações com baixo isolamento térmico.

Bernardo Gomes, médico especialista em Saúde Pública que tanto apontou o problema da ventilação dos edifícios por causa da covid-19, volta a sublinhar à CNN Portugal a importância de darmos atenção à forma como as nossas casas são pensadas e construídas. "Uma vez que, segundo os meteorologistas, as ondas de calor vão ser cada vez mais frequentes, seria bom fazermos este trabalho de prevenção, pensando mais na construção das habitações e de outros espaços. Quanto mais prevenirmos, menos teremos de recorrer a soluções ad-hoc, que não são tão eficazes e implicam enormes gastos de energia", diz. 

Como explicou à CNN Portugal Pedro Garrett, investigador da Universidade de Lisboa: "A nossa construção não está preparada para valores extremos de temperatura. Principalmente em ambiente urbano, durante o dia, os edifícios recebem muita energia que, durante a noite, é irradiada para dentro do próprio edifício e faz com que a temperatura dentro das casas raramente desça dos 20 graus. Isto pode causar um conjunto de problemas de saúde em pessoas mais idosas ou mais vulneráveis, com doenças respiratórias ou cardiorrespiratórias".

O segredo é procurar sítios frescos. Em casa, deve-se "recorrer aos truques alentejanos", diz Bernardo Gomes. Ou seja, aproveitar o período da noite e do início da manhã para arejar a casa e, depois, fechar as janelas e as persianas durante o dia para evitar a exposição solar e a entrada de ar quente. "Não adianta abrir as janelas se o ar lá fora continuar abafado", avisa.

Se não dispõe de ar condicionado e não consegue baixar a temperatura de casa, a Direção-Geral de Saúde aconselha a ida a centros comerciais, cinemas, museus ou outros locais de ambiente fresco.

Pessoas frágeis não devem estar sozinhas

Numa onda de calor, as pessoas mais frágeis são, como sempre, aquelas que já tenham outras patologias (como por exemplo diabetes ou doenças cardiovasculares) e, depois, os mais novos, os mais velhos e ainda os doentes acamados, que são aqueles que, "por falta de autonomia ou por falta de capacidade de percepção, não conseguem combater a desidratação, repondo os líquidos no seu organismo", explica o médico Bernardo Gomes. É muito importante, por isso, que estas pessoas não sejam deixadas desacompanhadas.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, em 2021, um terço dos agregados domésticos em Portugal tinham duas pessoas, enquanto um quarto eram pessoas que viviam sozinhas. Estima-se que, só em Lisboa, haja mais de 80 mil idosos a morar sozinhos ou com alguém da mesma idade, o que, só por si, representa uma situação de fragilidade, agravada depois por situações de incapacidades físicas ou psicológicas.

No caso dos idosos, é preciso insistir para que bebam mais água do que o normal, porque à medida que a idade avança, o reflexo da sede vai diminuindo e é muito fácil um idoso desidratar-se sem sentir sede.

Evitar a exposição direta ao sol e beber água

Para evitar a exposição direta ao sol, o melhor é manter-se dentro de casa (ou de outro edifício). A tentação de ir à praia é grande, mas é melhor evitar fazê-lo durante as horas de maior calor (entre as 12.00 e as 17:00). O mesmo se pode dizer sobre viagens, de carro ou noutros transportes públicos. Mas se tiver mesmo que sair, deve aplicar protetor solar, usar chapéu e vestir roupas claras e largas.

Além disso, é importante consumir água ou outras bebidas sem açúcar e sem álcool. Deve-se beber água regularmente, mesmo não sentindo sede. A temperatura da água não importa. Se o corpo está a sofrer com o calor e precisa de arrefecer, não o pode fazer sem humidade suficiente, uma vez que o corpo arrefece por si próprio através da transpiração.

O que é a desidratação e porque devemos estar atentos

O nosso organismo está preparado para manter um certo equilíbrio, apesar das condições adversas. O corpo esforça-se por manter uma temperatura corporal interna constante de 37ºC ao longo do tempo. A isto chamamos homeostasia, que é a capacidade de adaptação a fatores externos (temperatura, humidade, etc.) dentro de determinado intervalo.

Durante os períodos de calor intenso, o corpo produz suor, sendo esta a principal forma que permite o arrefecimento do corpo à medida que o suor produzido se evapora. No entanto, as temperaturas elevadas que têm sido registadas estão mesmo no limite. Esta onda de calor começou na semana passada e irá prolongar-se pelo menos até ao dia 15, o que significa muitos dias com temperaturas muito elevadas.

Em situações extremas de exposição ao calor intenso, particularmente durante vários dias consecutivos, a Direção-Geral de Saúde (DGS) avisa que podem surgir doenças relacionadas com o calor, como as cãibras por calor, esgotamento devido ao calor e golpes de calor, situações relacionadas com o calor e a desidratação e que pela sua gravidade podem obrigar a cuidados médicos de emergência.

"É preciso ter muita atenção porque os efeitos na saúde não estão tão relacionados com um pico de temperatura mas mais pela permanência de temperaturas elevadas ao longo de vários dias. Quando existe uma dificuldade de adaptação ao calor que é permanente e não existe possibilidade de repor os níveis durante a noite, por exemplo, porque o calor continua, aí, sim, é que temos de ter mais atenção", explica à CNN Portugal o médico Bernardo Gomes.

Ao fim de muitos dias de temperaturas elevadas, “o corpo começa a ter dificuldades em fazer a regulação homeostática”, ou seja, manter em equilíbrio todas as suas funções. "No limite, as ondas de calor podem mesmo matar e todos os anos morrem pessoas devido ao excesso de calor", lamenta o médico.

Estes são os sinais de desidratação a que deve estar atento:

  • A sensação de sede extrema é o primeiro sinal 
  • Desorientação e tonturas
  • Pele seca e mucosas secas (boca, olhos)
  • Redução do débito urinário (nas pessoas dependentes é importante que o cuidador esteja atento)
  • Cãibras frequentes
  • Dores de cabeça e mal-estar generalizado

Bernardo Gomes sublinha ainda que a atenção a estes sinais deve manter-se para além da onda de calor: "Os efeitos podem sentir-se dias mais tarde, normalmente as mortes ocorrem depois".

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