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Há 23 anos Portugal viveu "a maior onda de calor da Europa" e houve 2.700 mortes. Agora o cenário é mais severo e mais longo: "Isto não tem nenhuma possibilidade de melhorar"

1 jul, 21:32
Onda de calor no Alentejo (Lusa/ Nuno Veiga)
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Até sábado, 12 dos 18 distritos vão estar sob aviso vermelho para temperaturas elevadas. Prepare-se para dias com 35 a 40 graus - talvez até mais - e noites com 24 a 28 graus

Entre 29 de julho e 14 de agosto de 2003, durante a mais longa e severa vaga de calor registada em Portugal, os termómetros subiram até aos 47,3 graus na Amareleja, no Alentejo, um recorde que se mantém até hoje. Beja chegou aos 45,4 graus, em Elvas registaram-se 44,9 graus, Lisboa chegou aos 42º e o Porto aos 39º. Vários locais viveram 14 dias seguidos em onda de calor - outro recorde - e estima-se que o fenómeno tenha provocado cerca de 2.700 mortes em excesso.

"Foi a maior onda de calor na Europa, foi uma situação absolutamente dramática", recorda Miguel Miranda, antigo presidente do IPMA - Instituto Português do Mar e da Atmosfera. "Na altura, não estávamos tão preparados para isto. Não havia sequer meios de refrigeração nos hospitais e nas urgências. Fizemos um longo caminho até aqui."

De então para cá, as ondas de calor entraram no vocabulário dos portugueses. E essa não é propriamente uma boa notícia. Desde o início de 2026, a equipa do IPMA estima que tenham ocorrido em Portugal 59 dias em onda de calor. Esse número vai aumentar, muito provavelmente, esta semana, uma vez que o início de julho está a ser marcado pela instalação de uma severa "cúpula de calor" que abrange grande parte do território nacional.

O que é uma onda de calor?

Segundo o IPMA, considera-se que ocorre uma onda de calor quando, num intervalo de pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respetivo mês, para um determinado período de referência. Atualmente, utiliza-se o período de referência 1991-2020.

As ondas de calor podem ocorrer em qualquer altura do ano, mas os seus impactos são mais notórios quando ocorrem nos meses de verão (junho, julho e agosto), quando as temperaturas já são mais elevadas à partida. "No verão, falamos de uma onda de calor quando temos vários dias com temperaturas acima de um limiar que, tipicamente, são os 35 graus, embora as ondas de calor sejam definidas de forma diferente nas diferentes zonas do país, porque as temperaturas normais nessas zonas são também diferentes", explica Miguel Miranda.

O problema das ondas de calor não é só que se atinjam temperaturas elevadas, diz, mas que essas temperaturas sejam persistentes. "As temperaturas podem ir até aos 43 ou 44 graus num dia e não vai haver um impacto grande. Mas se tivermos cinco dias seguidos com 40 graus, e depois as noites com 25, 26 ou 30 graus, como houve agora em França, isso já é um problema. É preciso que as noites tenham algum arrefecimento. Porque se não, cada dia que passa é pior do que o anterior. O problema muitas vezes não é a temperatura máxima, mas a mínima."

As ondas de calor são cada vez mais frequentes?

Sim - esta é a resposta curta, que rapidamente se confirma num olhar ao gráfico do IPMA que regista as temperaturas desde 1941

Nos últimos 30 anos têm-se observado mais eventos extremos de ondas de calor no período do verão em Portugal Continental, diz o IPMA. Esta situação tem sido notória em todo o território, no entanto, são as regiões do interior Norte e Centro (distritos de Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda) e o Alentejo (distritos de Setúbal, Évora e Beja) as mais afetadas.

O ano de 2022 detém o recorde de maior número total de dias em onda de calor, com mais de 90 dias. Em 14 de julho de 2022, a estação meteorológica de Pinhão–Santa Barbára (Viseu) registou a temperatura de 47 graus.

Em 2023 foram registados 80 dias em onda de calor e em 2024 os dados do IPMA apontam para 74 dias.

"Os modelos apontam para uma maior frequência das ondas de calor, mas o que estamos a observar é a subida lenta da temperatura média da terra. A Europa está a aquecer um pouco mais depressa", explica Miguel Miranda. "Todos os fenómenos que antes não chegavam a ser uma onda de calor, agora já o são, considerando que o critério se mantém essencialmente o mesmo. A nossa linha de base está a subir, isso é inelutável."

"O  que nós temos aqui é um clima tipo Alentejo-Andaluzia a estender-se a cada vez mais regiões. É um clima semidesértico, que tem temperaturas bastante elevadas no fim da primavera e no verão, e às vezes no princípio do outono, e têm humidades relativas baixas", acrescenta o especialista.

O verão de 2025 foi o mais quente em Portugal continental desde o início dos registos em 1931. A estação registou uma temperatura média de 23,51°C e uma média de temperatura máxima de 30,78°C, superando os valores normais e sendo acompanhado pela maior seca e pelas mais longas ondas de calor dos últimos 94 anos. O IPMA registou seis ondas de calor ao longo desse ano, o que resultou em condições climatéricas extremas que agravaram os incêndios rurais.

Mas Portugal não está sozinho. As ondas de calor na Europa são cada vez mais frequentes, mais prolongadas, mais intensas e extensas. Atingem, inclusivamente, regiões do território europeu onde tal não era habitual, como vimos recentemente. Temperaturas do ar acima de 40°C são cada vez mais frequentes durante os episódios de ondas de calor, com novos extremos de temperatura máxima a serem atingidos. Segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o número de ondas de calor em simultâneo no hemisfério norte é já seis vezes mais do que o que se verificava em 1980.

2026 arrisca-se a ser o ano mais quente?

O aviso vermelho devido ao calor vai ser alargado a partir de quinta-feira a Santarém, Portalegre, Évora e Beja, além de Lisboa e Setúbal, estendendo-se na sexta-feira a Viana do Castelo, Braga, Porto e Aveiro, além de Coimbra e Leiria. Ou seja, 12 dos 18 distritos vão estar sob aviso vermelho (o mais grave de uma escala de três), a partir de quinta-feira e até pelo menos sábado, devido à previsão de tempo quente, com “persistência de valores extremamente elevados de temperatura, quer da máxima, quer da mínima”, explica o IPMA.

O IPMA alertou que se prevê um "longo período com tempo quente e seco" - de pelo menos uma semana - com a temperatura máxima a atingir valores entre 35 e 41°C na generalidade do território, sendo entre 41 e 44°C no vale do Tejo e no Alentejo.

"A temperatura mínima irá registar valores superiores a 20°C igualmente em grande parte do continente, havendo regiões onde as temperaturas poderão não baixar dos 24 a 28°C durante várias noites, entre as quais a Grande Lisboa", acrescenta.

“Vêm aí dias absolutamente terríveis, com condições climáticas de exceção: elevadas temperaturas, em alguns locais podem chegar aos 47ºC. 47 graus, com ventos de 70 a 80 quilómetros e baixos índices de humidade, são as condições terríveis para termos um barril de pólvora aqui”, avisou também Luís Neves, ministro da Administração Interna.

"Estamos a entrar na redoma", diz Miguel Miranda, referindo-se aos filmes de ficção científica que costumávamos ver, que mostravam as pessoas "do futuro" vivem numa redoma climatizada. "Então, nós estamos a entrar na redoma, lentamente, pé ante pé, porque não estamos a conseguir parar o aquecimento e, portanto, as ondas de calor poderão tornar-se o novo normal." E conclui: "Isto não vai melhorar, isto não tem nenhuma possibilidade de melhorar. Temos que aprender a viver com estas temperaturas mais frágeis."

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