Portugal quase todo com 43 graus: DANA entre Açores e Madeira traz nova onda de calor

CNN Portugal , MJC
31 jul 2025, 16:12

Pico do calor será atingido na segunda-feira quando, em várias localidades, as temperaturas poderão atingir os 42 e os 43 graus

No domingo começa uma nova vaga de calor, com temperaturas máximas na generalidade do território português na ordem dos 43 graus, de acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Também a Agência Estatal de Meteorologia de Espanha (Aemet) explica que, pelo menos até quarta-feira, as massas de ar que sobrevoarão a Península Ibérica "serão até graus mais quentes do que o normal", confirmando que tanto no centro como no sul da península as temperaturas podem ser ultrapassados os 40 graus.

Uma depressão ou uma pequena Depressão Isolada em Níveis Altos (DANA) entre a Madeira e os Açores ajudará a impulsionar uma massa de ar extremamente quente proveniente do norte de África. Espera-se que o pico da onda de calor seja na segunda-feira, quando as subidas térmicas continuarão e se estenderão a praticamente toda a Península Ibérica, com valores próximos dos 40 graus e, muito provavelmente, superiores a 42 graus no Vale do Guadiana. A partir de quarta-feira, dia 6 de agosto, as temperaturas começam a descer.

Será uma situação semelhante à que ocorreu há precisamente um mês, quando se registaram temperaturas superiores a 46 graus em algumas localidades do Alentejo, o que demonstra que as ondas calores estão a tornar-se fenómenos cada vez mais comuns.

"Nos últimos 24 anos o número de ondas de calor é muito superior do que aos 60 anos anteriores", confirma à CNN Portugal o climatologista Pedro Garrett. "Isto é uma consequência direta da emissão de gases de efeito estufa e daquilo que é o aquecimento geral da atmosfera. Isto é bastante preocupante. Temos um conjunto de outros fenómenos que conseguimos medir, que de alguma forma ainda potenciam mais ou agravam também os incêndios, nomeadamente, por exemplo, a expansão do anticiclone dos Açores, que é muitas vezes responsável pelo tempo mais quente e mais seco no Mediterrâneo. E também um efeito que é relativamente recente, aquilo a que chamamos de efeito de cúpula, que prolonga os períodos mais secos e mais quentes na zona do Mediterrâneo e noutros sítios, como por exemplo nos Estados Unidos."

Na prática, a "cúpula de calor" é como se uma tampa gigante fechasse o oceano em redor, impedindo a libertação de energia, o que acaba inevitavelmente por aquecer o ar. Como estivéssemos dentro de um recipiente a ferver.

A tendência é para que as temperaturas continuem a subir, em especial na Europa

"A tendência é para um aumento da temperatura média global, em especial na Europa. Isto porque o hemisfério norte tem mais superfície terrestre do que o hemisfério sul, nesse sentido há um potencial de aumento da temperatura que é superior àquilo que nós chamamos de média global", explica Pedro Garrett. "Portanto, não é honesto pensar que durante os próximos anos ou décadas possamos vir a ter uma temperatura mais amena. As tendências não são essas, e nós sabemos isso desde o início deste século, são dados perfeitamente conhecidos e estudados. Hoje em dia conseguimos medir os impactos causados pelo aumento de gases de efeito de estufa e isso é que torna a investigação científica que tem sido feito até à data muito mais relevante porque hoje conseguimos medir efetivamente o que está a acontecer."

Os impactos são também medidos em termos económicos, explica o climatologista. "Se contabilizarmos os impactos causados por eventos climáticos e meteorológicos extremos, entre 1980 e 2000, em média, Portugal gastava por ano cerca de 70 milhões de euros. Isto são dados corrigidos à inflação de 2023, incorporando os impactos diretos e indiretos. Os impactos indiretos têm a ver com os efeitos na mortalidade e na morbilidade, nos serviços dos ecossistemas, por exemplo, quando uma fábrica para a sua atividade devida aos incêndios. Portanto, durante a década de 80 até 2000, nós conseguimos, tínhamos uma média de 70 milhões de euros por ano de custos devidos ao aumento das temperaturas. Desde 2000 até 2023, estados corrigidos à inflação, novamente, gastamos cerca de 600 milhões de euros com impactos diretos e diretos, é cerca de quase 10 vezes mais."

É expectável também que se observe um aumento da mortalidade associada ao calor extremo, confirma Pedro Garrett. "Os mais idosos, pessoas com doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, são mais vulneráveis. O aumento da mortalidade é um impacto direto das ondas de calor e da pobreza energética - estamos a falar do conforto térmico nos edifícios. Estes são impactos que podem ser transversais à nossa sociedade, do ponto de vista ambiental, económico e social."

E o diagnóstico está feito, é muito difícil adaptarmos, as estimativas são por cada euro gasto na adaptação, nós conseguimos reduzir cerca de 10 euros em danos expectáveis, é com base nestas medidas que tentamos construir ou idealizar um conjunto de formas de lidar com este tipo de problemas, mas não é fácil, tem de ser visto caso a caso, os municípios têm feito um papel que é importante, o governo português também, do ponto de vista da transição energética, tem desempenhado um papel de referência a nível mundial, e a Europa também tem sido bastante aplaudida nesse aspecto, mas se não trazemos, por exemplo, entidades ou países como os Estados Unidos, a China, a Índia, para a questão da diminuição contínua de gases de efeito de estufa, teremos sempre um agravamento do problema.

Aumenta o risco de incêndio

Este é um cenário preocupante também para o combate às chamas, de acordo com o IPMA: "Temos um período prolongado sem chuva e portanto os solos começam a entrar em stress, ficam cada vez mais secos, e isso aumenta o risco de incêndio. Depois com o disparar das temperaturas e algum vento nas terras altas, claro que o risco de incêndio vai aumentar".

Pedro Garrett sublinha que em Portugal, a maioria dos incêndios tem origem humana, seja por negligência, seja por origem criminosa. "A tempestade perfeita é precisamente a combinação entre as ignições e as condições meteorológicas que tornam estes focos de incêndio muito mais gravosos e mais extensos, como já tem vindo a acontecer nestas últimas décadas, nomeadamente em 2003, 2007. Todos estes incêndios têm dimensões a que não estávamos habituados, mas que de alguma forma temos que aprender sempre com os eventos passados e tentar redimensionar a nossa resposta para combater por um lado as ignições, mas por outro lado também gerir de uma forma correta a nossa floresta para que os impactos sejam minimizados."

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