Nos EUA têm uma pergunta para todos nós: porque é que o ar condicionado é tão raro na Europa?

CNN , Laura Paddison e Mitchell McCluskey
24 jun, 19:32
Calor
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O ar condicionado é pouco comum na Europa devido a fatores históricos, custos elevados e limitações dos edifícios antigos. Apesar disso, o aumento das ondas de calor está a mudar essa realidade e a impulsionar a sua adoção

As ondas de calor brutais estão a tornar-se mais frequentes na Europa, deixando milhões de pessoas com dificuldades em adaptar-se a temperaturas sufocantes e recordes.

Há pouco alívio. O ar condicionado é muito raro nas casas europeias. Muitos residentes enfrentam o calor intenso recorrendo a ventoinhas, sacos de gelo e duches frios.

Mas a Europa nunca encarou o calor da mesma forma que os Estados Unidos, historicamente mais quentes. Enquanto quase 90% das casas norte-americanas têm ar condicionado, na Europa esse valor ronda os 20%.

À medida que as alterações climáticas provocam ondas de calor mais severas e prolongadas, que chegam cada vez mais cedo, alguns questionam porque é que países europeus ricos pareceram tão relutantes em adotar o ar condicionado - especialmente quando o calor está a causar um número crescente de mortes.

Grande parte da explicação é histórica: muitos países europeus tiveram pouca necessidade de arrefecimento, sobretudo no norte do continente. Sempre existiram ondas de calor, mas raramente atingiam as temperaturas elevadas e prolongadas que hoje a Europa enfrenta regularmente.

"Na Europa… simplesmente não temos tradição de ar condicionado… porque até há relativamente pouco tempo não era uma necessidade importante", afirma Brian Motherway, responsável pelo Gabinete de Eficiência Energética e Transições Inclusivas da Agência Internacional de Energia.

Uma mulher refresca-se debaixo de um pulverizador de água durante o festival anual de música de rua, Fête de la Musique, no sudoeste de França, a 21 de junho de 2026. (Romain Perrocheau/AFP/Getty Images)
A água corre de uma fonte pública no mercado do peixe da Cidade Velha de Erfurt, na Turíngia, Alemanha. (Martin Schutt/picture alliance/dpa/Getty Images)

Isto fez com que o ar condicionado fosse tradicionalmente visto como um luxo e não como uma necessidade, sobretudo porque a instalação e utilização podem ser dispendiosas. Os custos energéticos em muitos países europeus são mais elevados do que nos EUA, enquanto os rendimentos tendem a ser mais baixos.

O custo de manter um aparelho de ar condicionado ligado continua fora do alcance de muitos europeus.

Depois há a arquitetura.

Alguns edifícios nos países mais quentes do sul da Europa foram construídos para resistir ao calor. Têm paredes espessas, janelas pequenas que impedem o sol de entrar diretamente e foram concebidos para maximizar a circulação do ar. Isso ajudou a manter temperaturas mais frescas e reduziu a perceção da necessidade de refrigeração artificial.

Noutras partes da Europa, no entanto, as casas não foram pensadas para o calor.

"Não tínhamos o hábito… de pensar em como nos manter frescos no verão. É realmente um fenómeno relativamente recente", explica Motherway.

Os edifícios no continente tendem também a ser mais antigos, construídos antes de a tecnologia do ar condicionado se tornar comum. Em Inglaterra, que acabou de registar o junho mais quente de sempre, uma em cada seis casas foi construída antes de 1900.

Adaptar casas antigas com sistemas centrais de refrigeração pode ser mais difícil, embora esteja longe de ser impossível, acrescenta Motherway.

As pessoas usam guarda-chuvas enquanto o tempo quente continua em Londres, Reino Unido, a 22 de junho de 2026. O serviço meteorológico britânico (UK Met Office) emitiu um raro aviso vermelho para partes de Inglaterra e do País de Gales devido à previsão de uma onda de calor para o final dessa semana. (Rasid Necati Aslim/Anadolu/Getty Images)

Por vezes, um problema ainda maior é a burocracia, segundo Richard Salmon, diretor da Air Conditioning Company, sediada no Reino Unido.

As autoridades britânicas rejeitam frequentemente pedidos de instalação de ar condicionado "com base no impacto visual da unidade condensadora exterior, especialmente em zonas de conservação ou edifícios classificados".

Existe também uma dimensão política. A Europa comprometeu-se a atingir a neutralidade climática até 2050 e um aumento acentuado do uso de ar condicionado tornaria esses objetivos ainda mais difíceis de alcançar.

Além de consumirem muita energia, os aparelhos expulsam calor para o exterior. Um estudo sobre a utilização de ar condicionado em Paris concluiu que estes podem aumentar a temperatura exterior entre cerca de 2 e 4 graus Celsius. Este impacto é particularmente grave nas cidades europeias, geralmente mais densas.

Alguns países já impuseram medidas para limitar o uso do ar condicionado. Em 2022, Espanha introduziu regras que determinam que o ar condicionado em espaços públicos não deve ser regulado para menos de 27 graus Celsius, com o objetivo de poupar energia.

No entanto, as atitudes e preocupações em torno do ar condicionado na Europa estão a mudar à medida que o continente se torna um dos principais pontos críticos das alterações climáticas, aquecendo ao dobro da velocidade do resto do mundo.

A Europa enfrenta agora um dilema: adotar um ar condicionado intensivo em energia, com os impactos climáticos que isso implica, ou encontrar alternativas para lidar com um futuro cada vez mais quente.

"As nossas casas precisam de ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais extremo", afirma Yetunde Abdul, diretora do UK Green Building Council.

Uma mulher refresca-se com um leque numa paragem de autocarro que indicava uma temperatura de 37 graus Celsius durante uma onda de calor em Madrid, a 1 de julho de 2025. (Thomas Coex/AFP/Getty Images)

Já existem sinais claros de crescimento da procura na Europa, tal como acontece em muitas outras regiões do mundo. Um relatório da Agência Internacional de Energia concluiu que o número de aparelhos de ar condicionado na União Europeia deverá atingir os 275 milhões até 2050 - mais do dobro do registado em 2019.

Richard Salmon afirma ter assistido a uma explosão da procura. "Nos últimos cinco anos, os pedidos residenciais mais do que triplicaram. Esta onda de calor, em particular, fez disparar tudo… As pessoas simplesmente não conseguem funcionar quando estão a ferver às três da manhã."

Mas os especialistas alertam que o ar condicionado pode oferecer um alívio rápido, mas consome enormes quantidades de energia, grande parte ainda produzida a partir de combustíveis fósseis.

Utilizar ar condicionado alimentado por combustíveis fósseis aumenta as emissões que aquecem o planeta, o que por sua vez eleva ainda mais as temperaturas, alimentando "um ciclo vicioso de agravamento das alterações climáticas", considera Radhika Khosla, professora associada da Smith School of Enterprise and the Environment da Universidade de Oxford.

A realidade é que a forma como a Europa encara o ar condicionado vai inevitavelmente mudar, à medida que o calor extremo - e os seus impactos na saúde - aumentam, segundo Motherway.

O desafio será garantir que os países adotem regulamentação forte sobre a eficiência dos sistemas de refrigeração para reduzir o seu enorme impacto climático.

"Porque cada aparelho de ar condicionado vendido hoje fixa consumo energético e emissões para a próxima década ou duas décadas. Por isso, é importante fazermos isto bem logo à primeira."

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