Tive ou tenho covid: quantas vezes posso apanhar outra vez? Qual é o tempo entre cada reinfeção?

18 mai, 08:00
Teste covid-19 (EPA)

"Nós estamos todos fartos deste vírus mas o vírus não está farto de nós"

Portugal deixou cair as máscaras, a sublinhagem da Ómicron é cada vez mais dominante entre a população e o número de novos casos continua a acelerar. Segunda-feira foram registados cerca de 34 mil contágios. Devemos estar em estado de alerta? A reposta é sim. Mesmo quem tenha estado infetado com covid-19 em janeiro, por esta altura deve redobrar os cuidados não só porque a imunidade entretanto já decaiu bastante, mas também porque a sublinhagem BA.5 tem a capacidade de invadir o nosso sistema imunitário contornando os poucos anticorpos que restam. 

Ao final de mais de dois anos de pandemia, não é novidade que as reinfeções são uma realidade do presente mas também do futuro, uma vez que as vacinas têm como objetivo proteger-nos do desenvolvimento de doença grave, não impedindo por isso uma (re)infeção - até porque vão surgindo novas variantes. Ainda assim, a vacinação continua a ser a melhor arma de defesa contra o SARS-CoV-2 e tem impedido ao longo do tempo o aumento da mortalidade covid.

Quantas vezes podemos ser reinfetados e com que frequência?

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes explica à CNN Portugal que não existe uma resposta certa e científica sobre quantas vezes podemos ser reinfetados mas está provado que a duração da proteção contra a infeção "tem valores bastante altos durante dois a três meses e depois começa a cair". Um cenário que se acentuou ainda mais com o surgimento da variante Ómicron e respetivas sublinhagens. "Parece ter aperfeiçoado a capacidade de invadir o nosso sistema imunitário." 

"O risco de a pessoa ser novamente infetada começa a subir rapidamente. Ao fim de aproximadamente quatro a cinco meses, o risco é muito alto porque a pessoa tem uma concentração de anticorpos muito baixa, às vezes difícil de detetar. A BA.5 tem capacidade de fugir dos anticorpos da vacinação e dos anticorpos induzidos pela infeção da BA.1 ou da BA.2. Quem foi infetado com a BA.1, nos primeiros dois ou três meses ainda tem uma grande proteção das outras sublinhagens mas isso decai ao final de três ou quatro e, nessa altura, pode ser infetada com a BA.5." 

Com foco na sublinhagem BA.5 - que apresenta em Portugal uma tendência crescente que deverá chegar aos 80% a 22 de maio, segundo as estimativas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) -, o especialista esclarece que esta não é mais preocupante que as anteriores, visto que "não existe qualquer evidência de que cause uma doença mais grave", apesar de ter maior capacidade de contágio. 

Os fatores-chave da reinfeção

O médico de saúde pública Bernardo Gomes tem uma visão bastante idêntica: "Aquilo que sabemos agora é que não há uma imunidade perene para a infeção por este vírus [SARS-CoV-2], o que quer dizer que temos sempre a possibilidade de ser reinfetados". A contribuir para esse cenário existem, na ótica do especialista, três fatores-chave: as características e a proximidade da vacina administrada; a proximidade da última infeção ("porque se formos infetados há pouco tempo temos menor probabilidade de ser infetados com a mesma estirpe"); e o surgimento de uma nova variante. 

"A tendência natural é termos estirpes com maior transmissibilidade e maior escape imunitário, por isso as reinfeções vão ser a norma", afirma à CNN Portugal. 

Manuel Carmo Gomes defende mesmo que perante "um padrão diferente de evolução do vírus" Portugal poderá ter "várias vagas de infeção nos próximos tempos" e, ao contrário das gripes e constipações, "a Ómicron não parece estar ligada às estações do ano". "Nós podemos perfeitamente ter uma nova vaga agora no verão e é provável que quando chegarmos ao outono/inverno tenhamos uma nova sublinhagem", afirma.

"Resumindo isto numa frase, eu diria: nós estamos todos fartos deste vírus mas o vírus não está farto de nós. As únicas boas notícias é que estas sublinhagens, de um modo geral, não causam doença grave e não há nenhuma razão para acreditar que alguma delas vá evoluir para algo mais grave", acrescentou o epidemiologista. 

A pandemia ainda não acabou

Ao mesmo tempo que as vacinas estão a ser modernizadas e se continua a avançar com novas doses um pouco por todo o mundo, o vírus também continua a fazer o seu trabalho, ou seja, a evoluir e apresentar características diferentes. E isso já ´é visível quando comparamos a Ómicron com as variantes Alfa, Beta ou Delta. 

Segundo as explicações de Manuel Carmo Gomes, estas variantes mais antigas apresentavam "um padrão e uma ligação evolutiva que não compreendíamos" e tinham uma carga viral elevadíssima que as tornava bastante agressivas e severas. Já a Ómicron caracteriza-se por "conseguir fugir dos anticorpos circulantes que temos no sangue". 

Como tal, e apesar do alívio das obrigatoriedades e das medidas restritivas, a pandemia ainda não acabou e os especialistas não vislumbram a meta. Para Bernardo Gomes existe uma obrigação que não está a ser cumprida quer pela Direção-Geral da Saúde, quer pelo Ministério da Saúde: a de prestar informação verdadeira. 

"Nós tivemos pessoas no espaço público que diziam que isto acabou. Quando foi decretado o final da obrigatoriedade no final de abril, não foram emitidas medidas de precaução, nomeadamente a ventilação de espaços fechados. De uma forma geral, continuamos a desprezar a possibilidade e a necessidade de termos a ventilação no centro da discussão e a possibilidade de nos prepararmos para futuras vagas. A resposta pandémica atual não está devidamente ajustada. Não foi passada uma mensagem correta ou, pelo menos, não foi percecionada como tal." Para Bernardo Gomes é importante que o Governo passe a mensagem de que a pandemia ainda não terminou, que o vírus continuar a evoluir, que vão surgir novas vagas e que as vacinas continuam a ser o a forma de proteção mais útil. 

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